quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Imortal.

Desde que minha amada avó faleceu nunca mais a vida foi a mesma para mim.
Eu a amava demais, éramos cúmplices e muito íntimas, dividíamos nossos maiores sonhos e medos, e não fiz por ela tudo que desejaria ter feito, pois, até então, não tinha consciência de quanto a vida é finita e de que algum dia definitivamente não a veria mais, mas para meu espanto esse dia chegou...
Foi numa tarde de terça-feira, depois de uma noite mal dormida, devido seu estado de saúde já bem debilitado... Naquela noite vovó não fez xixi nenhuma vez, ela que sempre teve a mania de fazer xixi várias vezes por noite, levantar para ir ao banheiro de hora em hora, não sei se por ansiedade ou por efeito diurético do seu remédio para hipertensão, mas naquela noite não, estava muito fraca e suas pernas há dois dias foram perdendo as forças, seus passos eram lentos e penosos, e nessa noite ela não trocou mais seus passos sozinha, foi quando então, na hora de dormir, mamãe e eu tivemos a ideia de colocarmos fraldas geriátricas para conter a urina, que tínhamos certeza que ela faria durante a noite e assim ela não precisaria se esforçar para levantar e com dificuldade ir até banheiro, mas que nada, a noite toda sua respiração foi mais intensa, ora mais dificultosa ora mais tranquila, às vezes, chamava por mamãe, ou era sua mãezinha querida do céu ou sua única filha na Terra que a essa altura fora mais que sua mãe, cuidou e zelou por ela com todo amor até seu último suspiro... Para nossa surpresa e temor, naquela manhã mamãe foi correndo verificar se vovó tinha feito xixi, mas não tinha feito uma gota sequer, foi aí que recebemos nossa primeira intuição de que as coisas não iriam bem mesmo e que a fatalidade nos rondava, vovó não falou nenhuma palavra, com esforço abriu seus olhos pequeninos, nos viu e sorriu, um sorriso lindo de quem se despede de uma vida, cuja missão fora já cumprida, seu semblante era sereno e não de dor, vovó voltou a dormir, sua respiração ainda era oscilante, ora dificultosa, ora tranquila...
Confesso que foi difícil encarar mamãe nos olhos e tentar dizer o que eu pensava, meu deus, eu pensava milhões de coisas, o que poderíamos fazer, chamar uma ambulância, levá-la ao hospital mais uma vez, deixá-la morrer em casa, amparar minha mãe, dizer o que realmente aconteceria para minha mãe, mas, não tive coragem, apenas me calei, não tive coragem de confessar nem a mim mesma que vovó partiria e nos deixaria aqui nessa vida... Então, como num ritual primitivo, como num impulso instintivo de nossos ancestrais, nos reunimos em torno da cama de vovó, mamãe segurou suas mãos ainda quentes, eu segurei as mãos de mamãe e minha filha que como um anjo segurou às minhas, e juntas em silêncio demos as mãos para vovó sentir nosso apoio e nosso amor, nada mais poderíamos dar para ela.
Vovó continuou dormindo por mais algumas horas e dormindo vovó partiu para um outro mundo que ainda desconhecemos, um mundo imaterial, sem corpo, sem peso, talvez sem dor.
Mas se o amor for mesmo imortal minha Avó Magali, morrerei feliz por saber que nada foi em vão, que nossos sentimentos estarão eternamente interligados por alguma força maior que ainda desconheço, morrerei feliz por saber que estivemos, estamos e estaremos juntas, ainda, mais uma vez.
Eu te amo!



26/07/2010.
Mariana Lima de Almeida, sua neta.

Um comentário:

  1. Mariana,minha filha,meu amor,minha continuação........
    Mais uma vez vc soube descrever com perfeição,uma situação vivida por nós que no caso foi a partida de quem amavamos tanto.
    A vovó Magali,foi a situação mais difícil que eu tive que passar,mas de contra partida eu pude contar mais uma vez com vc e sua continuidade que é a Larissa ,foi o legado que vovó deixou para nós,nós amarmos muito .Mil beijos .Obrigada por vc ser minha filha te amo,Mamãe Malú

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