quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Mara: uma nova mulher.


    Canalhas existem e aos montes, como baratas se multiplicam em cada esquina, mas com Mara eles não têm mais vez e vou contar porquê. Mara era um doce de mulher, considerada boazinha por todos, sempre receptiva, amiga, leal, amorosa, pronta para ajudar e incomodar o menos possível, afinal detesta pessoas invasivas e espaçosas demais, gente sem noção, entrona e por isso ela tenta não ser assim.
     Mara cultua a delicadeza, os pequenos gestos, a poesia, prefere um vinho ao barril de cerveja, prefere música boa à uma balada agitada, prefere alguns amigos em casa para um jantar que estar no meio da multidão fazendo "a social", prefere um amor para dividir a escolha de filmes e dormir de conchinha. Claro que ela adora sexo, mas sem aquele desespero juvenil, aprecia cada toque e preza por qualidade e não quantidade. Ela é intensa demais para sexo rotineiro e quase mecanizado.
     Porém, por Mara ser exatamente assim é que vez por outra acabava atraindo algumas pessoas e situações desagradáveis para sua vida, aqueles famosos sugadores de energia, vampiros emocionais que à princípio se mostram verdadeiros Lordes, mas em pouco tempo se revelam maus-caracteres quase profissionais. Eram colegas de trabalhos folgados, namorados manipuladores, amigas invejosas, vizinhos que se aproveitavam, ex marido mentiroso e por aí vai. Foi então que ela sofreu uma crise de identidade e de consciência colocando em xeque mate todos os seus valores e se questionando por que volta e meia atraía determinadas pessoas e situações para sua vida e depois de dias de uma autoanálise profunda decidiu mudar completamente seu jeito de ser onde determinou para si mesma ser uma pessoa mais fria e racional, o menos simpática possível, o menos receptiva possível, deixar de responder mensagens aparentemente fofas que recebia em suas redes sociais, bloquear intrometidos do seu whatsapp, não responder mais e-mails de elogios que recebia de colegas de trabalho, aliás, nem sair mais para "happy hours"com aquela turma chata e falsa, começaria academia onde conheceria gente nova com certeza! Mara declarou vida nova e um novo jeito sério de ser onde  não seria mais feita de boba por ninguém.
     E a primeira semana da nova vida dela foi uma verdadeira revolução: "Mara querida, você pode revisar isso para mim? Não, não posso!"; "Mara sua linda, me bateu uma saudade de você! Saí fora seu idiota!"; "Mara posso ir na sua casa hoje para você me ajudar com uma cláusula desta nova Norma que não estou assimilando miga? Não pode, hoje terei um encontro e volto só segunda de manhã, peça para seu chefe te ajudar miga, beijo!"; "Oi Mara, vo..." Não, não quero!" "Mara? Nãoooo!"
      E pela primeira vez na vida Mara começava entender como o mundo era mesmo uma merda e que ser bom é sinônimo de ser idiota, que uma mulher gentil não é valorizada porque o mundo ainda é muito machista, que ser receptiva demais era estar pronta para receber traição, que ser simpática demais significa aceitar qualquer coisa de qualquer pessoa, que ser elogiada demais por seus colegas significa apenas que eles querem transar com você e sim, se você for legal e simpática demais com todo mundo, você só será usada e ficará sozinha para sempre, que ajudar aos outros não significa que você será ajudada quando precisar e que ser amiga não te garante ter verdadeiros amigos. Essa é a lógica deles, desse povo cruel que faz o mundo girar e que agora Mara aprendeu de fato como jogar.

(Mariana L. de Almeida)








2 comentários:

  1. Un texto interesante como Mara va transformándose en el tiempo por cada desengaño, hoy Mara no es una idiota es una mujer inteligente que comprendió la debilidad de los hombres, Mara es hoy una gran mujer.

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