terça-feira, 22 de novembro de 2016

O melhor do mundo.


É preciso levantar da cama e vencer o dia,
Sair às ruas e tomar as passeatas,
Clamar por justiça, denunciar o ódio e a intolerância,
Abraçar os amigos e tomar um café,
Caminhar sob o sol e esperar pelo anoitecer,
Tem coisas que ainda valem a pena serem vividas,
Tem belezas que ainda resistem,
Tem vida que ainda germina,
Ah, ainda tem o amor!
Esse peralta que nunca desiste
E insiste em sonhar, em sonhar
Que o melhor do mundo ainda vai começar.

(Mariana de Almeida).

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Elos quebrados.

   Nada mais triste que quando elos são quebrados, algo acontece uma vez, duas, três talvez e o elo se desfaz numa explosão catastrófica. Nos desfazemos, não nos precisamos mais, não nos confidenciamos e quiçá nos confiamos mais.
   É um pouco como morrer, você morre mas seu corpo continua vivo, ainda sente sede, fome e uma  solidão absurda, algo em você cala-se para sempre. Os olhos evitam os olhares, é um luto, dói, acabou o muito que um dia existiu, o olhar cúmplice e acolhedor, o abraço quase fraternal, os dedos entrelaçados, os pés se tocando no sofá... Sei que um dia fui amada e por isso eu perdoo o tempo.
   Nunca fui a preferida, não fui a menina dos olhos, não fui princesa por nenhum dia, não tive baile de debutante, não dancei valsa em nenhuma formatura, não fui a mais bonita da rua e não casei de branco, véu e grinalda na capela  mais próxima, não venci na vida como Hollywood ensinou... eu não fui abençoada.
   Neguei todas as oferendas, simpatias e orações. Dei a mão para quem não podia, conversei com estranhos na rua, experimentei venenos e entornei o vinho seco. Não fiz dietas, não frequentei academias lotadas, não abandonei os cigarros nem os remédios, não me vendi como devia, não enfrentei os credores nem fugi dos devedores como eu.
   Nessa retrospectiva de idas e vindas, de mentiras e verdades, contornando o medo e fingindo coragem chegamos até aqui num murmúrio abafado sufocados por um silêncio forçado.
   É preciso falar baixo, é preciso respeitar os mortos. Embora a maioria não saiba, mas os mortos têm ótimos ouvidos e nos ouvem  mesmo enterrados debaixo de sete palmos de terra gélida e fétida.
   Assim nosso tempo passou, passou o bom e o mal tempo, passaram os dias e as noites, invernos e verões, dias de dores e de ternuras. Ainda me lembro do seu olhar protetor e do calor tenro que emanava da pele áspera de suas mãos.
   Eu te amei como jamais amaria outro alguém, mas elos foram quebrados, poeira para todos os lados, nossa visão embaralhada para o resto da vida destruindo a paisagem a nossa volta.
   Tempos de adeus, malas e recomeços. No rádio ainda toca a canção que a gente adorava, mas não nos diz mais nada. Tudo em volta é deserto e abafado, é preciso encontrar água fresca e sombra para mim e para você. Você que não conheço mais, você que ficou num elo quebrado do passado, você que amarelou no meu porta-retratos guardado num fundo de armário, você que passou e para sempre se foi.
 


(Mariana L.de Almeida)

Desculpe.

Me desculpe,
Se não estou afim
Se não estou à toa
Se não estou na tua
Se não te espero nua.

Se sigo sozinha
Entre a noite e o dia
Rasgando versos
Entornando o vinho
A espera do grande dia.

Eu espero pela primavera
Ver meus campos floridos
Repletos de lírios e poesias
Assim na terra como nos livros
Eu não desisto.

Aprendi a resistir à algumas batalhas
Sobrevivi aos piores holocaustos
Para finalmente ser minha
Do jeito que eu queria
Minha, só minha.

Poema e fotografia de:(Mariana de Almeida).

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Por que?



Por que você insiste em nunca dizer o que sente, se impõe forte e prepotente?
Por que você insiste em nunca jogar na sua classe e somente no time adversário?
Por que você insiste em nunca defender seus direitos e somente os alheios?...
Por que você cumpri tantos deveres os quais não deve para ninguém?
Por que você não encara essa guerra onde alimenta aqueles os quais nunca te salvarão?
Por que você não se junta a tua classe e se abre em flor num forte abraço?
Por que você não defende teu irmão que agoniza abandonado e deixa teu carrasco sanguinário de lado?
Não se pertence à uma classe fazendo-se de escravo dela ou cortejando-a com flores de jornal de ontem;
Uma classe se faz com homens que se reconhecem no abuso e na opressão;
Mas que não aceitam a escravidão, pois também se reconhecem nos sonhos de liberdade e igualdade onde todos são irmãos.



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Vida e arte.


Eu não sabia

Que na arte, assim como na vida

Também existia inveja e picuinhas

Triste essa inútil rivalidade

Pois na arte, assim como na vida

Todos são únicos e insubstituíveis

Cada qual com seus dilemas

Cada qual com seus deleites

Minhas palavras traduzem as estradas

Repletas de asfalto falhos e esburacados

Respeito profundamente a tua estrada

Que também foi feita do mesmo asfalto

Há espaço para todos, na vida e na arte

E incrivelmente estes se multiplicam

Se seguirmos de mãos dadas.

(Mariana de Almeida).





quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Maria.

Ah Maria,
Teu nome perdido entre tantas estrelas
Teu sonho vendido entre restos de feira
Tua vida lograda entre tantas portas erradas.

Ah Maria,
Você que foi em vida tão doce menina
Não merecia tanta punição e castigo
Por entregar-se sem pudores à poesia.
Rasgar-te as roupas em plena noite
Romper os véus depois dos açoites
Gozar o corpo depois do amor
Pagou teus sonhos com tua mais profunda dor.

Ah Maria,
Há de ser a morte a recompensa dos teus dias
Há de ser a morte uma tarde que nunca se finda
Há de ser a morte o descanso de tua cólera e ira
Pagaste Maria, Pagaste nota por nota
Por cada riso e por cada flor
Encerraste a conta, fechaste a cota
Descansa Maria, não deves nada
És livre, és leve como o beija flor.

Ah Maria,
Não mais sustentará as pernas do mundo
Com tua poesia que denuncia toda dor
Ouça o silêncio Maria, apenas ouça
É o silêncio que buscava em tuas noites insones
Agora será o silêncio que te embalará
Para toda a eternidade, noite após noite.
Descansa, Maria.

(Mariana L. de Almeida)
Imagem: Klimt.



terça-feira, 1 de novembro de 2016

Cidade.

A cidade seca, desfolhada e nua
Desabitada, sem remorso e crua
Dos concretos de cimento e chão
Emerge selvagem como louca paixão
Num dia de inferno, quente de verão
A vida, que resiste embora tantos nãos.


Poema e fotografia: (Mariana L. de Almeida)