sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Eu.

Eu sou a pessoa certa
Para dizer a coisa errada
Na hora exata
Confusão na certa
Que enrascada
Todo mundo sentado
No sofá da sala.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Marina.

Marina sentia-se sem perspectivas e coragem. Estava triste e pela primeira vez pensava em desistir de tudo como uma doce alternativa; seria o fim do fim. Chegara aos 40 anos sem uma benfeitoria sequer na vida. Na infância fora uma menina tímida e medrosa, sempre protegida pelo irmão mais velho, era sua cobaia, fazia o que este lhe mandava e fazia sempre de bom grado, obedecer seu irmão era uma prova de amor e devoção, podia lhe custar sangue, mas o prazer era maior. Na adolescência aquela sensação estranha de crescer os separaram, cada um na sua, um com vergonha do outro, embora o amor continuasse intacto e bem guardado. Depois cresceram mais, se reaproximaram e dividiram músicas, sonhos e poesia. Quando adultos cada um seguiu seu rumo, nova família, sociedade e trabalho.
O casamento de Marina foi um porre só, marido neurótico, beirando a esquizofrenia e a violência, uma convivência baseada em insultos, gritos e ocultos desejos de morte. Ela pensava: "Se o infeliz morrer, vou fingir tristeza uma semana depois me jogo de cara na alegria". Mas claro que o infeliz nunca morreu, quem morria aos poucos era Marina.
Um dia Marina chamou o caminhão, colocou tudo dentro e foi embora, sem dó nem piedade. Dó mesmo era ver a vida passando por Marina, aquela menina que quase não sorria. Marina tinha um cargo público, mais de 14 anos sentada atendendo a população, aquele povo vinha de longe e passava horas na fila enquanto ela se remoía da vida que tinha. Num desses atendimentos Marina conheceu João, bem apessoado, gel nos cabelos, anel no dedo e cordão no pescoço, o sorriso era bonito e um pouco malicioso. Pronto, o tal se interessou pela ingenuidade da moça, pegou o telefone da repartição e volta e meia ligava para ela, uma desculpa mais boba que a outra, sempre perguntando sobre o andamento do processo e de como ela estava. O negócio evoluiu e o descarado a convenceu de se encontrarem para tomar um suco, ela foi e acabaram na cama de um motel barato, motel barato esse que João não tinha um tostão para pagar, ele contou uma triste história que tinha comprado remédio para o filho menor que queimava em febre e a pobre não teve outra saída senão pagar sozinha o encontro. O problema não foi puramente pagar a transa, mas sim gostar da transa com João, a química foi boa. João entendia de sexo, mas dinheiro nao tinha nenhum.
Marina se apaixonou por João. Que atire a primeira pedra quem nunca caiu em tentação. As histórias trágicas de João cresciam a cada encontro. Era filho doente, ex mulher na justiça, mãe esclerosada, contas atrasadas. Então, Marina pensou em ajudar e foi procurar um emprego para João na repartição, descobriu uma vaga de porteiro mas cadê o sorrateiro? João escafedeu-se, deu no pé, deu no pira e fugiu sem ao menos se despedir de Marina.
A pobre agora definha, anda cada dia mais triste e zangada da vida, chega a fatura do cartão e cada conta lembra um momento com João, saudade, saudade, saudade sem fim... Marina insiste e manda mil torpedos escritos assim: "João liga para mim" , "João não faz assim", "João, venha com sua mãe, os meninos e tudo mais, vamos nos ajeitar", "João prometo nunca mais mandar você trabalhar", "João, João João..." E assim seguiram seus dias e nunca mais João.
Marina segue ainda na mesma repartição, dia após dia em sua rotina, atendendo aquele povo sem fim, na esperança de rever o desalmado do João.

Fim.








(Mariana L. de Almeida)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Cansada.

Cansada de verdades absolutas
Cansada de crer em falsos sentidos
Cansada de respostas prontas
Cansada de julgamentos
Cansada de tudo que defendi
Cansada do tempo que perdi
Cansada dos dias que não vi
Cansada da dor inútil que senti.


(Mariana Lima de Almeida)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Antes
Só vinho
Que
Mal embriagado
Antes
Só uva
Que
Mal passada
Antes
Só sozinha
Que
Mal acompanhada.
Antes
Sem palavras
Que
Mal entendidos.


(Mariana Lima de Almeida).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Pseudônimo.

Por que criar um pseudônimo?
Várias personalidades, transtorno?
Por que uma só pessoa não dá conta?
Por que vários como fez Pessoa?







Que audácia!
Uma só voz não poder revelar-me
Uma só mão não poder sangra-me
Uma só alma não poder poetar-me







Por que criar um pseudônimo?
Para contar o que eu já não sei?
Para denunciar os crimes que calei?
Para amar o que em mim matei?





(Mariana Lima de Almeida).

O dia é de lutar
A noite é de amar
O dia é de suor
A noite também
O dia separa a gente
A noite espera da gente
A noite é líquida
Nossos corpos, beijo e sabor
O dia é longo a te esperar
A noite recompensa
A demora de te amar.


(Mariana Lima de Almeida)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Sou como aquela velha casa
Do lado de lá
Não tenho nada
Estou desabitada de mim há tanto
Não fui posta à venda...
Não obtive locatários
Tive o vento, os dias e noites sem fim
Mas possuo uma janela
Embora enguiçada pelo mau tempo
Onde pude ver o tempo passar
Onde pude ver os homens de lá
Onde uma vez vi o amor
Não deixei que ele me visse
Espiei através de suas frestas
Mas me assustei
Com tamanha perfeição!
Quase senti bater meu coração
Mas antes que fosse tarde
Tranquei as janelas
E joguei as chaves
Bem longe para lá.

 


(Mariana Lima de Almeida)



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Tempos de indelicadeza.

Tempos de indelicadeza ferem a alma dos sensíveis, dos que ainda pertencem à raça humana e não aos que se tornaram subproduto do meio violento, caótico e midiático em que reproduzem o mal de forma espontânea e quase natural.
Tempos de indelicadeza fecham os olhos para as mazelas sociais, as crianças nos faróis , as mães viciadas, os pais desaparecidos, os doentes abandonados nas calçadas do mundo, os famintos, os que fugiram de suas pátrias, os que morrem de frio nas madrugadas e aos que choram sozinhos no escuro.
A delicadeza se tornou qualidade rara, a qual só os que possuem olhos bonitos ainda possuem, o cuidado ao tocar o universo do outro, a dor do outro e a beleza do outro.
Minha beleza e minha dor são caras para mim, não as divido com ninguém, exceto aos que são dotados de amor e cuidado, aos humildes, aos que sorriem, aos que seguram as mãos, aos que não esquecem de lavar os olhos todas as manhãs para enxergar a vida, aos delicados.
De vocês, filhos do tempo da indelicadeza, não guardo mágoas e sim penas. Pena por vossa cegueira nauseante, por vossas palavras proferidas para humilhar, ofender e odiar, pena por vossa mutilação intelectual, por vossas mãos utilizadas para machucar, por vossos pés que caminham por trilhos cortantes e por vosso coração amputado à força e a frio.
A delicadeza pertence aos poucos, aos raros, aos gigantes, aos que ajudam, aos que escutam, aos que se importam, aos que amam e ainda se encantam.












quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Ano novo, novo amor?



Todo Dezembro traz aquela sensação de um certo alívio, missão cumprida, finalidade, o que foi já foi e não há mais o que fazer, adeus, ja era. E a esperança no ano novo que virá, tempo novo que virá, renascimento de velhos desejos. Por isso, o reveillon é aquele momento tão especial e cheio de sonhos, a esperança de que desta vez algo bom se realizará, o medo desaparecerá, a grana vai pintar, a dor cessará, o amor aparecerá, sabe aquele amor? Aquela paixão deliciosa? Sim! Aquela paixão onde nosso hino será nossa risada, nosso beijo será quente, doce e perfeito, nossa visão de mundo próxima e voltada para o mesmo horizonte, nosso silêncio será de cumplicidade e não de mal estar, aquele olhar repleto de signos e significados... Quem está sozinho pode estar muito bem, cheio de projetos e demais prazeres, mas quem resistiria a esse amor? Como negar o encontro que mudaria nosso rumo? Está bem, você pode não estar interessado, fugir do amor como quem foge da polícia, você pode ter uma vida perfeita livre e sozinho, você pode até adorar sua militante rotina, mas quando distraidamente tropeçar em um par de olhos que gelará sua espinha, te causará pensamentos confusos e desconexos, desculpe meu caro, eu não deveria, mas vou te notificar: Você encontrou o amor e só tem duas opções : A primeira é desviar os olhos, olhar para o relógio ou celular, fingir ler um jornal ou mesmo correr para um banheiro próximo e lá se enfiar até o resto da vida. Já a segunda é não desviar o olhar, isso mesmo, não desvie o olhar, encare e enfrente, vença o medo uma vez e seja feliz pela primeira vez na sua vida!
Esse único momento pode durar somente alguns momentos, alguns instantes, alguns infinitos... pode durar o suficiente para que toda essa história até aqui tenha valido a pena. O resto? O depois? Quem saberá se você não encarar para ver? 👀



(Mariana Lima de Almeida).

A carta.



Primeiramente peço que tenha calma, calma é tudo que você precisa para ler, e depois te peço o pior, o mais difícil, o mais doloroso e o mais libertador que é o seu perdão.
Não te peço compreensão, te peço perdão. E sei que o que peço é penoso demais e gostaria de evitar a qualquer custo, mas não tive outra saída, não tive escolhas e assim aconteceu e me libertei.
Querida, eu realmente me cansei, todos esses anos lutando contra tudo e todos, sempre perdendo todas as batalhas, me desfazendo dos meus sonhos, meus pequenos prazeres, minhas amizades caras, meu trabalho intelectual, minhas noites fiéis e companheiras, meus porres de paixão e poesia, tudo se foi e eu fiquei só, eu fiquei completamente só e como dói ser só, mas assim como mandavam eu continuava, eu trabalhava, eu caminhava, eu almoçava, eu lia e respondia e-mails, não todos, só os que mais custavam a nós e nossa família, eu tentava ser um homem normal sem muitas vaidades, eu me policiava o tempo todo julgando minha conduta moral para ser a mais correta possível, pois, quando um homem perde a razão o instinto toma conta, eu frequentava os melhores psiquiatras em busca de alguma recompensa, essas recompensas que as igrejas prometem, que as mães prometem aos seus filhos e os amantes prometem também um ao outro, mas nunca recebemos recompensa nenhuma meu bem.
Quando não havia no mundo tantos meios de comunicação, a internet era papo de bicho grilo futurista, eu podia escrever e ser lido, todo poeta era reconhecido, mesmo que fosse só no boteco onde se frequentava e éramos amados pela nossa arte. Ah isso foi no início dos anos 70, a arte era diferente, a gente amava os livros, o cheiro deles, as páginas amareladas, um livro era objeto de muito respeito, mas hoje? O que é um livro hoje? O que é um velho reclamando a falta deles? Eu sou como os livros de páginas amareladas pelo tempo...eu amarelei meu bem.
Como disse antes, não peço sua compreensão, só o seu perdão.
Perdão por nunca te dar uma recompensa.
De lá para cá, todas as coisas mudaram no mundo, só eu que não, tudo ficou mais uniformizado ainda, tudo virou digital, basta um dedo, um clique e lá se foi, eu tenho pena de todos que vieram depois, eu tenho pena dos nossos filhos, de suas angústias que eles não sabem de onde vem e eu sei, sei sozinho e calado, eu tenho mais pena ainda dos que virão depois que nem sei se angústias sentirão, talvez venham informatizados o suficiente para não sentirem mais nada...
Ah como sinto pena meu bem, sinto pena de você que não sabe nada disso, sinto pena de toda sua beleza não explorada e guardada pra mim...você não deveria meu bem se doar tanto assim.
Por isso, te escrevo essa carta para me despedir e agradecer tudo o que fez por mim, mas o mundo meu bem, não me tratou tão bem quanto você... Foram dias perdidos, trabalhos negados, dinheiro sempre escasso, meus porres proibidos, a saúde já debilitada, sexo então, nem pensar.... Acabou meu bem, os dias melhores ficaram para trás e lá talvez eu fui feliz.
Deixo para você meus poucos bens e espero que você não os trate tão bem assim, se preciso venda-os, gaste-os e viva por mim.
Deixo também meus pequenos pertences, o terno pode usar para me enterrar, o relógio pode leiloar ou entre os filhos sortear, nossa aliança você faça o que quiser, meus cigarros ofereça a quem puder gozar e o resto são só restos.
Hoje esse tempo acabou para mim e não há motivos para tristezas nem vendavais, assim eu quis.
Perdoe-me meu bem, fique junto dos nossos....Adeus.



Crônica de Mariana L. de Almeida.