sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Da poesia.

Essa dor nunca passa
Nem nunca vai passar
Quem nasceu para sentir
Não consegue fingir
Tamanha felicidade
Em face a falsidade
Me disseram que a poesia é arte
Coisa fina, coisa nobre
E o poeta um sonhador
Mas o que eu sei
É que a poesia é ofício
Do poeta que traduz
Em versos líricos
Toda a sua dor.


(Mariana de Almeida).

Nosso amor.

Nosso amor era doença
Curava os dias
Enlouquecia as noites
Entorpecia nosso sangue
Bombeava nossas veias
De versos, lirismo e vinho
Anoitecíamos Santos
Amanhecíamos Loucos
Cobertos de poemas
Que marcavam na pele
Como tatuagens
E palavras rabiscadas
Que nunca decifravam
Nossa vaidade letal
Que mancharia de sangue
Toda poesia que fizemos um dia.


(Mariana de Almeida).

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Meus poemas.

Você não lê mais os meus poemas
Diz que sim, mas eu sei que não
Passa os olhos como se fosse
Notícias falsas de um jornal
Passa os olhos mortos
Como quem passa a manteiga no pão
Todas as manhãs são assim
Todas as manhãs são iguais.
Minha poesia declara guerra
Em meio aos montes de papéis
Acumulados sobre a mesa
É inútil tentar chamar sua atenção
Você ignora, embora finja que não
E nossa vida passa dispersa
Por entre os dedos das mãos.
Entre jornais, boletos e segredos
Grita minha poesia nua
Contra tua frieza muda
Inútil tentar chamar sua atenção
Você não lê mais os meus poemas.

E de fato, acho que nunca os leu
Tudo que um dia nos uniu
Foram as rimas das falsas alegrias.

(Mariana de Almeida).

Feliz ano novo.

   É assim quando nada mais nos satisfaz nem sossega. Vira e mexe e a vida traz aquela velha sensação de tédio e estupidez, talvez seja essa época do ano em que revemos tudo que foi prometido e não foi cumprido, todas as renovações de ano novo sem nos renovarmos de fato, são aquelas mesmas perguntas sem respostas de sempre: Por que nascemos, por que passamos por tantas coisas ruins, se Deus existe e se existe por que ele permite tamanhas atrocidades, se não existe por que tanta gente ainda insiste que existe? Essas perguntas sem respostas que vagam entre nossos pensamentos e nos causam insônia, medo e solidão, pois pior que saber a verdade é nunca sabe-la. 
   Tudo tão vago e inexato que simplesmente devemos aceitar. Devemos aceitar a mulher sem dentes debaixo do sol escaldante pedindo dinheiro no semáforo, devemos aceitar o preço da carne nos supermercados, devemos aceitar o abandono, devemos aceitar o poder, devemos aceitar a demora nos consultórios médicos, devemos aceitar os programas ruins de televisão, devemos aceitar as portas giratórias dos bancos da cidade que sabem tudo que carregamos na bolsa e nos bolsos e principalmente sabem que não carregamos dinheiro, devemos aceitar responder perguntas em formulários e fichas de inscrição, devemos responder nossa renda baixa e nosso estado civil falido, devemos responder que somos mães solteiras, devemos aceitar e assinar os termos de responsabilidade por tudo de mal que nos acontecerá, devemos deixar nosso número de telefone para todos cobradores nos encontrar, para o colégio de nossos filhos nos ligar e para a notícia boa que nunca chegará.
    Esses dias de profundo nada são assim, resta a obrigação de continuar vivo: Ir para o trabalho, limpar o quarto, trocar a água dos cachorros, tomar banho rápido, não fazer barulho, não perturbar o dia nem interromper a noite. O coração, salta, acelera, ameaça um grande devaneio mas apenas se contém, um dia será contido finalmente. Repousará profundo indiferente ao preço da gasolina, à alta do dólar, ao homem louco que se suicidou, a conta atrasada que venceu e não pagou, aos meninos do semáforo que denunciam o Brasil, a nossa falsa democracia, os herdeiros de nossas células que carregarão a dor e o tédio de todos os séculos até o dia em  que tudo será pó e vastidão.
   Nós, os humanos e nossas estúpidas aflições seremos nada, nada além de poeira perdida na infinita vastidão do espaço.

   Que assim seja, feliz ano novo de novo a todos.

(Mariana de Almeida).



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Minha.

Me desculpe,
Se não estou afim
Se não estou à toa
Se não estou na tua
Se não te espero nua.

Se sigo sozinha
Entre a noite e o dia
Rasgando versos
Entornando o vinho
A espera do grande dia.

Eu espero pela primavera
Ver meus campos floridos
Repletos de lírios e poesias
Assim na terra como nos livros
Eu não desisto.

Aprendi a resistir à algumas batalhas
Sobrevivi aos piores holocaustos
Para finalmente ser minha
Do jeito que eu queria
Minha, só minha.

Poema de:(Mariana de Almeida).


Maria menina.



 Maria era uma dessas meninas que estão na vida

Sem saber de onde vinha, sem saber para onde iria

Dessas meninas sem eira nem beira,

Que da vida só levam rasteiras

Maria menina cresce e vira Maria Mulher

Dos sonhos de menina de Maria, nenhum restaria

Maria queria ser artista de circo, mas acabou sendo artista da vida

Sustentava um marido e três filhos com um salário mínimo

Maria acordava cedo para poder fazer a mesa

As vezes tinha pão, às vezes não tinha não

As vezes coava café, às vezes só lhe restava fé

Maria sofria por deixar os meninos à vela

Mas quem cresce na favela sempre encontra uma reza

E a vida leva Maria do subúrbio à cidade

Em seus ônibus lotados de gente atrasada

Vai Maria e volta Maria que nunca desiste

De ser na vida, só o seu sonho de menina.

(Mariana de Almeida).








sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A paixão.

Amar o que não se conhece é fácil
Sempre acontece comigo
Me apaixono pelo que não tenho
Ardo pelo que eu desejo
Atravesso todo o fogo
E quando me queimo
É puro incêndio!
Apitam alarmes e sirenes
E toda paixão me cega
Tal fumaça que exala
Cianeto e gás carbônico que mata.



Dois cafés.

Eu, você e essa louca intuição
Que insiste em me transtornar
Dizendo que nascemos um ao outro
Como os versos de amor daquela canção
Como café e açúcar na exata proporção
Como a mistura de pele que é pura explosão.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Da dor de ser mulher.

Eu fui mulher um dia, eu sei
Eu fui amada um dia, eu sei
Eu gerei a vida, rompi o dia
Pari novos filhos
Para essa Pátria triste
Fervi a água, coei os dias
Esquentei o leite
Reinventei o pão
Troquei as camas
E refiz a canção
Mas o sono dos justos
Eu não tive não
Mal me deitava
E o dia já raiava
Clamando suas injustiças
Batendo em retirada
Batendo em minha cara
Recolhendo toda poesia
Que distraidamente
Entre as roupas limpas
Eu estendia no varal
Que secava nossa vida.