sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Da poesia.

Essa dor nunca passa
Nem nunca vai passar
Quem nasceu para sentir
Não consegue fingir
Tamanha felicidade
Em face a falsidade
Me disseram que a poesia é arte
Coisa fina, coisa nobre
E o poeta um sonhador
Mas o que eu sei
É que a poesia é ofício
Do poeta que traduz
Em versos líricos
Toda a sua dor.


(Mariana de Almeida).

Nosso amor.

Nosso amor era doença
Curava os dias
Enlouquecia as noites
Entorpecia nosso sangue
Bombeava nossas veias
De versos, lirismo e vinho
Anoitecíamos Santos
Amanhecíamos Loucos
Cobertos de poemas
Que marcavam na pele
Como tatuagens
E palavras rabiscadas
Que nunca decifravam
Nossa vaidade letal
Que mancharia de sangue
Toda poesia que fizemos um dia.


(Mariana de Almeida).

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Meus poemas.

Você não lê mais os meus poemas
Diz que sim, mas eu sei que não
Passa os olhos como se fosse
Notícias falsas de um jornal
Passa os olhos mortos
Como quem passa a manteiga no pão
Todas as manhãs são assim
Todas as manhãs são iguais.
Minha poesia declara guerra
Em meio aos montes de papéis
Acumulados sobre a mesa
É inútil tentar chamar sua atenção
Você ignora, embora finja que não
E nossa vida passa dispersa
Por entre os dedos das mãos.
Entre jornais, boletos e segredos
Grita minha poesia nua
Contra tua frieza muda
Inútil tentar chamar sua atenção
Você não lê mais os meus poemas.

E de fato, acho que nunca os leu
Tudo que um dia nos uniu
Foram as rimas das falsas alegrias.

(Mariana de Almeida).

Feliz ano novo.

   É assim quando nada mais nos satisfaz nem sossega. Vira e mexe e a vida traz aquela velha sensação de tédio e estupidez, talvez seja essa época do ano em que revemos tudo que foi prometido e não foi cumprido, todas as renovações de ano novo sem nos renovarmos de fato, são aquelas mesmas perguntas sem respostas de sempre: Por que nascemos, por que passamos por tantas coisas ruins, se Deus existe e se existe por que ele permite tamanhas atrocidades, se não existe por que tanta gente ainda insiste que existe? Essas perguntas sem respostas que vagam entre nossos pensamentos e nos causam insônia, medo e solidão, pois pior que saber a verdade é nunca sabe-la. 
   Tudo tão vago e inexato que simplesmente devemos aceitar. Devemos aceitar a mulher sem dentes debaixo do sol escaldante pedindo dinheiro no semáforo, devemos aceitar o preço da carne nos supermercados, devemos aceitar o abandono, devemos aceitar o poder, devemos aceitar a demora nos consultórios médicos, devemos aceitar os programas ruins de televisão, devemos aceitar as portas giratórias dos bancos da cidade que sabem tudo que carregamos na bolsa e nos bolsos e principalmente sabem que não carregamos dinheiro, devemos aceitar responder perguntas em formulários e fichas de inscrição, devemos responder nossa renda baixa e nosso estado civil falido, devemos responder que somos mães solteiras, devemos aceitar e assinar os termos de responsabilidade por tudo de mal que nos acontecerá, devemos deixar nosso número de telefone para todos cobradores nos encontrar, para o colégio de nossos filhos nos ligar e para a notícia boa que nunca chegará.
    Esses dias de profundo nada são assim, resta a obrigação de continuar vivo: Ir para o trabalho, limpar o quarto, trocar a água dos cachorros, tomar banho rápido, não fazer barulho, não perturbar o dia nem interromper a noite. O coração, salta, acelera, ameaça um grande devaneio mas apenas se contém, um dia será contido finalmente. Repousará profundo indiferente ao preço da gasolina, à alta do dólar, ao homem louco que se suicidou, a conta atrasada que venceu e não pagou, aos meninos do semáforo que denunciam o Brasil, a nossa falsa democracia, os herdeiros de nossas células que carregarão a dor e o tédio de todos os séculos até o dia em  que tudo será pó e vastidão.
   Nós, os humanos e nossas estúpidas aflições seremos nada, nada além de poeira perdida na infinita vastidão do espaço.

   Que assim seja, feliz ano novo de novo a todos.

(Mariana de Almeida).



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Minha.

Me desculpe,
Se não estou afim
Se não estou à toa
Se não estou na tua
Se não te espero nua.

Se sigo sozinha
Entre a noite e o dia
Rasgando versos
Entornando o vinho
A espera do grande dia.

Eu espero pela primavera
Ver meus campos floridos
Repletos de lírios e poesias
Assim na terra como nos livros
Eu não desisto.

Aprendi a resistir à algumas batalhas
Sobrevivi aos piores holocaustos
Para finalmente ser minha
Do jeito que eu queria
Minha, só minha.

Poema de:(Mariana de Almeida).


Maria menina.



 Maria era uma dessas meninas que estão na vida

Sem saber de onde vinha, sem saber para onde iria

Dessas meninas sem eira nem beira,

Que da vida só levam rasteiras

Maria menina cresce e vira Maria Mulher

Dos sonhos de menina de Maria, nenhum restaria

Maria queria ser artista de circo, mas acabou sendo artista da vida

Sustentava um marido e três filhos com um salário mínimo

Maria acordava cedo para poder fazer a mesa

As vezes tinha pão, às vezes não tinha não

As vezes coava café, às vezes só lhe restava fé

Maria sofria por deixar os meninos à vela

Mas quem cresce na favela sempre encontra uma reza

E a vida leva Maria do subúrbio à cidade

Em seus ônibus lotados de gente atrasada

Vai Maria e volta Maria que nunca desiste

De ser na vida, só o seu sonho de menina.

(Mariana de Almeida).








sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A paixão.

Amar o que não se conhece é fácil
Sempre acontece comigo
Me apaixono pelo que não tenho
Ardo pelo que eu desejo
Atravesso todo o fogo
E quando me queimo
É puro incêndio!
Apitam alarmes e sirenes
E toda paixão me cega
Tal fumaça que exala
Cianeto e gás carbônico que mata.



Dois cafés.

Eu, você e essa louca intuição
Que insiste em me transtornar
Dizendo que nascemos um ao outro
Como os versos de amor daquela canção
Como café e açúcar na exata proporção
Como a mistura de pele que é pura explosão.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Da dor de ser mulher.

Eu fui mulher um dia, eu sei
Eu fui amada um dia, eu sei
Eu gerei a vida, rompi o dia
Pari novos filhos
Para essa Pátria triste
Fervi a água, coei os dias
Esquentei o leite
Reinventei o pão
Troquei as camas
E refiz a canção
Mas o sono dos justos
Eu não tive não
Mal me deitava
E o dia já raiava
Clamando suas injustiças
Batendo em retirada
Batendo em minha cara
Recolhendo toda poesia
Que distraidamente
Entre as roupas limpas
Eu estendia no varal
Que secava nossa vida.



terça-feira, 22 de novembro de 2016

O melhor do mundo.


É preciso levantar da cama e vencer o dia,
Sair às ruas e tomar as passeatas,
Clamar por justiça, denunciar o ódio e a intolerância,
Abraçar os amigos e tomar um café,
Caminhar sob o sol e esperar pelo anoitecer,
Tem coisas que ainda valem a pena serem vividas,
Tem belezas que ainda resistem,
Tem vida que ainda germina,
Ah, ainda tem o amor!
Esse peralta que nunca desiste
E insiste em sonhar, em sonhar
Que o melhor do mundo ainda vai começar.

(Mariana de Almeida).

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Elos quebrados.

   Nada mais triste que quando elos são quebrados, algo acontece uma vez, duas, três talvez e o elo se desfaz numa explosão catastrófica. Nos desfazemos, não nos precisamos mais, não nos confidenciamos e quiçá nos confiamos mais.
   É um pouco como morrer, você morre mas seu corpo continua vivo, ainda sente sede, fome e uma  solidão absurda, algo em você cala-se para sempre. Os olhos evitam os olhares, é um luto, dói, acabou o muito que um dia existiu, o olhar cúmplice e acolhedor, o abraço quase fraternal, os dedos entrelaçados, os pés se tocando no sofá... Sei que um dia fui amada e por isso eu perdoo o tempo.
   Nunca fui a preferida, não fui a menina dos olhos, não fui princesa por nenhum dia, não tive baile de debutante, não dancei valsa em nenhuma formatura, não fui a mais bonita da rua e não casei de branco, véu e grinalda na capela  mais próxima, não venci na vida como Hollywood ensinou... eu não fui abençoada.
   Neguei todas as oferendas, simpatias e orações. Dei a mão para quem não podia, conversei com estranhos na rua, experimentei venenos e entornei o vinho seco. Não fiz dietas, não frequentei academias lotadas, não abandonei os cigarros nem os remédios, não me vendi como devia, não enfrentei os credores nem fugi dos devedores como eu.
   Nessa retrospectiva de idas e vindas, de mentiras e verdades, contornando o medo e fingindo coragem chegamos até aqui num murmúrio abafado sufocados por um silêncio forçado.
   É preciso falar baixo, é preciso respeitar os mortos. Embora a maioria não saiba, mas os mortos têm ótimos ouvidos e nos ouvem  mesmo enterrados debaixo de sete palmos de terra gélida e fétida.
   Assim nosso tempo passou, passou o bom e o mal tempo, passaram os dias e as noites, invernos e verões, dias de dores e de ternuras. Ainda me lembro do seu olhar protetor e do calor tenro que emanava da pele áspera de suas mãos.
   Eu te amei como jamais amaria outro alguém, mas elos foram quebrados, poeira para todos os lados, nossa visão embaralhada para o resto da vida destruindo a paisagem a nossa volta.
   Tempos de adeus, malas e recomeços. No rádio ainda toca a canção que a gente adorava, mas não nos diz mais nada. Tudo em volta é deserto e abafado, é preciso encontrar água fresca e sombra para mim e para você. Você que não conheço mais, você que ficou num elo quebrado do passado, você que amarelou no meu porta-retratos guardado num fundo de armário, você que passou e para sempre se foi.
 


(Mariana L.de Almeida)

Desculpe.

Me desculpe,
Se não estou afim
Se não estou à toa
Se não estou na tua
Se não te espero nua.

Se sigo sozinha
Entre a noite e o dia
Rasgando versos
Entornando o vinho
A espera do grande dia.

Eu espero pela primavera
Ver meus campos floridos
Repletos de lírios e poesias
Assim na terra como nos livros
Eu não desisto.

Aprendi a resistir à algumas batalhas
Sobrevivi aos piores holocaustos
Para finalmente ser minha
Do jeito que eu queria
Minha, só minha.

Poema e fotografia de:(Mariana de Almeida).

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Por que?



Por que você insiste em nunca dizer o que sente, se impõe forte e prepotente?
Por que você insiste em nunca jogar na sua classe e somente no time adversário?
Por que você insiste em nunca defender seus direitos e somente os alheios?...
Por que você cumpri tantos deveres os quais não deve para ninguém?
Por que você não encara essa guerra onde alimenta aqueles os quais nunca te salvarão?
Por que você não se junta a tua classe e se abre em flor num forte abraço?
Por que você não defende teu irmão que agoniza abandonado e deixa teu carrasco sanguinário de lado?
Não se pertence à uma classe fazendo-se de escravo dela ou cortejando-a com flores de jornal de ontem;
Uma classe se faz com homens que se reconhecem no abuso e na opressão;
Mas que não aceitam a escravidão, pois também se reconhecem nos sonhos de liberdade e igualdade onde todos são irmãos.



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Vida e arte.


Eu não sabia

Que na arte, assim como na vida

Também existia inveja e picuinhas

Triste essa inútil rivalidade

Pois na arte, assim como na vida

Todos são únicos e insubstituíveis

Cada qual com seus dilemas

Cada qual com seus deleites

Minhas palavras traduzem as estradas

Repletas de asfalto falhos e esburacados

Respeito profundamente a tua estrada

Que também foi feita do mesmo asfalto

Há espaço para todos, na vida e na arte

E incrivelmente estes se multiplicam

Se seguirmos de mãos dadas.

(Mariana de Almeida).





quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Maria.

Ah Maria,
Teu nome perdido entre tantas estrelas
Teu sonho vendido entre restos de feira
Tua vida lograda entre tantas portas erradas.

Ah Maria,
Você que foi em vida tão doce menina
Não merecia tanta punição e castigo
Por entregar-se sem pudores à poesia.
Rasgar-te as roupas em plena noite
Romper os véus depois dos açoites
Gozar o corpo depois do amor
Pagou teus sonhos com tua mais profunda dor.

Ah Maria,
Há de ser a morte a recompensa dos teus dias
Há de ser a morte uma tarde que nunca se finda
Há de ser a morte o descanso de tua cólera e ira
Pagaste Maria, Pagaste nota por nota
Por cada riso e por cada flor
Encerraste a conta, fechaste a cota
Descansa Maria, não deves nada
És livre, és leve como o beija flor.

Ah Maria,
Não mais sustentará as pernas do mundo
Com tua poesia que denuncia toda dor
Ouça o silêncio Maria, apenas ouça
É o silêncio que buscava em tuas noites insones
Agora será o silêncio que te embalará
Para toda a eternidade, noite após noite.
Descansa, Maria.

(Mariana L. de Almeida)
Imagem: Klimt.



terça-feira, 1 de novembro de 2016

Cidade.

A cidade seca, desfolhada e nua
Desabitada, sem remorso e crua
Dos concretos de cimento e chão
Emerge selvagem como louca paixão
Num dia de inferno, quente de verão
A vida, que resiste embora tantos nãos.


Poema e fotografia: (Mariana L. de Almeida)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

#Divagações.

Pra mim poeta não é gente como as gentes de carne e osso, poeta é outra espécie senciente, ainda não traduzida e que nunca entrará em extinção, porque o poeta é o que enxerga pelo vão das janelas do mundo, é o que espia pelo espelho das moças da vida, é o que vê a luz quando finalmente tudo está escuro, é o que desvenda o monstro e ainda o acolhe, é o que ama o feio e o inacabado e é o que sonha com o final justo e abençoado.
Por isso nos chamam sonhadores.


(Mariana L. de Almeida)
Imagem: Mariana L. de Almeida.



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Ser poeta.

Lutei
Lutei como pude
Neguei
Neguei diariamente
Escondi
Escondi todos os livros
Rasguei todos os versos
Abafei todas as canções
Gritei
Meu deus como eu gritei
Eu queria matar
Que desejo quase incontrolável
Mas a serpente
Sempre à espreita
O bote a minha espera
Ouvia ela sibilar
Sua língua bifurcada
Não me deixaria safar
A morte era certa
Seria impossível escapar
Desde menina eu sabia
Minha sina era denunciar
O que não se pode contar
Nas cenas de novela
Que vão ao ar para te lograr.


(Mariana L. de Almeida).












quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Dia dos Poetas.

20/10 Dia dos Poetas!

Ser poeta é ser menino
Ser poeta é ver menino
Ser poeta é crer menino
Ser poeta é sonhar menino.

Só o poeta ousa o que é sonho de menino
Só o poeta vê o que permite a visão de menino
Só o poeta acredita no que sabe o menino
Só o poeta vive o que é sonho de menino.

O poeta é o menino ainda vivo
Escondido no fundo do peito ferido
De um dia sozinho, desiludido
Mas nunca vencido pelo dragão inimigo.

O menino cresceu, entre letras e livros
Papel, bolas, gritos e ladrilhos
Entre palavras de alegrias e saudades
Se fez poeta para salvar a dor da humanidade.




(Mariana L. de Almeida).
Imagem: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/jose-carlos-fernandes/o-menino-poeta-da-vila-das-torres-9nurx5x4fld2hd2au7r7qk23r



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A verdade aparece.

Cedo ou tarde a verdade aparece
Cedo ou tarde ela te assalta
Num meio dia no meio da sala
Entre tantas notícias e bobagens.

No meio do quase nada
Entre estúpidas flores amarelas
A verdade emerge e te enlaça
Inútil resistir ou fugir dela
Inútil retê-la.

Ela tem vontade própria
Como um escorpião acuado
Aguarda à sombra
Silenciosa e imóvel
À hora exata do bote.

Ela morde e suga
Seu sangue falso
Que rouba a alegria
E mata a vida de quem vive.

(Mariana Lima de Almeida).









terça-feira, 18 de outubro de 2016

Profana.


Tanto busquei aos deuses
Tantas súplicas e orações
Até poemas lhes ofereci
E nada!
Tentei lhes agradar de todas as formas
Fiz jejum, promessas, decorei salmos
Ofertei-lhes meu pão, bebi todo o vinho
Mas o que eu pedi os deuses nunca me deram
Ainda não sei o que fiz de errado
Ao ser expulsa assim do paraíso
Ainda menina meus pecados traí
Ao oferecer aos deuses minha inocência
Em troca de algum alento, desvelo.
Os deuses não sabem
Ao me negarem os céus
Abriram abrigo sem véus no meu coração.


(Mariana L. de Almeida).

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Sobre escrever.

Escrever é preciso, ser lido já é outra coisa
Escrever é necessidade, impulso, grito
Ser lido é invasão, dedo na cara, condenação
Julgam o que não sentem
Condenam o que não entendem
É assim na vida
É assim na política
É assim na literatura.
Que me importa se meu sangue é diferente do teu?
Meu sangue tem oxigênio, hemácias, delícias e venenos
Meu sangue não se aquieta nem se esfria, ferve
Meu sangue me arde por dentro, irriga meu corpo
E inutilmente quero parir palavras
Sou grávida de sentimentos, revolta e caos.
Quero parar o mundo, vencer o medo e matar o mal
Mas é o mal quem me mata, é ele quem sempre vence
Eu só tenho meu sangue carregado de versos
E desejos febris por flores amarelas e vermelhas
Semeio em jardins inférteis, insisto.
Não desisto de um dia ver uma rosa se abrir
Mesmo certa de que seus espinhos tirarão meu sangue
Gota por gota até secar toda poesia.


(Mariana L.de Almeida).





segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Era sexo.


Era sexo e somente sexo
E por isso mesmo irresistível
Era química, era física
Pele, beijo e faísca
Era literatura, pura poesia
Ritmo, rimas e respiração.
Era sexo e somente sexo
Não me importava seu nome
Seu endereço ou partido político
Não me interessava sua vida
Nem antes, nem depois
Nada além do nosso instante.
Era sexo e somente sexo
Sem mentira, sem maldade
Só verdades, sem pecados
Só dois corpos extasiados
Que insistiam em permanecer
De mãos dadas após sublime ato.

(Mariana L.de Almeida).

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Eclipse.




Eu já te esqueci,
Nada tão simples assim
Foram dias nublados...
E noites de tempestades.
Eu sabia que o sol voltaria
Só não sabia por quantos eclipses
Meu coração sobreviveria
Para renascer e novamente se aquecer
Acendendo as estrelas do novo céu.
Lua minguante para você
E Lua nova para mim.



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Escolhas?

Tem coisas que não são escolhas, infelizmente.
Não escolhemos quem amar, por exemplo. O carinho e a admiração podem ser enormes, mas se não houver paixão, bau bau...já era. De amantes à colegas de quarto há uma distância enorme e frustrante. Com amor tudo se tolera, sem amor qualquer deslize é suficiente para odiar o outro. Quando você está apaixonada, até aquele ronco motoserra é tolerável, você observa o outro dormir com ternura e aquele barulho destruidor e belo embala teus mais lindos sonhos...zzzZZZZzzz... Se não está mais apaixonada, aí a coisa muda, você passa mal, sente ódio e súbitos desejos de que a pessoa morra engasgada com o próprio ronco.
Mesma coisa com bebida, quando amamos e o outro está bêbado é muito divertido, você morre de rir de tudo que ele faz, das músicas que canta, das ideias revolucionárias, das declarações em público e no final da night acompanha-o até o banheiro para ele vomitar e o ajuda levando água, eno, engov, chá, café e o que mais for preciso. Mas e quando você quer sumir diante das idiotices que ele faz por estar bêbado? Fala alto demais, ri alto, chora alto, ama todo mundo, canta errado, não entende o assunto em pauta, é o verdadeiro bobo da corte e seu maior desejo é que ele tropece na escada e caia de cara no chão.
Outra coisa é se apaixonar por um pão duro! Puta que pariu! O cara te convida para tomar uma cerveja e pede uma lata e dois copos! Hã?? Como assim boy? Papo vai e papo vem você pede outra cerveja, ele já te olha assustado e você se anima e pede a terceira! Ele te olha muito assustado e diz: "Você bebe hein baby!" Aí finalmente decidem pedir um lanche e o cara tem a moral de pedir um lanche para dividir para os dois, justificando-se que não come muito porque sofre de refluxo....hehehehe...isso é real, acreditem!
Me respondam, cadê a paixão depois disso? Ah quem goste e até se apaixone, afinal tem coisas que não são escolhas.
Não amamos o politicamente correto, se assim fosse, seria o mundo perfeito para os reaças de plantão. O politicamente correto diz que não podemos amar alguém do mesmo sexo, de diferentes etnias, de diferentes idades e de diferentes ideologias, ah esse último é difícil mesmo...rs..treta na certa e o amor acaba rapidinho, não há tesão que resista ao ver seu amado (a) bradar: Bolsonaro 2018! Alckmin 2018! etc. Li uma vez que amamos a desordem que o outro nos provoca e acho que é bem por aí, como não se apaixonar por uma pessoa que te surpreende pela própria personalidade, pelo humor sarcástico e sacana? Beleza para mim? É aquela que vem de um sorriso sincero, um olhar verdadeiro e um abraço que acolhe.
Enfim, esse papo é sempre complicadíssimo e com a idade as coisas só pioram. Chega o final de semana e tudo que você deseja nesse inverno é ficar quentinha em casa, tomando um bom vinho tinto, fazer brigadeiro de colher e assistir mil filmes na TV. Trocar isso pelo o quê? Baladas agitadíssimas? Filas quilométricas para entrar? Restaurantes lotados? Há quem prefira e que assim seja. Eu fico com a primeira opção, no verão prometo me animar mais e quem sabe me apaixonar novamente,  nao tem coisa melhor na vida. Enquanto isso me torno cada dia mais íntima da Netflix, cada dia mais especialista em vinhos e uma fazedora de brigadeiro de mão cheia. A felicidade está nas pequenas coisas que temos ao nosso alcance, desisti de esperar pelo que eu não tenho para me declarar uma pessoa feliz.

Beijos!
(Mariana L. de Almeida).

Imagem: Cena do filme Amélie Poulain.


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Sobre ser a esposa perfeita.

     Num tempo não tão distante assim, menos de meio século atrás, ser uma boa esposa significava ser conivente com o comportamento extremamente machista e muitas vezes até desumano de seus maridos dando-lhes sempre razão independente se ele estivesse certo ou errado. Não se discutia, não se compartilhava, não se questionava e não se dialogava determinados assuntos. A palavra final era sempre do homem, a do pai e chefe da família.
      Ainda vivemos em uma sociedade patriarcal e machista onde mesmo as mulheres estudando, trabalhando e gerando renda, elas são as maiores responsáveis pela organização, manutenção e cuidados da casa, são as maiores responsáveis pelo cuidado dos filhos e do próprio marido. Por isso, ainda hoje ouvimos muitas mulheres se queixarem do feminismo, justificando que a luta por direitos iguais foi uma grande balela, pois com o tempo elas só acumularam funções, estão muito mais sobrecarregadas, estressadas e que a igualdade é somente uma utopia. Mas será verdade?
     Infelizmente a luta é contínua, ela não cessa e olhando para trás, de como nossas mães e avós viviam sob o poder do pai e depois do marido, vemos que conquistamos espaços e direitos sim, temos muito mais poder de escolha que nossas avós por exemplo, podemos escolher casar ou não, ser mãe ou não, manter um casamento desrespeitoso ou não, amar e desamar, amar de novo, podemos tentar formas alternativas de sobrevivência, podemos morar sozinha ou com um irmão, uma amiga, com os pais, com os filhos, com o namorado(a), podemos trabalhar, estudar, viajar, fazer terapia, enfim, podemos criar nossas próprias regras.
     No tempo das nossas avós era comum, além de tudo, a maioria das mulheres terem uma vida sexual pouco prazerosa, pois a mulher não devia nunca procurar pelo marido na cama, não era de bom tom, acreditam? E mais, o sexo era meio robotizado, sem carícias mais ousadas, sem preliminares, sem beijo na boca e creiam, muitas de nossas avós nem tiravam a camisola para "servir" ao marido. Triste, não? Ainda bem que as coisas evoluíram nesse quesito. Casamento sem sexo bom e sem muito carinho não faz sentido algum.
     É claro que isso é apenas o inicio de uma grande transformação social, infelizmente são muitas mulheres ainda presas em relacionamentos nocivos, neuróticos e violentos; são milhares de mulheres exploradas, violentadas, ameaçadas e dependentes da relação com seus parceiros por mil motivos diferentes desde religiosos, emocionais, financeiros, morais etc. O que não podemos deixar é que a luta se estagne, precisamos nos informar cada vez mais e informar para todas as mulheres da nossa convivência sobre seus direitos, sobre os centros de apoio às mulheres, sobre a Lei Maria da Penha, sobre serviços jurídicos gratuitos como a Defensoria Publica entre outros. Cada mulher que se fortalece e recupera sua dignidade e auto estima não se permite mais ser explorada.
     Sobre ser uma esposa perfeita, selecionei algumas realidades da década de 1950 e a realidade de hoje, vejam se concordam comigo:
     *“Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu carinho e provas de afeto, sem questioná-lo.” Revista Cláudia, 1962.
       "Se me trair, além de pedir o divórcio, é bem provável que eu pague na mesma moeda antes de você sair de casa" 2016.


     *“A mulher deve estar ciente que dificilmente um homem pode perdoar uma mulher por não ter resistido às experiências pré-nupciais, mostrando que era perfeita e única, exatamente como ele a idealizara.” Revista Cláudia, 1962.
     " O quê? Casar virgem? Mas se o melhor do namoro é o sexo selvagem, todos os dia e toda hora! Você acha que eu vou querer com um homem banana desses que idealiza casar com a santinha do pau oco, tô fora!" 2016.


      *“Sempre que o homem sair com os amigos e voltar tarde da noite, espere-o linda, cheirosa e dócil.” Jornal das Moças, 1958.
     " Sempre que você sair para a noitada com os amigos, saiba que eu estarei numa noitada muito melhor com minhas amigas e é bem provável que eu chegue bêbada, descabelada e cheirando a cigarros e cerveja!" 2016.


     *“Se o seu marido fuma, não arrume briga pelo simples fato de cair cinzas no tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda a casa.” Jornal das Moças, 1957.
     "Pode fumar a vontade lá na sacada e esvaziar os cinzeiros quando entrar e se queimar o tapete, terá que comprar outro três vezes mais caro!" 2016.


     Espero que tenham se divertido, agora tenho que ir, pois já mandei mensagem para o meu marido duas vezes e ele nem visualizou! Onde será que ele está? Por que não me responde? Será que está com outra? Preciso descobrir tudo, desculpa gente mas eu o amo demais e morro se ele me deixar... FUI!


(Mariana Lima de Almeida).



















segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Mulher

Ela é feia
Ela é magra
Ela é gorda
Ela é branca
Ela é preta
Ela é loira
Ela é parda
Ela é chata
Ela fuma
Ela bebe
Ela dança
Ela canta
Ela chora
Ela implora
Ela é burra
Ela é cega
Ela é surda
Ela é puta
Ela goza
Ela apanha
Ela sangra
Ela uiva
Ela é lua
Ela é rua
Ela é sua
Ela é nua
Ela luta
Ela briga
Ela morre
E enfim
Ela nasce.




(Mariana L. de Almeida)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Mara foi para academia.

      Depois de um longo período de introspecção e enclausuramento Mara decidiu sair da toca e espiar como estava o mundo lá fora. Desde que assumiu um novo estilo de vida, anda cheia de energia e vontade de viver e o primeiro passo foi se matricular numa academia baladíssima próxima a sua residência, afinal precisava se exercitar e digladiar contra a flacidez que insistia em aumentar a cada dia e aproveitar para conhecer gente nova com outro astral, outra "vibe" como dizem por aí. Mara era pura empolgação e estava certa que a vida lhe traria muitas novidades, quem sabe até um novo amor.
     Mara comprou um plano trimestral de academia pela internet, era uma pacote promocional o qual praticamente ganhava um mês grátis e assim se obrigaria a não desistir antes dos três meses. Finalmente chegou a hora, era sábado de manhã e Mara já estava devidamente vestida, toalha de rosto acompanhando e uma garrafinha squeeze de água. Nunca acordou num sábado às oito horas tão animada.
     Ao abrir a grande porta de vidro da academia foi recebida pelo sorriso mais lindo que já vira em sua vida: - "Bom dia, seja muito bem vinda! Sou o professor Marcos, estou aqui para te auxiliar no que for preciso. Seu primeiro dia hoje?
    - "Nossa, dá para perceber que faz anos que não entro numa academia, estou meia acabada eu sei. É meu primeiro dia sim, eu comprei um plano trimestral pela internet, acho que devo fazer minha ficha primeiro" Mara respondeu.
     - "Ah você não está acabada nada, o que é isso? Perguntei porque nunca te vi aqui antes e eu estou aqui todos os dias, você é linda e agora vai ficar mais gata ainda com o treino que faremos juntos! Mas sim, você deve primeiro passar na recepção e preencher sua fichinha enquanto eu te aguardo junto aos aparelhos, vai lá linda!"
     Pronto! Mara sentia que finalmente o universo estava conspirando a seu favor! O professor era um semideus, lindo, sorridente, dentes bonitos, musculoso na medida certa, cabelo perfeito e o melhor: era pura simpatia, que alto astral era esse? Mara não entendia como pôde demorar tanto tempo para começar ir a uma academia. "Ele disse juntos? Sim, ele disse juntos, o treino que faremos juntos!", tudo isso flutuava em sua mente enquanto preenchia seu cadastro.
     Mara chegou na grande sala de aparelhos e procurava ansiosa pelo professor quando de repente sentiu uma mão quente e forte em seu ombro direito: "Vamos minha querida?"ele disse e ela sorriu e o acompanhou com as pernas bambas de emoção. Fizeram de tudo, uma aula realmente revigorante: alongamento, esteira, agachamento, levantamento, remadas, bicicleta, peso e mais alongamento. Era um tal de: "Prende a barriga, levanta a bunda, dobra os joelhos, ergue os ombros, junta os braços, abre as pernas, levanta, empurra, força, vai..." Mara no meio dos exercícios divagava e imaginava que todo esse esforço valeria a pena, especialmente se um dia estivesse malhando na cama do seu professor. Sim, Mara tinha esse problema de fantasiar e voar para longe, mas hoje ela fazia um esforço enorme para se concentrar e não decepcionar seu professor gato e mesmo morrendo por dentro, Mara se mostrava a aluna mais eficiente, suada e empolgada do planeta .
     Ao final da aula Marcos lhe dá os parabéns pelo ótimo treino, elogia sua performance e lhe dá um forte abraço. Mara viu estrelinhas e o abraçou forte também quando ele lhe pergunta: "Gata você tem facebook e instagram?", ela quase perdeu o ar e respondeu um sim histérico "Sim, tenho sim, claro!" e ele perguntou: "Posso te seguir então minha aluna linda?" ela imediatamente "Claro professor, vou te seguir também!" ele :"Ótimo gata, assim nos mantemos sempre em contato para o que você precisar" e se despediram com um beijo estalado na bochecha.
     "Humm, para o que eu precisar.." Mara saiu suspirando da academia de alma lavada e toda dolorida, mas era uma dor boa, uma dor de renascimento, estava se sentindo gostosa e poderosa, imaginava como estaria seu corpo daqui 3 meses, será que estaria namorando aquele professor lindo ou quem sabe seria apenas uma ótimo parceiro para sexo casual, pensava: "ah como é bom conhecer gente bem resolvida, sem neuroses e que aprecia bem os momentos. Primeiro dia de aula e já quis meu facebook e meu Instagram, é claro que ele gostou de mim, foi química, não tem outra explicação!" Mara acelerava para chegar logo em casa e ligar o computador, queria saber tudo sobre ele, ver as fotos, os dia do seu aniversário, o que ele gosta de assistir, onde sai...tudo!
     Então enquanto o computador ligava, tomou um banho e preparou um delicioso suco de abacaxi com um toque de canela para degustar enquanto iria se divertir na internet, olhou algumas notificações, respondeu alguns amigos e foi ver suas solicitações de amizades e viu: Marcos Personal Trainer deseja ser seu amigo, aceita? "Claro que aceito, lógico!" e apertou sim quando o perfil do professor abriu com a foto capa da bandeira do movimento LGBT e sua foto perfil era ele dando um selinho em outro homem. Mara sentiu sua barriga gelar, ela não podia acreditar e correu verificar o status do mesmo quando leu: Em um relacionamento sério com João Feliciano Júnior desde 2013!!! Tudo escureceu ao seu redor, todas as cores se tornaram imediatamente cinza e o mundo voltou a ser um lugar hostil e amargo onde Mara não tinha sorte nem uma única vez , pensou em chorar mas nem uma lágrima sequer saiu e tudo que conseguiu foi respirar profundamente e gritar: Puta que pariuuuuu!
      Desligou o computador, fechou as cortinas e foi dormir, de preferência até segunda de manhã.


(Mariana L. de Almeida).
Imagem: Google.

















quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Mara: uma nova mulher.


    Canalhas existem e aos montes, como baratas se multiplicam em cada esquina, mas com Mara eles não têm mais vez e vou contar porquê. Mara era um doce de mulher, considerada boazinha por todos, sempre receptiva, amiga, leal, amorosa, pronta para ajudar e incomodar o menos possível, afinal detesta pessoas invasivas e espaçosas demais, gente sem noção, entrona e por isso ela tenta não ser assim.
     Mara cultua a delicadeza, os pequenos gestos, a poesia, prefere um vinho ao barril de cerveja, prefere música boa à uma balada agitada, prefere alguns amigos em casa para um jantar que estar no meio da multidão fazendo "a social", prefere um amor para dividir a escolha de filmes e dormir de conchinha. Claro que ela adora sexo, mas sem aquele desespero juvenil, aprecia cada toque e preza por qualidade e não quantidade. Ela é intensa demais para sexo rotineiro e quase mecanizado.
     Porém, por Mara ser exatamente assim é que vez por outra acabava atraindo algumas pessoas e situações desagradáveis para sua vida, aqueles famosos sugadores de energia, vampiros emocionais que à princípio se mostram verdadeiros Lordes, mas em pouco tempo se revelam maus-caracteres quase profissionais. Eram colegas de trabalhos folgados, namorados manipuladores, amigas invejosas, vizinhos que se aproveitavam, ex marido mentiroso e por aí vai. Foi então que ela sofreu uma crise de identidade e de consciência colocando em xeque mate todos os seus valores e se questionando por que volta e meia atraía determinadas pessoas e situações para sua vida e depois de dias de uma autoanálise profunda decidiu mudar completamente seu jeito de ser onde determinou para si mesma ser uma pessoa mais fria e racional, o menos simpática possível, o menos receptiva possível, deixar de responder mensagens aparentemente fofas que recebia em suas redes sociais, bloquear intrometidos do seu whatsapp, não responder mais e-mails de elogios que recebia de colegas de trabalho, aliás, nem sair mais para "happy hours"com aquela turma chata e falsa, começaria academia onde conheceria gente nova com certeza! Mara declarou vida nova e um novo jeito sério de ser onde  não seria mais feita de boba por ninguém.
     E a primeira semana da nova vida dela foi uma verdadeira revolução: "Mara querida, você pode revisar isso para mim? Não, não posso!"; "Mara sua linda, me bateu uma saudade de você! Saí fora seu idiota!"; "Mara posso ir na sua casa hoje para você me ajudar com uma cláusula desta nova Norma que não estou assimilando miga? Não pode, hoje terei um encontro e volto só segunda de manhã, peça para seu chefe te ajudar miga, beijo!"; "Oi Mara, vo..." Não, não quero!" "Mara? Nãoooo!"
      E pela primeira vez na vida Mara começava entender como o mundo era mesmo uma merda e que ser bom é sinônimo de ser idiota, que uma mulher gentil não é valorizada porque o mundo ainda é muito machista, que ser receptiva demais era estar pronta para receber traição, que ser simpática demais significa aceitar qualquer coisa de qualquer pessoa, que ser elogiada demais por seus colegas significa apenas que eles querem transar com você e sim, se você for legal e simpática demais com todo mundo, você só será usada e ficará sozinha para sempre, que ajudar aos outros não significa que você será ajudada quando precisar e que ser amiga não te garante ter verdadeiros amigos. Essa é a lógica deles, desse povo cruel que faz o mundo girar e que agora Mara aprendeu de fato como jogar.

(Mariana L. de Almeida)








sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A crise da segunda idade.

    Sim, eu descobri que ela existe! Até os 30 anos nossa vida segue um ritmo maluco e cheio de disposição: trabalhamos, fazemos faculdade, namoramos, saímos para diversas atividades noturnas, acordamos cedo sem reclamar, muitas de nós se casam, têm filhos e cuidam de tudo isso numa boa ou quase numa boa. Entre uns gritos aqui e outros lá vamos vivendo esse turbilhão de emoções e estresse da vida moderna.
   Mas depois dos 30 anos algumas coisas começam a mudar: a paciência diminui, as contas para pagar aumentam, o casamento vira um porre, os amigos casados se tornam caretas e parecem aqueles casais felizes de propaganda de margarina, os solteiros estão viajando, escalando o Monte Everest, com as roupas e estilos transados enquanto você está em algum canto desse planeta sentada no sofá de sua casa olhando a enorme bagunça ao seu redor e se questionando o que aconteceu com você. Cadê aquela garota super cabeça, politizada e cheia de atitude de anos atrás? Agora ela não tem tempo para ler mais nada, nem responder um e-mail sequer. Estamos sempre atrasadas, com os cabelos presos e as unhas por fazer enquanto as capas de revistas nos deprimem insinuando como nunca seremos: lindas, loiras, ricas, equilibradas e super realizadas!
   Estamos vivendo um caos emocional, questionando a vida quando nos deparamos em frente ao espelho com pequenas rugas ao redor dos olhos enquanto sorrimos, então, colocamos um anti-rugas caríssimo na lista de prioridades, vamos à farmácia, compramos, usamos uma semana religiosamente e depois nunca mais abrimos aquele potinho que custou nossa alma, esquecemos simplesmente, pois o cansaço vence.
   Outro dia enquanto discutia meu saldo com meu gerente do banco, descobri um fio de cabelo branco e entendi que o tempo está passando rápido demais e que meu saldo bancário continuará devedor por muito tempo. "Esse mundo não se resolve" já dizia meu amado poeta Drummond. Por que justo eu tenho que resolver tudo?
   Então é isso, você já passou dos 35 anos e não é mais jovem, mas também não é velha. Gosta de coisas boas, valoriza muito mais qualidade que quantidade, pensa duas vezes antes de sair de casa para uma noitada, cansa do papel exaustivo de mãe mas sente saudades quando vão passar o final de semana com o pai. E os temíveis 40 anos não estão mais distantes, estão aqui pertinho.
   É assim, a crise da segunda idade acontece num dia entre abril e maio em um ponto qualquer dos seus 37 anos. Os filhos estão amadurecendo e criticando todos os seus atos, aqueles pequenos porquês de tudo evoluem rápido para porquês cada vez mais complexos nos colocando em xeque mate, nos colocando à prova de todos nossos valores e verdades. Eles questionam, reivindicam e eu aprendo cada dia mais. Eles aprendem ser filhos e eu aprendo a ser mãe, ninguém nasce sabendo essas coisas. Nos olhamos nos olhos, rimos, choramos e dizemos a verdade sempre. Negociamos a TV, o computador e a Netflix;  nem sempre é fácil manter a democracia dentro de casa, é um exercício diário de tolerância e amor, caso contrário, iríamos querer o impeachment um do outro rapidinho.
   Depois de quase 10 anos de sedentarismo eis que retorno às atividades físicas, caminhar, nadar e até tentar correr. Também comecei a ler e pesquisar sobre diversos alimentos funcionais, gordura trans, grãos, farinha integral e estou aprendendo muitas coisas novas para contribuírem para minha saúde.
   A crise da segunda idade existe, ela é real e posso defini-la com a despedida da juventude e a entrada à uma nova fase onde alguns chamam de idade da loba que é associada ao ápice da mulher tanto em sua maturidade, sexualidade e carreia. Tomara mesmo. Crises existências sempre existiram e sempre existirão e são importantes para nossa evolução e amadurecimento, mas espero que ao chegar na idade da loba, minha Loba interna viva sua plenitude e que meus desejos reais sejam realizados e eu encontre o êxtase e a paz de viver com sabedoria mais uma etapa da vida.


(Mariana L. de Almeida)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Poexista!


Enfrente a vida
Com poesia
De noite e de dia
Na veia e nas vias
E se preciso for
Com sangue e fúria
Resista
Até onde seja possível
Enfrente
Com armas e lírios
E mate a tiros
A sede e o delírio
Até quando a poesia
Irrompendo de alegria
Refaça nossos novos dias.

(Mariana de Almeida)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Fênix.


29/08/2016.


E a segunda-feira irrompeu assim
Num só golpe nos levou a democracia
A esperança e a vida de tantas Marias
A segunda-feira nos deixou uma ferida
Que sangrará por muitas e muitas vidas
Fica aqui nossa lágrima de sal
Como brinde à vitória de todo mal.


(Mariana L. de Almeida)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ouça meu bem.

Ouça meu bem
Veja tudo que preparei
Velas, vinhos e incensos
Cd do Caetano "Transa"
E uma cama imensa para o nosso amor
Uma cama imensa para nossos corações
Que pulsam por vida e paixão
Champanhe, beijo e pão
O que mais podemos querer então?
Só temos essas horas enquanto o mundo agoniza lá fora
Seu colo, suas mãos, meus seios, nosso beijo
E o mundo em chamas sobre nossa cama
Que trama em não amanhecer.


(Mariana L. de Almeida)





segunda-feira, 22 de agosto de 2016

As noites da cidade.





As noites no centro das cidades
São sempre tristes com suas ruas sujas
Poças d'água encardidas de carbono
Lama, cuspe, mijo e burocracias
Do dia que passou.
Não me iludo, as noites daqui
São tão sujas quantos as de Paris,
Nova Iorque, Marrakech e Milão.
Noites que fedem a perfume barato,
Cigarros, bebidas, catarro e sexo.



As putas do centro da cidade
São exatamente as mesmas
De qualquer lugar do mundo
A maioria delas é filha de alguém
E a maioria delas é mãe de alguém
E a maioria delas é mulher de alguém
E a maioria delas paga contas ao amanhecer
E a maioria delas toma café e porrada
Num bar miserável da cidade.
É preciso sempre encarar a volta
Algum buraco do mundo deve ser sua casa
Algum buraco do mundo guarda suas histórias
Algum buraco do mundo esconde toda a verdade.


Eu nessa hora de insônia
Penso nas putas da General Carneiro
Penso nas putas da Paulista, da Tijuca
De Manhattan e de New Orleans
Gostaria que elas soubessem
Que alguém desse planeta absurdo
Está pensando nelas.... No frio,
No açoite, na coca, no medo, nos caras que chegam.
Jogo minha bituca pela janela
Observo a brasa se despedaçar ao chão
Não sinto culpa, ajudo foder o mundo
Denuncio nossa maldade
Traduzo para você
O que a noite não revelou.


(Mariana de Almeida)
Imagem: Uma rua de Amsterdam.




quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Pokémons Times!

Política, política e mais política!
Rede social hoje é isso: política, Pokémon e receitas gourmet. Há algum tempo eu já suspeitava que nossa evolução seguia uma via alternativa ao que Darwin nos apresentou. É tanta gente estúpida fazendo sucesso, tanta gente vazia e ignorante estourando nas mídias, tanta música ruim, tanta falta realmente do que falar, saca? Tem uma grande maioria aí que simplesmente não lê, enche as timelines diariamente com títulos de notícias e nem se dá ao trabalho de  verificar a veracidade das fontes, aí estufa o peito e sai vomitando suas verdades, compartilhando qualquer coisa, ditando regra e fortalecendo um comportamento estúpido de transformar qualquer estupidez em fato, em verdade.
Política é essa merda que aí está, sinto que muito em breve nem criticar será permitido, nós que nos metemos a besta de dissertar alguns temas, correremos sérios riscos de comprometermos nossa liberdade, parece que o AI 5 nos espia a cada esquina, em cada fresta da janela e em aplicativos de celulares. O Brasil vive um golpe silencioso, nós sabemos do golpe, vocês sabem do golpe, outros países sabem do golpe, mas a mídia vende esse crime como democracia, validação de um ato democrático de Impeachment e destrói uma nação inteira roubando-lhes seus direitos mais básicos. Cadê nossas panelas, que agora bem mais vazias, não batem em nossas varandas desocupadas? Cadê nosso protesto? Nossa indignação? Nossa luta? Se preciso for, cadê nossas armas?
Para complementar esse caos intelectual o qual vivemos, nos premiam com um jogo para coroar nossa alienação e estupidez: O Pokémon Go. Nossa vida está tão fodida que caçar bichinhos virtuais nos dão mais prazer que conviver com nossos semelhantes e discutir novas ideias e possibilidades. Caçar Pokémons nos dá algum sentido de utilidade real. Sim, são tempos estranhos. Haja prozac e rivotril para evitar surtos psicóticos em larga escala, afinal copiamos fielmente o "american way of life".
E por fim, nada mais pra-ze-ro-so que seguir e aprender receitas gourmets. É puro rivotril para os olhos, bolos, tortas, cremes, caldas, carnes, molhos, drinks....putz! É melhor que sexo esses vídeos de gastronomia, e o melhor: você não precisa de ninguém para assistir, preparar e comer. Não é fabuloso?
O capitalismo, com suas ferramentas, nos enche cada dia mais de orgulho. É o sistema perfeito para nossa felicidade. <3


(Mariana L. de Almeida).

 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Quem não é você, Marília?

   Marília era dessas mulheres autênticas e destemidas. Precoce desde menina, curiosa, investigava a vida das formigas e os barulhos ofegantes que vinham do quarto dos seus pais todo final de noite. No começo ela se desesperava, pensava sempre no pior, imaginava seu pai estrangulando sua mãe e a sufocando com o travesseiro. Ela queria gritar, mas não saia um fio de voz sequer. Algo extremamente aterrorizante a mantinha com os ouvidos colados na parede que separava os dormitórios da rua Padre Luiz, nº 66. Ela pedia para Deus dar-lhe coragem para gritar e pedir socorro, e quando finalmente iria gritar, sua mãe Louise abriu a porta do quarto feliz e sorridente caminhando flutuante pela casa até a cozinha para beber água. Ela perguntou ainda: "Amor, você quer um pouco de  água também?" e ele respondeu: "Claro amor, você acabou comigo!" Ambos riram e Marília ficou muito brava por todo aquele terror inútil que vivera minutos antes.
    A partir de então Marília sabia que aqueles ruídos ofegantes eram prazerosos, eram de amor e cada vez mais aperfeiçoava suas técnicas para escutar melhor. No começo usava um copo de vidro, colocava a boca do copo no ouvido e a outra parte na parede, mas não dava muito certo não, aquilo era invenção de gente idiota. Chegou ao ponto de colocar uma babá eletrônica debaixo da cama de seus pais e aí sim, escutou tudo de seu quarto, podia escutar a linguagem corporal, a respiração, o barulho dos líquidos, dos beijos, da dança da cópula. Marília tinha 13 anos quando descobriu o som do amor.
   Cresceu, se formou em arquitetura e trabalhava com construção civil. Liderava uma equipe de homens: Engenheiros, projetistas, mestre de obras e ajudantes de pedreiros. Encarava de frente qualquer desavença, olhava nos olhos e sabia direitinho como conseguir sempre tudo o que queria. Marília usava todo seu sex appeal e sua inteligência e se se interessava por alguém, pronto, conseguia fisga-lo sem dificuldades.
   Marília adorava sexo, se ficasse muito tempo sem transar começava ficar meio louca, mal humorada, a memória falhava, brigava no trânsito.... Perdia completamente o bom senso à qualquer contratempo. Só que Marília tinha um problema que não revelava a ninguém, Marília nunca tinha amado. Ela pensava que sim, tentava se enganar a todo custo, mas no fundo, bem lá no fundo ao encarar seus olhos no espelho pela manhã, ela sabia que nunca tinha amado. Nunca sentiu seu coração quase sair pela boca, nunca teve as mãos trêmulas e úmidas de nervoso ao esperar por alguém, nunca teve insônia a espera de um telefonema de madrugada, nunca se emocionou ao receber uma buquê de flores de algum namorado. Marília assustava seus pretendentes porque na maioria das vezes ela quem os levava para a cama, não aguentava esse negócio de romantismo e de esperar o homem tomar as decisões. Muitos terminavam tudo com ela depois da transa, pois a consideravam experiente demais e respeitosa de menos. Marília dava risada e graças a deus, um machista enrustido a menos em seu caminho, hasta la vista baby, ela pensava e partia para outra. Marília se deitara com todos os tipos de homens... de engenheiros pós graduados até ajudantes gerais de obra e garantia: "Nada como transar com um pedreiro cheirando a cimento"
   Mas um dia o inesperado aconteceu, Marília se apaixonara! O dono de uma das casas apareceu no meio da tarde para ver a evolução da obra, tinha decidido de última hora levantar mais um cômodo e precisava saber da arquiteta se era possível a essa altura alterar a planta do imóvel. Ele tinha um perfume inebriante que ficava no ar, Marília amou imediatamente aquele cheiro e sem prestar nenhuma atenção ao que o cliente dizia, observava suas mãos, as veias saltadas, as unhas curtinhas e limpas, um sorriso doce, dentes branquinhos e os cílios pretinhos mais lindos que ela já vira. Observava seus lábios enquanto ele explicava as futuras mudanças do imóvel. Marília queria abraça-lo, apenas abraça-lo. Mas de repente foi nocauteada do alto dos seus sonhos quando a noiva do cliente entrou no recinto toda eufórica e feliz com os novos projetos, trocaram selinhos e juntos decidiam tudo que queriam alterar na planta do imóvel. Eles estavam felizes e apaixonados, tinham planos e logo formariam uma família. Marília invejou pela primeira vez outra mulher, sentiu pela primeira vez a dor de ser ignorada e rejeitada, ele não a desejara. Ela simplesmente não existia para ele.
   Marília aos poucos foi retomando sua rotina, estava naquela fase em que reavaliava todos os seus conceitos e preconceitos, não estava mais ansiosa por fazer sexo a qualquer custo. Estava com mais de trinta anos e decidida a viver um relacionamento. Não poderia imaginar como ou com quem, mas pela primeira vez sentiu esperança em relação ao futuro e uma certa paz em seu coração. No fundo, lá no fundo ao encarar seus olhos no espelho pela manhã, ela sabia que encontraria o amor mais dias ou menos dias. Marília despertara do seu medo, seu maior medo de finalmente amar.


(Mariana L. de Almeida)