quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Elos quebrados.

   Nada mais triste que quando elos são quebrados, algo acontece uma vez, duas, três talvez e o elo se desfaz numa explosão catastrófica. Nos desfazemos, não nos precisamos mais, não nos confidenciamos e quiçá nos confiamos mais.
   É um pouco como morrer, você morre mas seu corpo continua vivo, ainda sente sede, fome e uma  solidão absurda, algo em você cala-se para sempre. Os olhos evitam os olhares, é um luto, dói, acabou o muito que um dia existiu, o olhar cúmplice e acolhedor, o abraço quase fraternal, os dedos entrelaçados, os pés se tocando no sofá... Sei que um dia fui amada e por isso eu perdoo o tempo.
   Nunca fui a preferida, não fui a menina dos olhos, não fui princesa por nenhum dia, não tive baile de debutante, não dancei valsa em nenhuma formatura, não fui a mais bonita da rua e não casei de branco, véu e grinalda na capela  mais próxima, não venci na vida como Hollywood ensinou... eu não fui abençoada.
   Neguei todas as oferendas, simpatias e orações. Dei a mão para quem não podia, conversei com estranhos na rua, experimentei venenos e entornei o vinho seco. Não fiz dietas, não frequentei academias lotadas, não abandonei os cigarros nem os remédios, não me vendi como devia, não enfrentei os credores nem fugi dos devedores como eu.
   Nessa retrospectiva de idas e vindas, de mentiras e verdades, contornando o medo e fingindo coragem chegamos até aqui num murmúrio abafado sufocados por um silêncio forçado.
   É preciso falar baixo, é preciso respeitar os mortos. Embora a maioria não saiba, mas os mortos têm ótimos ouvidos e nos ouvem  mesmo enterrados debaixo de sete palmos de terra gélida e fétida.
   Assim nosso tempo passou, passou o bom e o mal tempo, passaram os dias e as noites, invernos e verões, dias de dores e de ternuras. Ainda me lembro do seu olhar protetor e do calor tenro que emanava da pele áspera de suas mãos.
   Eu te amei como jamais amaria outro alguém, mas elos foram quebrados, poeira para todos os lados, nossa visão embaralhada para o resto da vida destruindo a paisagem a nossa volta.
   Tempos de adeus, malas e recomeços. No rádio ainda toca a canção que a gente adorava, mas não nos diz mais nada. Tudo em volta é deserto e abafado, é preciso encontrar água fresca e sombra para mim e para você. Você que não conheço mais, você que ficou num elo quebrado do passado, você que amarelou no meu porta-retratos guardado num fundo de armário, você que passou e para sempre se foi.
 


(Mariana L.de Almeida)

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