quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sonho.


   As vezes eu sonho com você e não é quando eu quero e sim quando sem mais ou menos acontece. As vezes eu precisava tanto falar com você que ao deitar lhe dedico mil preces pedindo que venha a noite me visitar. Eu preciso confessar, pode ser terrível eu sei, mas os mortos aparecem e você as vezes aparece para mim. Pois bem, essa noite você veio no meio de uma confusão, as pessoas transitavam sem parar ao nosso redor, falavam alto e gesticulavam, cada qual com suas histórias e anseios. Você caminhava depressa e eu tentava te alcançar, meu coração doía apertado, você olhava para trás e me sorria, aí como doía cada sorriso seu. Aquelas pessoas todas do nosso pequeno mundo atrapalhavam nossa discussão, enquanto você apertava o passo e o tempo tão incerto, outono mais parecido com inverno, um vento gelado que machucava a pele, meus lábios estavam rachados e a língua ao tocar o canto da boca sentia o gosto de sangue.
   No meio da nossa conversa, entre pessoas passando, apareceu um semáforo com a luz vermelha piscando, você parou e segurou forte minha mão, a sua estava quentinha e me trouxe alívio imediato, ficaria o resto da vida alí aguardo o sinal verde do semáforo abrir.
  Nos olhamos com ternura, sorrimos, depois gargalhamos e depois ainda de tanto rir nos contemplamos num profundo silêncio.
    O sinal abriu e voltamos a caminhar depressa, as pessoas também, eu queria te contar com calma todas as novidades do novo trabalho, do livro, da viagem, de como te rever estava sendo maravilhoso... eu queria tanto te agradecer!
    Infelizmente a pressa, a rua, o barulho dos carros e motos, a velocidade, o vento que aumentava e uma neblina terrível que se formou na rua onde minha visão foi perdendo o foco e a nitidez, senti um imenso abismo se abrir em meu peito, pois sabia que não te veria mais. Senti dedo por dedo escapar de sua mão, um por um foi escorregando enquanto você aumentava o passo e eu num desespero sufocante não consegui gritar seu nome pedindo um último olhar. Você se foi sem pestanejar, sumiu na neblina e eu acordei encharcada de suor e lágrimas de alívio e saudade. Eram quatro horas da manhã, o vento lá fora uivava, fechei bem a janela e voltei para a cama pensando que na verdade os mortos continuam bem vivos dentro de cada um de nós.




(Mariana L. de Almeida).

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