terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Feliz ano novo.

   É assim quando nada mais nos satisfaz nem sossega. Vira e mexe e a vida traz aquela velha sensação de tédio e estupidez, talvez seja essa época do ano em que revemos tudo que foi prometido e não foi cumprido, todas as renovações de ano novo sem nos renovarmos de fato, são aquelas mesmas perguntas sem respostas de sempre: Por que nascemos, por que passamos por tantas coisas ruins, se Deus existe e se existe por que ele permite tamanhas atrocidades, se não existe por que tanta gente ainda insiste que existe? Essas perguntas sem respostas que vagam entre nossos pensamentos e nos causam insônia, medo e solidão, pois pior que saber a verdade é nunca sabe-la. 
   Tudo tão vago e inexato que simplesmente devemos aceitar. Devemos aceitar a mulher sem dentes debaixo do sol escaldante pedindo dinheiro no semáforo, devemos aceitar o preço da carne nos supermercados, devemos aceitar o abandono, devemos aceitar o poder, devemos aceitar a demora nos consultórios médicos, devemos aceitar os programas ruins de televisão, devemos aceitar as portas giratórias dos bancos da cidade que sabem tudo que carregamos na bolsa e nos bolsos e principalmente sabem que não carregamos dinheiro, devemos aceitar responder perguntas em formulários e fichas de inscrição, devemos responder nossa renda baixa e nosso estado civil falido, devemos responder que somos mães solteiras, devemos aceitar e assinar os termos de responsabilidade por tudo de mal que nos acontecerá, devemos deixar nosso número de telefone para todos cobradores nos encontrar, para o colégio de nossos filhos nos ligar e para a notícia boa que nunca chegará.
    Esses dias de profundo nada são assim, resta a obrigação de continuar vivo: Ir para o trabalho, limpar o quarto, trocar a água dos cachorros, tomar banho rápido, não fazer barulho, não perturbar o dia nem interromper a noite. O coração, salta, acelera, ameaça um grande devaneio mas apenas se contém, um dia será contido finalmente. Repousará profundo indiferente ao preço da gasolina, à alta do dólar, ao homem louco que se suicidou, a conta atrasada que venceu e não pagou, aos meninos do semáforo que denunciam o Brasil, a nossa falsa democracia, os herdeiros de nossas células que carregarão a dor e o tédio de todos os séculos até o dia em  que tudo será pó e vastidão.
   Nós, os humanos e nossas estúpidas aflições seremos nada, nada além de poeira perdida na infinita vastidão do espaço.

   Que assim seja, feliz ano novo de novo a todos.

(Mariana de Almeida).



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