quarta-feira, 5 de julho de 2017

Só.

De todas as mentiras
Que não te contei
Você foi se apaixonar
Justo pela minha verdade
Nua, crua e cheia de sangue
Que tanto teimei em negar...
Minha intenção nunca foi te matar
Mas minha verdade é pura navalha
Que corta sem nenhuma contrição
Deixo o amor para quem sabe mentir
Sigo só afiando a lâmina da solidão.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Acabou.

Acabou daquela forma mais blasé
Impessoal, indiferente, insensível
Tanto faz a água da chuva que inunda a casa
Ou a alta do dólar que aumentam os lucros;

Tanto faz se é dia ou noite
Se veste azul ou cinza
Se ouve Mautner ou Tom Zé
Se bebe o tinto ou o branco;

Tanto faz quando se morre!


(Mariana de Almeida)
Foto: Rio de Janeiro, Copacabana, um dia frio.

Tempo da espera.

Quando repiquei os cabelos todos
Em frente ao espelho d'água
E vi meus pedaços caindo na poça
Sabia que não poderia voltar atrás
Era o tempo da espera que começara
Era o tempo das grandes podas
E minha alma passaria por este ciclo
Para seu solo, de novo, poder germinar
Fui menina, fui mulher e fui deusa
Minhas raízes e tubérculos cresceram
Agarram-se à Terra e gerei frutos
Fui mãe, fui rainha e fui mendiga
Dei, para o amor, tudo que não tinha
Agora, da morte, renasço mais jovem
Do tempo da espera, me aguardo ansiosa
A volta é sempre melhor que a ida
A volta nos dá gratidão e sabedoria
Na ida só levamos na mala a vaidade
Em frente ao espelho d'água
Pude me ver, de novo, uma menina.

(Mariana de Almeida).

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Vem

Vem, vem devagar, como quem chega para ficar
Vem, vem devagar, como chegam os primeiros raios de sol
Devagar e inteiro, que aquece aos poucos e não esfria jamais
Vem, vem como um bom amigo, de peito aberto e olhos de amor
Vem inteiro, vem com o seu melhor, vem só com o seu melhor
Deixa o resto para os dias ruins que insistem lá fora
Vem anoitecer comigo como só os amantes sabem fazer
Deixa a noite levar embora o nosso resto de dor...
Vamos jantar no alto da torre e ver a cidade nua
Vamos brindar e dançar sob a lua os nossos poemas
Venceremos a morte no meio da noite
Sob lençóis de seda azul céu turquesa
Nossa pele, nosso brilho, nossos melhores perfumes
Luxúria às vezes cai bem quando desejamos demais
Nada de menos, só de mais, mais e mais...
Vem, nem tão devagar assim, me amar é urgente!
Esperar é para poucos, não para mim, eu não nego
Esperar é para os fracos que aceitam pouco
Esperar é esfriar a loucura da minha pele.

(Mariana de Almeida)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Top.

   Existe alguns tipos de pessoas totalmente dispensáveis, especialmente aquelas que fazem sempre o mesmo tipo de comentário, seja qual for o assunto. É o tipo "simpático-idiota" que curte todas as fotos e publicações de uma rede social com um único comentário do tipo "Top".
   A pessoa não é dotada de nenhuma profundidade em nenhum assunto ou opinião, além de ser o típico idiota, é quase sempre o perfeito machistinha retardado que curte todas as fotos das amigas e comenta orgulhoso:"Top".
   Lê uma crítica de alguém sobre qualquer assunto e comenta: "Top".
   Vê uma receita de bolo inglês com cobertura de chocolate belga e comenta: "Top".
   Enfim, esse tipo de idiota é o retrato do brasileiro mediano e midiático, o infeliz vai conforme a maré das mídias o guiam, ele ama o artista que vende mais, ele odeia as minorias, ele defende sua própria escravidão, ele se orgulha de conseguir comprar um tênis ou celular de valor superior ao seu próprio salário, ele acredita em propagandas mirabolantes, ele objetifica a mulher e pior, ele se acha  um homem superior aos outros. Ele acha que está por dentro de tudo, conhece todos os suplementos proteicos disponíveis para quem frequenta academia, conhece várias marcas de cervejas, sabe as marca das melhores roupas e perfumes, mas não entende nada de evolucionismo, corpo humano ou liberalismo econômico.
   Ah, ele também acha que é o fodão do sexo, que seu pau é o melhor de todos e que quanto mais ele demorar para gozar,  melhor para a parceira! (risos). É o cidadão todo construído por falsos estereótipos.
   Infelizmente não é só o sexo masculino que pode se gabar dessa realidade, o que têm de mulheres que defendem seus algozes, que concordam com sua castração moral por parte dos seus companheiros, chefes e líderes religiosos, não está escrito nem nos piores gibis.  Tem muita mulher que não imagina o quanto está sendo usada e explorada pela sociedade, pela família, pela igreja e pelos políticos lacaios. Ela não faz ideia de como foi construída e da escravidão que é manter ou tentar atingir esse padrão de subserviência ao sistema castrador que a oprime do direito de questionar para formar suas próprias opiniões e desenvolver suas verdadeiras aptidões.
   Ela também não sabe comentar ou discutir nenhum assunto com profundidade, também gosta das músicas que vendem mais, das novelas que oprimem mais, das roupas que a exploram mais e sim, ela também participa e comenta tudo nas redes sociais com a gíria mais miserável que inventaram até agora, ela também comenta e diz: "Top!"
 
(Mariana de Almeida).
 
 
 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O velho marinheiro.

Era impossível não amar aquele homem, tanta bondade, tanto carinho que exalava de seus olhos, suas mãos tenras, seu colo acolhedor e suas palavras sempre doces de esperança.
Era amor demais para um homem só, um homem castigado pela vida, perdas irreparáveis, separações, rejeições e abusos. Eram tantas faltas e um coração gigante que boiava em seu mar de amor infinito, regido pela Lua que determinava suas marés, ora baixa, ora cheia e ora tempestuosas de anseios inimagináveis.
Ela era suja demais para um coração tão puro, ela fora abduzida pelo sistema o qual repudiava... Desde menina seguia regras impostas para sua sobrevivência, nenhum passo em falso seria perdoável, um deslize e já seria o suficiente para que um Tsunami devastasse sua pequena vida de medo e agonia, as vezes teria sido o melhor mesmo...
Ela foi tocada pelo amor desse velho marinheiro, foi libertada das profundezas do seu mar sujo e cheio de destroços de antigos navios naufragados. Esse homem, esse marinheiro a tocou com o seu doce amor e a libertou para navegar em outros oceanos de águas mais limpas. Sim, ela podia nadar, existia um outro oceano e ela podia se salvar.... Salvar-se da dor de se saber prisioneira, estava liberta para sair dali e navegar em outras águas antes que fosse tarde demais. O lodo de sua prisão nunca sairá completamente dela, haverá resquícios, haverá cortes, haverá gritos, haverá memórias....mas há agora a possibilidade de novos mares e novas ilhas e novas praias e novas areias que antes os pés se recusavam em pisar.
Não há mais medo de quedas, todas já foram testadas e nenhuma definitiva.
O velho marinheiro, Deus do mar, de corpo machucado e coração dantesco a despertou de sua dor e a fez renascer Mulher, Musa e Deusa da vida e das palavras.
O mar nunca mais foi o mesmo.
 
Texto e fotografia: (Mariana de Almeida).
 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Não sou.

Descobri que não sou obrigada a nada,
Não me encaixo em nenhum padrão;
Sou avessa a tudo
Sou o que caminha só em busca de multidão
Sou o que delira de tanta imaginação
Sou o que não cabe
Sou o que explode
E depois nunca se recolhe
Sou o avesso do que há
Sou o medo das coisas
Sou o que não se pode ser
Por isso não sou.


(Mariana de Almeida).

 
Nunca estivemos a sós!
Entre nós, sempre estiveram os outros.
Entre os outros,
Nunca nós estivemos!

Vida que segue.


Tudo às claras, exatamente como se nada tivesse acontecido, a vida seguia sua normalidade intolerável e tediosa. Essa é a vida real, o cotidiano que nos devora sonhos e utopias, sem nos dar nada em troca. Talvez a liberdade, depois de muita persistência e luta.
Pelo menos Renata livrara-se daquele relacionamento constrangedor que há anos lhe consumia. Não que Maurício fosse agressivo ou violento, pelo contrário, era um homem pacato demais, lerdo demais, queixoso demais e trabalhador de menos. Estava sempre descontente com tudo: Com o corpo, com os negócios, com os preços do mercado, com os parentes, com a casa velha e claro, sempre queixando-se de tudo na cabeça de Renata. Ela que fingia lhe ouvir enquanto silenciosamente era tele transportada para outros mundos cheios de magia, encantos, romantismo, atitudes e alegrias bem longe dali. Sim, Renata era professora, tinha instrução, gostava de ler livros de diversos assuntos, tinha desejos de viajar e uma sede de cultura invejável, pesquisava sobre diversos países e hábitos de vida, seus principais artistas e políticos, mas não tinha com quem conversar em casa. Maurício não queria nem saber e achava tudo perda de tempo enquanto os filhos estavam sempre ocupados demais com seus videogames e celulares. Maurício e Renata dividiam assuntos triviais do maçante dia dia: "O que você prefere para o jantar?", "Abasteceu o carro?", "Pagou a conta de luz?", "Foi na escola do Pedro Henrique?"... essas coisas.
Mas na hora de dormir Maurício despertava de fato e estava sempre disposto para fazer sexo enquanto Renata não tinha mais interesse algum, ela tinha que fechar os olhos com força e imaginar que estava com o Rodrigo Lombardi, Leonardo DiCaprio, Bono Vox, até com o Paul Stanley ela se imaginou na cama. Apesar de não ter mais nenhuma atração física pelo marido que estava gordo e careca, ela não queria magoá-lo jamais e por isso cedia todas as vezes que ele lhe assediava. Mas uma hora não deu mais para ceder, pois até o cheiro dele começou a incomodar terrivelmente. Não adiantava mudar nem a marca de sabonete, pois quanto mais suava, pior ficava e era um suor azedo que vinha de sua nuca, cabeça e pescoço e exalava enquanto ele a penetrava e dizia obscenidades com a intenção de excitá-la. Um dia ele pediu para ela chupar seu pescoço e aí não teve jeito, foi a gota d'agua. Ela gritou: "Basta! Chega! Nunca mais eu quero trepar com você!". E o pobre sem entender nada lhe perguntou o porquê, então, sem papas na língua, Renata gritou em alto e bom som: "Você fede! Você fede azedo! Pior ainda nos dias de calor, misericórdia homem!".
Um abismo silencioso se fez entre os dois para sempre, exceto no dia da audiência em que Renata e Maurício assinaram o divórcio. Ela estava radiante, dormia bem como nunca em sua cama nova! E ele, visivelmente mais magro, bem vestido e muito cheiroso, cheiro de perfume importado, coisa fina mesmo. Assinaram os papéis, deram-se as mãos e cada um seguiu sua nova vida, cada qual com suas expectativas.
Ele ainda não se conformava como um simples problema de suor podia ter feito ela simplesmente desistir de tudo. Já ela, não sabia porque demorou tanto para dizer a ele que não sentia mais nada e o pouco que sentia, era o enjoo que vinha da sua nunca toda vez que se encostavam.
Vida que segue, amores que vêm, amores que vão.
Tempos líquidos é o que temos para hoje, Tim Tim!
 
(Mariana de Almeida)
 
 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Frio.

Aquela indiferença voltara, aquele frio gélido das manhãs de inverno em que nada aquece, aquela distância muda, aquela noite escura.... Ela conhecia bem esses dias, a morte é uma dose amarga demais para se tragar e não há quem trague por nós. Não há o que ressuscitar... morreu antes de fincar os pés no chão, morreu antes de enterrar a semente que prometia árvores e frutos, morreu antes da água alimentar, morreu antes da poesia vingar e da morte se fez profundo silêncio. Não alimento o luto, choro a despedida sem adeus apenas.
Nossos relógios correm em sentidos opostos, nossos ponteiros não se cruzam e nossa hora já foi. Somos o passado do que nunca houve. Somos a lembrança da promessa de futuro, somos a saudade de um gozo profundo o qual somente verdadeiros amantes puderam provar.
Somos o que seria se pudéssemos ter sido, mas não pudemos. Somos o que da vida fomos feitos, nem alegres nem tristes, gérmen de trigo e promessa de pão, missionários da poesia na Terra do não.
 
(Mariana de Almeida)
 
Imagem: Ricardo Laf.
 
 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Lirismo do poeta.

Eu errei no passo
Eu errei na linha
Eu errei na rima
Eu errei na medida

Coloquei no pacote o que não mais cabia
Coloquei na receita mais farinha que pedia
Coloquei no destino mais histórias que podia
Coloquei na poesia mais letras que melodia;

Eu errei o cenário
Eu errei o trato
Eu errei o prato
Eu errei o calendário

Coloquei o amor para repousar de dia
Coloquei a dor para irromper de noite
Coloquei o sonho num porta joia de ouro
Coloquei a poesia para, na vida, fazer sentido;

Sonhos, cores
Amores, dores
Sabor, dissabores
Poemas, flores...

Na bagagem do poeta
Cabe mais versos do que ele pode carregar;
Nas rimas do poeta
Cabe mais dor do que ele pode imaginar.

(Mariana de Almeida)


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Eternidade.

A partir de hoje, declaro:

Todos os meus versos de amor

Serão dedicados a ti

Somente a ti, meu adorado amor

 

A partir de hoje, declaro:

Todos nossos poemas serão de verão

O inverno não mais nos atingirá

Pois o nosso sol jamais cessará

 

Antes de ti, meu amor

Os dias eram longos e cheios de metafísica

Depois de ti, meu amor

Os dias são curtos e cheios de incêndios

 

Depois de te encontrar e te amar

Eu fui feliz como jamais antes

Ter você, meu bem, é eternidade

Pois não temo mais a morte!

 
(Mariana de Almeida)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Ciúmes.

Estávamos doentes de amor
Disse então, com olhos sacanas,
Que lhe faria um strip-tease
Ele arregalou os olhos
Não disse nem uma palavra...
Disse que dançaria nua para ele
E que ele somente assistiria
Quieto, sem se mexer...
Então uma lágrima escorreu
Da sua face doce
Perguntei o que foi?
Ele apenas disse que doeu demais
Por um segundo sequer
Me imaginar dançando assim
Em algum dia do passado
Para um outro alguém.

O amor dói.

(Mariana de Almeida).


Sobre o amor.

Não se ama o que não se admira, o que não nos motiva, o que não nos move, o que não nos emociona e nem o que nos paralisa, estagna e enguiça no mesmo lugar.
O amor é poder! Poder de transformar, de melhorar, de encorajar, de lutar, de vencer, de guerrear e de fazer acontecer!
Pedras no caminho? Sim, são muitas! Medos, receios, contratempos, falsos amigos, invejosos, família, política, sistema, grana.... É preciso muita sanidade mental para enfrentar com sabedoria e destreza toda essa correnteza contra nós, é preciso saber nadar contra a maré sem se deixar afogar por ela, é preciso treino, fôlego, pausas, choros, café, solidão e colo.
Cada um de nós traz bagagens pesadas e difíceis demais para carregar e é preciso muita coragem ao abri-las para o outro ver o que há dentro delas. Nem sempre se admira o que carregamos arduamente em nossas bagagens, algumas cheiram mal, outras são carregadas de pedras e outras vazias demais. Mas dividi-las com quem se ama e está disposto a nos ajudar, pode ser, no mínimo, acolhedor e reconfortante.
Amar não é somente sentir febre e paixão pela companhia e pele da outra pessoa, é preciso pisar descalço em seus solos vulneráveis, ser cúmplice para semear possíveis frutos dessa comunhão que só germina com afetos regados a respeito, carinho e pedidos de desculpas, se preciso for.
No amor não há certo e errado, há diálogo e evolução, há respeito e amizade, há desejo e paixão e há silêncio e retidão. Há os dias de sol e os dias nublados, há noites de lua cheia e noites escuras, e ainda há as noites com sol.
O amor é isso tudo, somado a dor, contas a pagar, boletos vencidos, filho doente, cachorro endiabrado, cama boa mas colchão ruim, pizza fria, bolo quente, café quente, chá gelado, chocolate branco e dark num só paladar chamado Vida.

(Mariana de Almeida)

 

Solidão.

Rouba-me tudo
Rouba-me o nada que possuo
Rouba meu pouco juízo
Rouba minha insensatez
Rouba meu desejo de justiça
Rouba meu livro do Neruda
Rouba meu disco favorito
Rouba minha paz;
Só não rouba minha solidão
Minha solidão já tem dono
Por um feitiço do tempo
Ela foi aprisionada em mim
No calabouço onde somente
A dor, minha rainha absoluta
Libertaria minha solidão
Num rompante de compaixão
Que não há nem nunca haverá
Clemencias em vão...
Misericórdia ao coração.

(Mariana de Almeida)




Depois do amor.

Detesto ser invadida
Molestada
Corrompida
Negociada
Avaliada
Comparada
Elogiada demais
Elogiada de menos
Ser confundida
Por um par de coxas
Por uma transa boa
Por palavras à toa...

Cama não é amor
É sedução
É vaidade
É gula
É pecado
São os desejos da carne
Brincando com a alma
Lembrando que depois do amor
Tudo dói para sempre.

(Mariana de Almeida)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Desnecessário.

Desnecessário dizer que a escuridão assusta
Que homem mente
Que homem mata
E que somente o mais fraco paga a pena;

Desnecessário dizer que o céu já é cinza
Que a tarde arde
Que a noite tarda
E que somente alguns ainda teimam e amam;

Desnecessário dizer que nunca te esqueci
Que os dias continuam iguais
Que a vida não vale um jornal
E que sei que algum dia ainda te verei;

Mesmo se ao longe
Você sorrindo, talvez juntos dos seus
Só para me mostrar que tudo valeu
E que nem todas as cores
Se apagam às dores do adeus.

(Mariana de Almeida).

Sobre o amor.

O amor, esse eterno desejo de encontro...
Essa procura desesperada, esse faro faminto que busca o encontro de almas na pele do amor,
Essa bússola infame que indica rotas obscuras, altera caminhos, encontra dor onde prometia-se o amor,
Desgoverna corações e vidas... encontra solidão e prantos ao fim de uma noite perdida...
O sol renasce, iluminando novo dia, aquecendo o solo de devastados corações, alimentando raizes e fazendo brotar enfim a flor.
Um olhar, um sorriso escondido revela-se e o coração debaixo de muralhas de infinitas de pedras, contrai-se e bate mais uma vez prometendo vida onde antes era vastidão espacial, noites sem satélites agora acenderam-se de estrelas para nós.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

A tua espera.

A tua espera me é sempre aflitante;
É sempre como se fosse a primeira vez
É sempre como aquela primeira viagem
É sempre como tocar os pés de manhã
É sempre como me sinto ao rever o mar...
E tocar suas águas, que embora agitadas,
Sempre me trazem paz.


terça-feira, 23 de maio de 2017

Encontro poético:

Músicas, livros e vinhos
Partidos, ídolos e socialismo
Cama, corpos e delícias
Bocas, palavras e sentidos
Palavras escritas com a língua
Na pele que grita poesia!



quarta-feira, 17 de maio de 2017

Gosto.

Eu gosto do perigo, eu me arrisco

Um palpite, um poema ou uma taça de vinho

Que pode ser a minha fortuna

Ou a minha ruína;

Ah, eu invisto mesmo para perder

O que se guarda se morre sem nascer

Eu aposto sob a luz da lua

E faço vingar sob a pele

O único sentido dessa vida.


(Mariana de Almeida).




Dos homens:


De menina que fui
Um dia acreditei nos homens;
De moça que fui
Um dia desconfiei dos homens;
De mulher que fui
Um dia odiei os homens;
De senhora que fui
Um dia perdoei os homens;
De idosa que fui
Um dia desisti dos homens...
Sua humanidade é perversa
Os homens acumulam coisas
E desprezam pessoas;
Os homens vendem suas mentiras
A preço de sangue, suor e dor
Para outros homens comprarem
A preço de barganha;
Um dia desisti dos homens
Quando vi a criança suja no asfalto
Quando vi a mulher no semáforo descalça
Quando vi o jovem fumando pedras em lata
Quando vi o homem mirando o fuzil
Quando vi o homem matar outro homem
Quando morreu em frente ao hipermercado central, um homem, de fome.

(Mariana de Almeida)



terça-feira, 9 de maio de 2017

Belchior.

Deitada só na cama
Fones de ouvido e Belchior
Pensando na vida
E na falta de sentido dela.


Saber ser grão de areia
Nesse deserto de mundo
Desejo urgente de ser feliz
Antes do fim.


Alucinação que bate na gente
Quando ouvimos o coração.


(Mariana de Almeida).



Nós.

Retalhos de jornais
Mesmo se juntados
Não saberiam de nós
Atravessamos estradas,
Mares e montanhas
Enganamos a polícia
Civil, militar e federal
Ultrapassamos velocidades
Derrubamos placas
Não ouvimos conselhos
Não olhamos para trás
Futuro nos fisgou
Atropelando o presente
E enterrando passados.
(Mariana de Almeida).

 

Menina.

Não espere por nada não;
Não espere pelo que há de esperar;
Não espere a colheita, menina
Daquilo que só se colhe no coração
Sem saber exatamente como foi semeado
O amor fertiliza
Os mais áridos corações.



terça-feira, 2 de maio de 2017

Amor. (Para Larissa Lima)

Nunca tive nada para chamar de meu

Os amores vêm, respiram, transpiram e se vão...

Os filhos, tão nossos, um dia simplesmente se levantam do sofá e se vão

e eu desejo que o voo seja lindo, leve e libertador

Sim, libertador, livre de qualquer dor ou culpa

Não me deves nada, meu anjo, nada!

Te amei mais que pude e menos que desejei

Pois te amar nunca é o suficiente, sempre necessito mais

Casa, carros, bens, aquela pizza a noite

Tudo isso vem e vai, nada nos pertence

A Terra que hoje pisamos não é nossa

Nem nunca foi... Nunca tivemos chão

Nossos pés descalços preferem alçar voos

Que fincar as lanças da prisão na terra

Te amo desesperadamente...

Amor de carne, osso e alma

Uma vida é tão pouco para nós

Aprendemos tanto... tudo aquilo que não está a venda

Em nenhuma prateleira do mundo

Nossa carne resistirá enquanto o coração pulsar

Enquanto o sangue bombear

Enquanto a pele se arrepiar

Enquanto o amor clamar por justiça!

Nunca tive nada para chamar de meu

Nunca quis ferir a Terra nem o Ar

Nunca quis tirar o seu para chamar de meu

Nunca me vendi para o vil metal

Toda posse é agressão

Liberdade é o verdadeiro amor.

(Mariana de Almeida)





sábado, 29 de abril de 2017

O texto perfeito insiste e nunca sai, ele incita, excita, transborda e brocha...
Perfeito caso de amor que termina em ódio.
As palavras fervem nesse caldeirão de ideias desconexas, um abismo de medo e futuro, um desejo insano de justiça que nunca houve nem nunca haverá.
Ser poeta é ver o homem marchar em busca do amor, mas sabendo que a marcha oprime e o sonho agoniza em praça pública entre homens e canhões.

(Mariana de Almeida).

Greve Geral.

A vida
Ora aguda, ora grave
As vezes faz greve
Ora de fome, ora de sexo
Ora de sangue
Se preciso for!
Lute pela vida
Que merece ser vivida!

(Mariana de Almeida).

Nosso lembrança do passado
Morreu ao sonho do futuro;
Nosso jardim floresceu
Em meio a secura do sertão;
Nosso coração bateu de novo
Desfibrilador do amor
Quem nos ressuscitou.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Mariana.

As vezes sou teu mar... as vezes sou teu chão
As vezes sou tua bússola... as vezes perdição
As vezes selvagem como mata fechada
As vezes mansa como um final de tarde
As vezes lua cheia e maré alta
Que invade e tudo arrasta
As vezes só areia branca que acariciam os pés
As vezes molhada como uma canção de amor
Gotas de notas musicais que exalam da paixão
As vezes um enxame de vagalumes repleta de luz
As vezes escuridão da noite e solidão
As vezes exata como as pontas de uma mandala
As vezes satélite suspenso no céu
As vezes mulher que tudo quer...
As vezes menina... as vezes serpente...
As vezes vinho e sexo... as vezes café e colo...
As vezes silêncio... as vezes arrastão...
As vezes sozinha... as vezes segurando a sua mão...
As vezes beijos... Outras vezes também...
As vezes Mariana... outra vezes O Mar e Ana...
Sou o teu melhor poema... sou o teu amor.


(Mariana de Almeida e Ricardo Ruiz).

Escravo.

"Que eu saiba a vida é minha!
  Que eu saiba a casa é minha!
  Que eu saiba o carro é meu!
  Que eu saiba eu sou livre!
  Que eu saiba eu faço o que quiser!...
  Que eu saiba eu sei de tudo!
  Que eu saiba eu sou o máximo!
  Que eu saiba eu sou feliz!"



- Sorry, perdeu Man!
  Que eu saiba tu não tá ligado
  Que não passas de mais um escravo!


(Mariana de Almeida).

Aline.

Quem a via desfilando por aí, estereótipo perfeito de menina feliz, bonitinha e arrumadinha como diziam, cabelos e olhos cor de mel e uma íris que irradiava cores e dores sem nomes... Essa gente do mundo que adora perguntas idiotas do tipo: "Mas por que você está triste?" Ou "Por que uma moça tão bonita como você está tão tristinha?". Esse tipo de pergunta que acelera e muito o desejo de morrer definitivamentea, pois, a humanidade é uma filha da puta cínica e canalha e tudo o que se esperar dela resultará em sofrimento. Então... faça você mesmo o seu mundo e suas regras ou morra!
Aline ainda não sabia reagir, a sua educação castradora, religiosa e machista a ensinaram calar diante de todo tipo de sofrimento. Ela era capaz de fazer dietas mirabolantes e ficar dias sem comer, adorava se desafiar perante o espelho e quando comia algo prazeiroso demais corria ao banheiro e metia dois dedos no fundo da garganta e vomitava até sua bílis, o ritual nojento e sofrido lhe dava algum prazer por ter vencido e vencer é bom, vencer uma competição contra si mesmo é orgasmático, é como uma trepada fenomenal, é como uma carreira de coca da boa.
Aline era bulímica, anêmica, depressiva e mais... se auto mutilava! Chegava a criar desenhos na sua pele com os cortes que fazia. Tudo começou quando se cortou com a gilete no banho enquanto depilava sua perna longa e magra, o sangue jorrava pelo piso do box e escorria pelo ralo, foi uma dor agradável para ela e assim começaram os primeiros episódios de cortes. Ela preferia assim, passava horas trancada no banheiro se machucando enquanto as outras garotas da sua idade estavam fazendo compras em shoppings centers, namorando, ouvindo bandas ou fazedo qualquer outra coisa mais interessante. Aline se odiava, se achava burra e esquisita demais para ser uma garota normal e abrir a porta do quarto e da casa para finalmente sair em busca da sua felicidade.
Aline não esquecia o episódio em que foi estuprada pelo primo aos oito anos de idade e mais de uma vez... A família ao descobrir preferiu evitar um escândalo, então mudaram-se de cidade para se afastar do criminoso e fazer com que Aline esquecesse o inesquecível.
Com os anos a família parecia ter apagado da memória o estupro da Aline, mas ela não esqueceu nem um só dia o horror vivido, a lembrança da cara, dos dentes amarelados e dos olhos insanos do primo que a deflorou sem pena... Quanto mais ela chorava, mais ele gostava.
Psicopatas estão aí aos montes, hoje o primo é um advogado formado e bem sucedido. Muito bem vestido, carro importado, bons contatos e muitas mulheres atrás dele, mas o que ninguém sabe é que ele é um pervertido, um pedófilo e um excelente ator perante a sociedade.
Os pais de Aline não sabiam mais o que fazer para ela ter uma vida normal, levaram ao psicólogo milhares de vezes, colocaram para fazer aula de ballet, violão, natação, canto, idiomas e nada, Aline desistia de tudo, odiava a si mesmo e aos demais. Até que um dia brincando de desenhar com os cortes na perna, acabou perfurando uma veia safena e perdeu muito sangue.
Aline foi levada às pressas para o pronto socorro mais próximo e de lá para o hospital psiquiátrico onde vive há mais de um ano e sem nenhuma previsão de alta.
Aline morreu aos oito anos de idade quando foi violentada e ameaçada por alguém da sua própria família, o que sobrou foi um corpo pesado demais para se carregar. Hoje, aos 17 anos o corpo ainda respira, enquanto o primo desfila o homem de bem e de sucesso que se tornou, homem de prestígio em nossa sociedade.


(Mariana de Almeida).


#Estupro No Brasil acontece um estupro a casa onze minutos!!!! (Fonte: Carta Capital).

sexta-feira, 31 de março de 2017

Tela.

Quando você descobre que é a tela de alguém...
Quando seus olhos estão em tantos lugares desse mundo, mas sempre olhando para o mesmo horizonte...
Utopia sem fim, essa da gente querer ser feliz.

(Mariana de Almeida).




Dói.



Dói o último trago
Dói o último silêncio
Dói o último adeus...
Que anuncia seu fim;
Dói enterrar os vivos
Adubar a terra com o que se foi;
Dói a chuva que molha
Para germinar o que virá;
Como dói o último pôr do sol
Antes da escuridão da noite
Para de novo, o novo emergir.



( Poema: Mariana de Almeida).

domingo, 26 de março de 2017

Luta de luto.



Viva o povo brasileiro! 
Darcy Ribeiro... 
A Pedagogia do Oprimido
Que nos libertaria
Como Paulo Freire queria
As veias abertas da América Latina 
Ainda sangram por justiça 
Nem Galeano
Nem Sérgio Buarque de Hollanda
Saberia dos nossos tristes enganos
Ignorância e fome matam o homem
Nesse solo de almas secas
Que governam nosso país 
Em troca de algum dinheiro 
Que não compra a beleza
A dor não se terceiriza
A luta está de luto!


quinta-feira, 16 de março de 2017

Vida.

Eu queria a escolha certa
Eu queria nunca mais errar
Eu queria amar uma pessoa
Decente socialmente
Eu queria a ordem ao caos
Eu queria a casa própria
Ao aluguel incerto de cada mês
Eu queria a dispensa cheia
Ao perambular por restaurantes
Eu queria os sucos detox
O corpo sarado
A vida saudável
Aos bares cheios de dor
Eu queria um cartão Gold Plus
Ao viver devendo minha vida ao banco
Eu queria a tranquilidade dos dias programados
Ao tsunami que são meus dias inesperados
Eu queria uma vida de comercial de margarina
Todos sorrindo juntos no café da manhã
O sol calmo lá fora
A casa limpa
As crianças felizes
Nossos dias de perfeito tédio.
Mas o que eu tenho, 24h por dia,
É o relógio atrasado me chamando
A vida uivando lá fora
E os lençóis da cama desarrumados
Gozando por nós.


(Mariana de Almeida).

quarta-feira, 8 de março de 2017

A culpa é minha!


Desculpa-me essa cara
Desculpa-me essas marcas
Ele estava nervoso,
Ele estava num dia ruim,
Ele estava sob muita pressão,
Ele estava preocupado,
Ele estava com dívidas,
Eles estava alcoolizado,
Ele estava cheirado,
Ele estava irritado,
Ele estava mal humorado,
Ele estava muito cansado,
Ele estava com problemas,
Ele estava transtornado,
Ele estava infeliz...
Me desculpe,
Pensando bem
Acho que eu caí da escada.
Ele não fez nada não.
A culpa é sempre minha.



terça-feira, 7 de março de 2017

Mataram. ( #Poesiapraguerra )


Mataram Maria no ponto de ônibus

Mataram Clarice indo para a missa

Mataram Cristina na porta da escola

Mataram Lourdes saindo do trabalho

Mataram Clara naquele beco escuro

Mataram Sonia na esquina de casa

Mataram Ana depois de a estuprarem

Mataram Cinthia por pura vingança

Mataram uma mãe

Mataram uma filha

Mataram uma amiga

Mataram uma mulher

Mataram uma família

Os motivos?

São sempre os mesmos...

João, Pedro, Antônio, Carlos, Moacyr e outros

Não aceitaram o fim dos seus relacionamentos

Abusivos e repletos de violência

O qual eles chamavam de amor

João ainda justificou que foi preciso lavar sua honra,

Pedro disse que ela mereceu,

Antônio chamou a mãe dos seus seis filhos de puta,

Carlos disse que são todas vagabundas,

E Moacyr jura que mulher direita só existiu uma

Hoje respondem por processos

Apenas processos para explicarem

E finalmente provarem porque

Tiveram razão de matar tantas mulheres

Do nosso pobre país amaldiçoado

Pela pobreza, ignorância e violência

Onde exterminam mulheres e meninas

Vítimas dessa epidemia maldita

Conhecida como machismo,

Misoginia e Feminicídio.


 (Mariana de Almeida)

Imagem: Protesto em Florianópolis-SC contra o assassinato de mulheres.


domingo, 5 de março de 2017

Gira Sol.

Os girassóis, assim como nós, também morrem.
Os girassóis vivem juntos nos campos
Seguem a direção do sol
Entristecem na escuridão
E secam de solidão e frio
Nas noites sem você.
Amarelo luz do sol
Amarelo girassol
Que floresce os campos
Mais áridos da alma
Amarelo
Amar é elo.
 
(Mariana de Almeida)
(Quatro girassóis cortados, 1887. Van Gogh.)


Cenas do cotidiano.


Nos adicionamos
Através de amigos em comum
Trocávamos mensagens in box
Cinco minutos de papo
E foram o suficiente
Para irmos direto ao ponto
Química virtual total
Quase nos comemos ali mesmo
Pela tela do computador
Entre palavras mal digitadas
E desejos confessados
Delirávamos e às vezes trocávamos canções
Nosso bom dia era assim
Eu mandava um Led para ele
E ele respondia com Billie Holliday.
Então marcamos um chopp
Sexta-feira a noite
Foram três chopes, algumas risadas
E sexo de primeira por toda a madrugada
Falamos poucos e fizemos muito
O dia amanheceu e nos separamos
Sem dor, a noite foi boa, simples assim.
Agora, depois de mais de um ano
Nos reencontramos na fila do supermercado
Ele sorriu e nos abraçamos forte
Perguntou como vai a minha vida
Eu respondi daquele jeito de sempre
"Um dia de cada vez..."
Ele me contou que está com câncer
Tratando e resistindo
Perguntei se podia ajudar em alguma coisa
Ele disse que sim
Que precisava as vezes ter alguém para conversar
Trocamos de novo telefones
E agora conversamos sobre tudo
Inclusive sobre aquela noite louca
Em que nos entregamos
Sem esperar nada em troca
Sem jamais imaginar o que seria
do amanhã
E rimos, rimos de tudo
As vezes queremos chorar, é fato
A vida está fudida para todo mundo
Ele disse que agora
Tem um motivo a mais para se curar
E que tudo vale a pena
Nascer, morrer e renascer
Quantas vezes preciso for.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A paixão.

Nada maltrata mais o coração da gente
Que a paixão!
Essa serpente que queima por dentro
Invade o pensamento, alucina
Rumo ao labirinto, a um passo do abismo
Atiça os sabores proibidos, insinua e deseja
Implora e mendiga como cão de rua por comida
Transtorna nossa mente rumo ao paraíso perdido
A paixão!
Rasga a roupa e desobedece aos sentidos
Alucina e agoniza como escravo dessa lascívia
Nada dói mais que o amor a a arte
Submetidos aos desejos da paixão
Essa louca serpente que desgoverna a razão
E altera todo o itinerário do coração.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Natália.


   A história começou exatamente assim: Natália navegava na internet sábado à noite enquanto ouvia Olívia Ong e degustava seu vinho tinto sabático.
As noites de sábado de tempos atrás costumavam ser mais animadas, geralmente fora de casa e rodeada de amigos, mas ultimamente ela sentia-se bem assim, em casa, bebendo, ouvindo música e lendo algum livro, quando vez ou outra se perguntava se algum dia amaria novamente. Não queria se preocupar com isso, afirmava com todas as letras que era possível sim ser feliz sozinha, se aparecesse alguém seria para dividir e somar, jamais para subtrair e muito menos para multiplicar, pois Nati já era mãe e não queria mais contribuir com a dor das futuras gerações. Na verdade, Nati era bem pessimista quanto ao futuro da humanidade, sabia que o ser humano era um animal autodestrutivo, egoísta, perverso, ganancioso e cruel. Suas experiências com o outro resultaram nessas impressões difíceis de serem moldadas, mas por vezes depois de um pouco de vinho e boa música, a ideia de amar novamente rondava sua cabeça. Nati se espreguiçava no sofá, colocava o livro aberto sobre os seios e afundava sua cabeça nas almofadas enquanto flertava com a possibilidade de se apaixonar.
   Sentiu seu celular vibrar, era uma solicitação de amizade: Nathan deseja ser seu amigo: 05 amigos em comum. Nati simplesmente aceitou, um a mais ou um a menos não faria diferença na sua vida social virtual agitadíssima.
   Ele era fotógrafo, aparentava uns 45 anos, cabelos brancos, olhos pretos, um pouco de barba grisalha e dentes irregulares. O conjunto a agradava, aquele rosto exalava alguma paz e harmonia, ficou olhando sua foto por alguns segundos quando veio o primeiro bate papo, ficaram horas conversando, o papo fluiu e a atração idem, acabou a garrafa de vinho, ele fumava um baseado do outro lado da tela, trocaram histórias e músicas, discutiram poesia e fotografia, riram e se despediram com alegria. Pena não morarem na mesma cidade, caso contrário, se encontrariam naquele momento mesmo. Paixão boa é a que a gente faz na hora e não espera a hora certa para fazer. Uma pena, cada um de uma cidade e a vida real para dificultar qualquer contato e brochar tantos sonhos.
   A vida real é esse pacote de frustrações que carregamos, esse monte de boletos vencidos sem previsão para serem pagos, filho doente, cachorro no sofá, carro enguiçado, família, ex-marido, trabalho entre tantas coisas mais.
   Uma sensação angustiante no peito, sabia que devia se dar o direito de simplesmente viver sem a menor obrigação de fazer dar certo ou errado, simplesmente viver cada momento sem tanta culpa.
   Nati foi criada por uma família patriarcal e machista, todos acontecimentos e decisões dependiam do aval crítico e extremamente machista do pai, ele fora castrador a vida toda, exercia sua supremacia contra as mulheres da família que dele dependiam economicamente. Então, muitas vezes era preciso mentir, esconder, ocultar, modificar a realidade para ser aprovada pelo pai, homem que exercia fascínio e asco ao mesmo tempo, eis um dos primeiros problemas de Nati…daí em diante as coisas só pioraram.
   Ironicamente Nati se casou com um homem também machista e sexista que a torturava psicologicamente atraindo-lhe a ideia de suicídio. Mas em tempo, Nati buscou ajuda psiquiátrica e entendeu que não estava louca e sim estava sendo vítima de muitos abusos há muito tempo. Isso mesmo, não era ela a doente que não se encaixava na família nem no casamento, era a sociedade que não a representava, graças a deus! Nati entendeu isso e pediu o divórcio, mesmo sendo alvo de muitas críticas e punições do tipo: “Quem mandou escolher marido errado? ”. As mulheres simplesmente aceitam esse tipo de punição porque ainda estamos na era da Inquisição. A luta feminista está apenas engatinhando, é preciso mais mulheres conscientes e engajadas para conscientizar outras minas, outras manas, outras mulheres e senhoras.
   A libertação da consciência, do livre arbítrio, da livre escolha e do ir e vir se faziam urgentes. Mas e a prisão econômica? Essa era ainda uma barreira difícil de ser derrubada, pois as mulheres trabalham muito, no trabalho e cuidando de sua família, mas continuam ganhando menos que os homens.
   Nati ganhava pouco, mal dava para pagar as contas do apartamento, já tinha aberto mão de carro e gastos supérfluos, o que ela não abria a mão era do apartamento e dos estudos da filha. Infelizmente o ex marido nunca aceitou a separação e como vingança e punição não pagava a pensão alimentícia em dia, não parava em nenhum emprego, não assumia nenhuma responsabilidade e ainda atrapalhava a vida da mãe e filha. Foram muitas idas e vindas aos advogados, sessões com o juiz da vara familiar e civil, muitos acordos não cumpridos, muita dor de cabeça e pouco resultado. Dizem que essa lei funciona no Brasil, mas Nati é a prova viva que não funciona nada! O homem paga a pensão alimentícia ao filho quanto e quando quer, as leis protegem os homens e a mulher que dê o seu jeitinho para não faltar o pão na mesa. Nati recorria aos pais, apesar da humilhação, mas por um filho uma mãe faz o que é preciso, engole muitos sapos, mas nunca os digere, nunca!
   Uma semana depois Nati e Nathan se falavam diariamente pelo celular, falavam sobre amor, sonhos, viagens e desejos. Nati não queria entrar em detalhes sobre sua pobre vida sem emoções. As vezes pensava em bloqueá-lo e esquecer de tudo e seguir com sua rotina de sempre, esperando pelas noites de sábado para se dar um vinho de presente para relaxar enquanto ouve músicas que a fazem sonhar com outra vida.
   Nathan já estava fazendo planos, queria que ela fosse encontra-lo para irem juntos a um show, depois bar e depois passar o final de semana com ele. Domingo a noite ela voltaria para casa.
   Resta saber se Nati vai encarar a aventura amorosa, com quem vai deixar a filha, quem cuidará do cachorro e da casa e sem precisar se justificar ou argumentar com seus pais. Eis o seu grande dilema. Arriscar ou não?
















(Mariana de Almeida).