terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Marina.

Marina sentia-se sem perspectivas e coragem. Estava triste e pela primeira vez pensava em desistir de tudo como uma doce alternativa; seria o fim do fim. Chegara aos 40 anos sem uma benfeitoria sequer na vida. Na infância fora uma menina tímida e medrosa, sempre protegida pelo irmão mais velho, era sua cobaia, fazia o que este lhe mandava e fazia sempre de bom grado, obedecer seu irmão era uma prova de amor e devoção, podia lhe custar sangue, mas o prazer era maior. Na adolescência aquela sensação estranha de crescer os separaram, cada um na sua, um com vergonha do outro, embora o amor continuasse intacto e bem guardado. Depois cresceram mais, se reaproximaram e dividiram músicas, sonhos e poesia. Quando adultos cada um seguiu seu rumo, nova família, sociedade e trabalho.
O casamento de Marina foi um porre só, marido neurótico, beirando a esquizofrenia e a violência, uma convivência baseada em insultos, gritos e ocultos desejos de morte. Ela pensava: "Se o infeliz morrer, vou fingir tristeza uma semana depois me jogo de cara na alegria". Mas claro que o infeliz nunca morreu, quem morria aos poucos era Marina.
Um dia Marina chamou o caminhão, colocou tudo dentro e foi embora, sem dó nem piedade. Dó mesmo era ver a vida passando por Marina, aquela menina que quase não sorria. Marina tinha um cargo público, mais de 14 anos sentada atendendo a população, aquele povo vinha de longe e passava horas na fila enquanto ela se remoía da vida que tinha. Num desses atendimentos Marina conheceu João, bem apessoado, gel nos cabelos, anel no dedo e cordão no pescoço, o sorriso era bonito e um pouco malicioso. Pronto, o tal se interessou pela ingenuidade da moça, pegou o telefone da repartição e volta e meia ligava para ela, uma desculpa mais boba que a outra, sempre perguntando sobre o andamento do processo e de como ela estava. O negócio evoluiu e o descarado a convenceu de se encontrarem para tomar um suco, ela foi e acabaram na cama de um motel barato, motel barato esse que João não tinha um tostão para pagar, ele contou uma triste história que tinha comprado remédio para o filho menor que queimava em febre e a pobre não teve outra saída senão pagar sozinha o encontro. O problema não foi puramente pagar a transa, mas sim gostar da transa com João, a química foi boa. João entendia de sexo, mas dinheiro nao tinha nenhum.
Marina se apaixonou por João. Que atire a primeira pedra quem nunca caiu em tentação. As histórias trágicas de João cresciam a cada encontro. Era filho doente, ex mulher na justiça, mãe esclerosada, contas atrasadas. Então, Marina pensou em ajudar e foi procurar um emprego para João na repartição, descobriu uma vaga de porteiro mas cadê o sorrateiro? João escafedeu-se, deu no pé, deu no pira e fugiu sem ao menos se despedir de Marina.
A pobre agora definha, anda cada dia mais triste e zangada da vida, chega a fatura do cartão e cada conta lembra um momento com João, saudade, saudade, saudade sem fim... Marina insiste e manda mil torpedos escritos assim: "João liga para mim" , "João não faz assim", "João, venha com sua mãe, os meninos e tudo mais, vamos nos ajeitar", "João prometo nunca mais mandar você trabalhar", "João, João João..." E assim seguiram seus dias e nunca mais João.
Marina segue ainda na mesma repartição, dia após dia em sua rotina, atendendo aquele povo sem fim, na esperança de rever o desalmado do João.

Fim.








(Mariana L. de Almeida)

4 comentários:

  1. Quantos talentos! Parabénssss. Hmmm quem é João? :v

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É apenas um personagem, mas que existe muitos por aí, ah existem! :)

      Beijo Ti, obrigada.

      Excluir
  2. Esta é a segunda crônica, sua, que eu leio. E percebo que você já tem um estilo. Parabéns.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada Norton! Sou apenas uma aprendiz das letras.

      Excluir