quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Quem não é você, Marília?

   Marília era dessas mulheres autênticas e destemidas. Precoce desde menina, curiosa, investigava a vida das formigas e os barulhos ofegantes que vinham do quarto dos seus pais todo final de noite. No começo ela se desesperava, pensava sempre no pior, imaginava seu pai estrangulando sua mãe e a sufocando com o travesseiro. Ela queria gritar, mas não saia um fio de voz sequer. Algo extremamente aterrorizante a mantinha com os ouvidos colados na parede que separava os dormitórios da rua Padre Luiz, nº 66. Ela pedia para Deus dar-lhe coragem para gritar e pedir socorro, e quando finalmente iria gritar, sua mãe Louise abriu a porta do quarto feliz e sorridente caminhando flutuante pela casa até a cozinha para beber água. Ela perguntou ainda: "Amor, você quer um pouco de  água também?" e ele respondeu: "Claro amor, você acabou comigo!" Ambos riram e Marília ficou muito brava por todo aquele terror inútil que vivera minutos antes.
    A partir de então Marília sabia que aqueles ruídos ofegantes eram prazerosos, eram de amor e cada vez mais aperfeiçoava suas técnicas para escutar melhor. No começo usava um copo de vidro, colocava a boca do copo no ouvido e a outra parte na parede, mas não dava muito certo não, aquilo era invenção de gente idiota. Chegou ao ponto de colocar uma babá eletrônica debaixo da cama de seus pais e aí sim, escutou tudo de seu quarto, podia escutar a linguagem corporal, a respiração, o barulho dos líquidos, dos beijos, da dança da cópula. Marília tinha 13 anos quando descobriu o som do amor.
   Cresceu, se formou em arquitetura e trabalhava com construção civil. Liderava uma equipe de homens: Engenheiros, projetistas, mestre de obras e ajudantes de pedreiros. Encarava de frente qualquer desavença, olhava nos olhos e sabia direitinho como conseguir sempre tudo o que queria. Marília usava todo seu sex appeal e sua inteligência e se se interessava por alguém, pronto, conseguia fisga-lo sem dificuldades.
   Marília adorava sexo, se ficasse muito tempo sem transar começava ficar meio louca, mal humorada, a memória falhava, brigava no trânsito.... Perdia completamente o bom senso à qualquer contratempo. Só que Marília tinha um problema que não revelava a ninguém, Marília nunca tinha amado. Ela pensava que sim, tentava se enganar a todo custo, mas no fundo, bem lá no fundo ao encarar seus olhos no espelho pela manhã, ela sabia que nunca tinha amado. Nunca sentiu seu coração quase sair pela boca, nunca teve as mãos trêmulas e úmidas de nervoso ao esperar por alguém, nunca teve insônia a espera de um telefonema de madrugada, nunca se emocionou ao receber uma buquê de flores de algum namorado. Marília assustava seus pretendentes porque na maioria das vezes ela quem os levava para a cama, não aguentava esse negócio de romantismo e de esperar o homem tomar as decisões. Muitos terminavam tudo com ela depois da transa, pois a consideravam experiente demais e respeitosa de menos. Marília dava risada e graças a deus, um machista enrustido a menos em seu caminho, hasta la vista baby, ela pensava e partia para outra. Marília se deitara com todos os tipos de homens... de engenheiros pós graduados até ajudantes gerais de obra e garantia: "Nada como transar com um pedreiro cheirando a cimento"
   Mas um dia o inesperado aconteceu, Marília se apaixonara! O dono de uma das casas apareceu no meio da tarde para ver a evolução da obra, tinha decidido de última hora levantar mais um cômodo e precisava saber da arquiteta se era possível a essa altura alterar a planta do imóvel. Ele tinha um perfume inebriante que ficava no ar, Marília amou imediatamente aquele cheiro e sem prestar nenhuma atenção ao que o cliente dizia, observava suas mãos, as veias saltadas, as unhas curtinhas e limpas, um sorriso doce, dentes branquinhos e os cílios pretinhos mais lindos que ela já vira. Observava seus lábios enquanto ele explicava as futuras mudanças do imóvel. Marília queria abraça-lo, apenas abraça-lo. Mas de repente foi nocauteada do alto dos seus sonhos quando a noiva do cliente entrou no recinto toda eufórica e feliz com os novos projetos, trocaram selinhos e juntos decidiam tudo que queriam alterar na planta do imóvel. Eles estavam felizes e apaixonados, tinham planos e logo formariam uma família. Marília invejou pela primeira vez outra mulher, sentiu pela primeira vez a dor de ser ignorada e rejeitada, ele não a desejara. Ela simplesmente não existia para ele.
   Marília aos poucos foi retomando sua rotina, estava naquela fase em que reavaliava todos os seus conceitos e preconceitos, não estava mais ansiosa por fazer sexo a qualquer custo. Estava com mais de trinta anos e decidida a viver um relacionamento. Não poderia imaginar como ou com quem, mas pela primeira vez sentiu esperança em relação ao futuro e uma certa paz em seu coração. No fundo, lá no fundo ao encarar seus olhos no espelho pela manhã, ela sabia que encontraria o amor mais dias ou menos dias. Marília despertara do seu medo, seu maior medo de finalmente amar.


(Mariana L. de Almeida)




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