segunda-feira, 31 de outubro de 2016

#Divagações.

Pra mim poeta não é gente como as gentes de carne e osso, poeta é outra espécie senciente, ainda não traduzida e que nunca entrará em extinção, porque o poeta é o que enxerga pelo vão das janelas do mundo, é o que espia pelo espelho das moças da vida, é o que vê a luz quando finalmente tudo está escuro, é o que desvenda o monstro e ainda o acolhe, é o que ama o feio e o inacabado e é o que sonha com o final justo e abençoado.
Por isso nos chamam sonhadores.


(Mariana L. de Almeida)
Imagem: Mariana L. de Almeida.



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Ser poeta.

Lutei
Lutei como pude
Neguei
Neguei diariamente
Escondi
Escondi todos os livros
Rasguei todos os versos
Abafei todas as canções
Gritei
Meu deus como eu gritei
Eu queria matar
Que desejo quase incontrolável
Mas a serpente
Sempre à espreita
O bote a minha espera
Ouvia ela sibilar
Sua língua bifurcada
Não me deixaria safar
A morte era certa
Seria impossível escapar
Desde menina eu sabia
Minha sina era denunciar
O que não se pode contar
Nas cenas de novela
Que vão ao ar para te lograr.


(Mariana L. de Almeida).












quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Dia dos Poetas.

20/10 Dia dos Poetas!

Ser poeta é ser menino
Ser poeta é ver menino
Ser poeta é crer menino
Ser poeta é sonhar menino.

Só o poeta ousa o que é sonho de menino
Só o poeta vê o que permite a visão de menino
Só o poeta acredita no que sabe o menino
Só o poeta vive o que é sonho de menino.

O poeta é o menino ainda vivo
Escondido no fundo do peito ferido
De um dia sozinho, desiludido
Mas nunca vencido pelo dragão inimigo.

O menino cresceu, entre letras e livros
Papel, bolas, gritos e ladrilhos
Entre palavras de alegrias e saudades
Se fez poeta para salvar a dor da humanidade.




(Mariana L. de Almeida).
Imagem: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/jose-carlos-fernandes/o-menino-poeta-da-vila-das-torres-9nurx5x4fld2hd2au7r7qk23r



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A verdade aparece.

Cedo ou tarde a verdade aparece
Cedo ou tarde ela te assalta
Num meio dia no meio da sala
Entre tantas notícias e bobagens.

No meio do quase nada
Entre estúpidas flores amarelas
A verdade emerge e te enlaça
Inútil resistir ou fugir dela
Inútil retê-la.

Ela tem vontade própria
Como um escorpião acuado
Aguarda à sombra
Silenciosa e imóvel
À hora exata do bote.

Ela morde e suga
Seu sangue falso
Que rouba a alegria
E mata a vida de quem vive.

(Mariana Lima de Almeida).









terça-feira, 18 de outubro de 2016

Profana.


Tanto busquei aos deuses
Tantas súplicas e orações
Até poemas lhes ofereci
E nada!
Tentei lhes agradar de todas as formas
Fiz jejum, promessas, decorei salmos
Ofertei-lhes meu pão, bebi todo o vinho
Mas o que eu pedi os deuses nunca me deram
Ainda não sei o que fiz de errado
Ao ser expulsa assim do paraíso
Ainda menina meus pecados traí
Ao oferecer aos deuses minha inocência
Em troca de algum alento, desvelo.
Os deuses não sabem
Ao me negarem os céus
Abriram abrigo sem véus no meu coração.


(Mariana L. de Almeida).

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Sobre escrever.

Escrever é preciso, ser lido já é outra coisa
Escrever é necessidade, impulso, grito
Ser lido é invasão, dedo na cara, condenação
Julgam o que não sentem
Condenam o que não entendem
É assim na vida
É assim na política
É assim na literatura.
Que me importa se meu sangue é diferente do teu?
Meu sangue tem oxigênio, hemácias, delícias e venenos
Meu sangue não se aquieta nem se esfria, ferve
Meu sangue me arde por dentro, irriga meu corpo
E inutilmente quero parir palavras
Sou grávida de sentimentos, revolta e caos.
Quero parar o mundo, vencer o medo e matar o mal
Mas é o mal quem me mata, é ele quem sempre vence
Eu só tenho meu sangue carregado de versos
E desejos febris por flores amarelas e vermelhas
Semeio em jardins inférteis, insisto.
Não desisto de um dia ver uma rosa se abrir
Mesmo certa de que seus espinhos tirarão meu sangue
Gota por gota até secar toda poesia.


(Mariana L.de Almeida).





segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Era sexo.


Era sexo e somente sexo
E por isso mesmo irresistível
Era química, era física
Pele, beijo e faísca
Era literatura, pura poesia
Ritmo, rimas e respiração.
Era sexo e somente sexo
Não me importava seu nome
Seu endereço ou partido político
Não me interessava sua vida
Nem antes, nem depois
Nada além do nosso instante.
Era sexo e somente sexo
Sem mentira, sem maldade
Só verdades, sem pecados
Só dois corpos extasiados
Que insistiam em permanecer
De mãos dadas após sublime ato.

(Mariana L.de Almeida).

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Eclipse.




Eu já te esqueci,
Nada tão simples assim
Foram dias nublados...
E noites de tempestades.
Eu sabia que o sol voltaria
Só não sabia por quantos eclipses
Meu coração sobreviveria
Para renascer e novamente se aquecer
Acendendo as estrelas do novo céu.
Lua minguante para você
E Lua nova para mim.



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Escolhas?

Tem coisas que não são escolhas, infelizmente.
Não escolhemos quem amar, por exemplo. O carinho e a admiração podem ser enormes, mas se não houver paixão, bau bau...já era. De amantes à colegas de quarto há uma distância enorme e frustrante. Com amor tudo se tolera, sem amor qualquer deslize é suficiente para odiar o outro. Quando você está apaixonada, até aquele ronco motoserra é tolerável, você observa o outro dormir com ternura e aquele barulho destruidor e belo embala teus mais lindos sonhos...zzzZZZZzzz... Se não está mais apaixonada, aí a coisa muda, você passa mal, sente ódio e súbitos desejos de que a pessoa morra engasgada com o próprio ronco.
Mesma coisa com bebida, quando amamos e o outro está bêbado é muito divertido, você morre de rir de tudo que ele faz, das músicas que canta, das ideias revolucionárias, das declarações em público e no final da night acompanha-o até o banheiro para ele vomitar e o ajuda levando água, eno, engov, chá, café e o que mais for preciso. Mas e quando você quer sumir diante das idiotices que ele faz por estar bêbado? Fala alto demais, ri alto, chora alto, ama todo mundo, canta errado, não entende o assunto em pauta, é o verdadeiro bobo da corte e seu maior desejo é que ele tropece na escada e caia de cara no chão.
Outra coisa é se apaixonar por um pão duro! Puta que pariu! O cara te convida para tomar uma cerveja e pede uma lata e dois copos! Hã?? Como assim boy? Papo vai e papo vem você pede outra cerveja, ele já te olha assustado e você se anima e pede a terceira! Ele te olha muito assustado e diz: "Você bebe hein baby!" Aí finalmente decidem pedir um lanche e o cara tem a moral de pedir um lanche para dividir para os dois, justificando-se que não come muito porque sofre de refluxo....hehehehe...isso é real, acreditem!
Me respondam, cadê a paixão depois disso? Ah quem goste e até se apaixone, afinal tem coisas que não são escolhas.
Não amamos o politicamente correto, se assim fosse, seria o mundo perfeito para os reaças de plantão. O politicamente correto diz que não podemos amar alguém do mesmo sexo, de diferentes etnias, de diferentes idades e de diferentes ideologias, ah esse último é difícil mesmo...rs..treta na certa e o amor acaba rapidinho, não há tesão que resista ao ver seu amado (a) bradar: Bolsonaro 2018! Alckmin 2018! etc. Li uma vez que amamos a desordem que o outro nos provoca e acho que é bem por aí, como não se apaixonar por uma pessoa que te surpreende pela própria personalidade, pelo humor sarcástico e sacana? Beleza para mim? É aquela que vem de um sorriso sincero, um olhar verdadeiro e um abraço que acolhe.
Enfim, esse papo é sempre complicadíssimo e com a idade as coisas só pioram. Chega o final de semana e tudo que você deseja nesse inverno é ficar quentinha em casa, tomando um bom vinho tinto, fazer brigadeiro de colher e assistir mil filmes na TV. Trocar isso pelo o quê? Baladas agitadíssimas? Filas quilométricas para entrar? Restaurantes lotados? Há quem prefira e que assim seja. Eu fico com a primeira opção, no verão prometo me animar mais e quem sabe me apaixonar novamente,  nao tem coisa melhor na vida. Enquanto isso me torno cada dia mais íntima da Netflix, cada dia mais especialista em vinhos e uma fazedora de brigadeiro de mão cheia. A felicidade está nas pequenas coisas que temos ao nosso alcance, desisti de esperar pelo que eu não tenho para me declarar uma pessoa feliz.

Beijos!
(Mariana L. de Almeida).

Imagem: Cena do filme Amélie Poulain.