sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Se minha pele falasse.

Ah, se minha pele falasse
Quanta poesia dedilharia
Quanto sentido faria
Quantos jardins floriria
Quantos invernos aqueceria...
Quanta fome mataria
Quanta vida renasceria;


Ah, se minha pele falasse
O bem que faria ao tocar a sua
A paixão que eclodiria sob nossas vistas
O amor que sepultado antes, ressucitaria
E nos brindaria com o melhor da vida;

Ah, se minha pele falasse
Se minha pele gritasse
Se minha pele ousasse
Gritar pelo seu nome
No meio da rua em que me encontro
Talvez você ouvisse
Talvez você viesse...

(Mariana de Almeida).
 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Elevação.

Palavra;
Poesia;
Mantra;
Sentido;
Soneto;
Poema;
Terceto;
Quarteto;
Cantiga;
Gíria;
Letra;
Verso;
Rima;
Hino;
Refrão;
Palavrão;
Oração;
Ode;
Expressão;
Composição;
Sermão;
Declamação;
Declaração;
Intimação;
Hino;
Exaltação;
Som;
Alucinação;
Inefável
Som
Do
Coração.

(Mariana de Almeida).

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Roda gigante.

É sempre a mesma roda gigante
Que carrega e gira a nossa história;

É sempre na mesma volta
Que a roda enguiça e range;
E a história triste insiste
E reedita os mesmos velhos fatos;

É sempre a mesma luta
Pela pouca liberdade
É sempre o mesmo mal
Que fabrica o ódio em doses matinais
Impressos nos jornais;

E sempre é o mesmo ódio
Que fabrica armas e venenos
Para destruirem todos os lírios
Do nosso pequeno quintal;

É sempre a mesma noite escura
Que nos enche o sono de horror
É um céu sem estrelas
É um chão sem flores;

E a roda gigante do mundo
Embora enguiçada, velha e louca
Continua girando, girando
Enquanto range, range...

(Mariana de Almeida).
 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Gostos.

Gosto de poesia
e tudo o que ela grita;
Gosto de números e rimas
e tudo o que combina;
Gosto de belezas ocultas
Detesto belezas óbvias;
Gosto de delicadeza e bom senso
Odeio estupidez e mau gosto;
Inteligência me fascina e excita
Meu cérebro é meu corpo
E com ele faço uma festa;
Algumas burrices são imperdoáveis
Outras, apenas, brochantes para sempre;
Sou assim desde menina
Amo de uma vez e não para sempre
Pra sempre é sempre muito tempo
Para perder sem valer a pena.


Sozinho.

É que...
Entre um olhar e outro
Entre um café e outro
Entre um cigarro e outro
Entre um livro e outro...
Entre um porre e outro
Entre uma noite e outra
Entre uma porta e outra
Entre uma trepada e outra
Entre uma risada e outra
Entre um silêncio e outro
É sempre a mesma solidão...
É que entre a gente e o mundo
O mundo sempre engole a gente
E dentro da gente só há a gente mesmo
Sozinho, sozinho desde dentro do útero
Até o fim do mundo.


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Meu bem.

Meu bem,
Aceite meus pecados
Aceite minha dor
Aceite o meu melhor;

Não, não meu bem
Não tente me salvar
Não tente me curar
Não tente me roubar;

Pois minha dor foi lapidada
Como o mais caro diamante
Meus pecados todos
Me trouxeram até você;

Não estrague tudo agora
Não se corrompa
Não se perca do meu melhor
Juntos, seremos a vida;

Aquela vida,
Pura e verdadeira
Sem mentiras nem traição
Só amor e libertação.

(Mariana de Almeida).

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Há muito terminei com a mulher que um dia eu fui;
Às vezes, distraidamente, a encontro em um espelho qualquer;
Nos comprimentamos formalmente
Ela segue para o passado
Eu sonho para o futuro.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Abusos.

   Quando sofremos um abuso, nunca mais podemos viver como antes desse abuso! Não podemos esquecer nem fingir que não aconteceu, arduamente temos que aprender a sobreviver a ele e conviver com essa dor da forma menos trágica possível.
   Mas como? Eis a questão! Não depende de nós os sintomas que sentimos no corpo, a ansiedade generalizada, o suor gelado nas mãos no meio de uma tarde quente, a desordem mental de alguns segundos que nos deixam tonta, a vontade de sumir da face da Terra. O primeiro pensamento é: "Calma! Respira fundo, conta até dez, conta de novo, respira, segura, toma um copo de água e espera. Chora então, porra! Chora de uma vez, sente o ódio, vomita toda essa lembrança... toma mais água e se acalma". É assim, infelizmente, o caos nos visita sem aviso prévio. Um dia eu estava na fila do cinema e pá! Veio aquele horror! Outra vez, na porta da escola esperando minha filha. Outra enquanto atendia um cliente que era um fofo, um doce de pessoa, mas é involuntário, está tudo aparentemente ótimo quando de repente aquele fantasma filho da puta te ataca do nada. Algo foi tirado de mim sem minha autorização, entende? Meu corpo não consentiu, nem minha alma e nem minha moral. Quero vingança, quero uma recompensa por esse assalto, mas não há recompensa nenhuma, eu perdi! Simples assim.
   Você é criança e roubam sua inocência, sua paz e tranquilidade, roubam sua integridade e ninguém é julgado nem condenado por isso. Você nunca mais confia em ninguém e se confiar, será em alguém tão machucado e roubado quanto você. A única coisa boa é que agora vocês poderão se foder juntos, cada um lambendo a ferida do outro e criando um vínculo não tão simples de se desfazer depois.
   Aí você decide buscar ajuda, já é um adulto e não pode mais continuar sentindo aquela dor. E o que acontece? Você descobre que continua sofrendo outros abusos e que não pode fazer nada! Você sofre abuso machista diariamente, abuso do governo, do sistema bancário, do trabalho, da sociedade em geral e inclusive do terapeuta que cobra uma fortuna por 50 minutos de papo. Então você não pode se dar a esse luxo porque você é um fracassado de merda que não pode pagar meio salário mínimo por 50 minutos dialéticos sobre o que pode significar a vida. Então você simplesmente toma drogas legalizadas para se livrar do mal estar. Antidepressivos de manhã, ansiolíticos para deitar, uma bebida para relaxar e sentir-se uma pessoa descolada e adulta. E aí você entrou naquele espiral de abusos sem fim. Você mesmo se abusa para poder cometer outros abusos, porque de alguma forma agora você tá viciado em sofrer abusos, dói e dá prazer ao mesmo tempo.
   E como sair disso? Como renunciar a todo o sistema que alimenta nossa doença? Como recuperar quem eu fui quando eu era integralmente minha? Quando eu conseguirei me divertir novamente sem isso tudo? Quando quebrarei esse ciclo e serei livre? Como mandarei o sistema, o governo, o dinheiro e o terapeuta para a puta que os pariu? Quando pararei de alimentar meu câncer?
   Eu não sei, vou tentando um atalho aqui, outro lá. Escrever sempre ajuda, impossível conter a poesia, então deixo fluir. Tento ser mais saudável, mesmo se a comida e a água já estão envenenadas, tento simplesmente aceitar o que já foi e escolher melhor o que virá, tento estar próxima à minha classe, aos meus semelhantes e busco a doçura em qualquer lugar. 
   Enquanto houver doçura e ternura, ainda há uma possibilidade de humanidade e de esperança de um mundo melhor.
 
(Mariana de Almeida).
 
 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Maternidade.

A maternidade entardeceu-me
O verão quente da juventude
Passou...
Chegou o outono
E seu fim de tarde
A barriga cresceu
Tornou lua cheia
Os seios grandes
Bicos abertos
Esguicham leite
O rosto redondo
Os lábios grandes
E a fúria da luta
A cria chegou
Com promessa de futuro
Com fome de presente
Estava tudo pronto
Meu colo e minhas noites
Nossas mãos e nossos olhos
Não havia o que temer
Depois de tudo, juntas
O mundo é pequeno
Imenso é o nosso amor
De carne, alma, e silêncio
Pequena é a vida
Imenso é o tempo
Sem fim.

(Mariana de Almeida).
 
 
 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Do amor.

Do amor
Conheço todas as cores
Ao imaginar um jardim
Onde só colheria flores;

Da dor
Conheços todas à risca
Ao tentar ressuscitar flores
Me feri aos espinhos todos;

Demorei para entender
Que de flores e amores
Só colhem-se as dores
O resto vira poeira ou poesia.

(Mariana de Almeida).


 

A paixão.

A paixão é um tiro certeiro
Dentro da alma da gente
Desespera o homem
Desgoverna a ordem;

Tiro que não mata
O pobre peito humano
Só fere e sangra
De desejos insanos.

A paixão tortura
Sem piedade
A alma e a carne
Do homem que sente.

(Mariana de Almeida).
 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Medida certa.

Tão triste amar e não saber amar
Tão triste amar e perder-se
Tão triste amar e não bastar!
 
Queria tanto ter aprendido, eu queria
Amar me teria sido útil na vida
E até me feito mais feliz
Amei o que não pude
O que não é possível
O que não é de bom tom!
 
Amei de mais e de menos
Mas nunca amei a dose certa
A dose que me teria triunfado
A dose que me teria honrado
Teria eu então vencido na vida!
 
Ninguém poderia ter zombado de mim
E do amor que não tive
Nem do amor que dei em vão
Ou que não pude ter
Por infinitas razões
Nunca soube qual a dose certa
Do que não tem medida!
A dose que me faltou
Me mata de sede até hoje!
 
 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Do amor.

Amor é quimica
Não é poder
Exceto se o espinho
Vingou
O que era promessa de flor;
A flor resiste
Mesmo se regada a sangue
Onde era promessa de água.


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Cinza.


Das cores vivas que inventei
Apagaram!
Das cores vivas que pintei...
Apagaram!
Das cores vivas que vesti
Apagaram!
Das cores vivas que insisti
Apagaram!
Mandaram apagar e calar!

Nova ordem foi dada
Ao novo tempo
Que se impôs sobre a cidade
Cores vivas à la Frida Kalho
As cores do nosso sangue latino
Por tantos séculos castigado
Foram todas assassinadas.

Mancharam de cinza
Para sempre a memória
Dos novos tempos que chegaram
O cinza dos muros é o cinza
Que a gente não queria
O cinza do mau tempo
O cinza da tristeza
Nunca uma cor traduziu tanto
A dor do nosso tempo.

(Mariana de Almeida)

Imagem: Pintora Mexicana Frida Kahlo.




Trama

Todo mundo mente
Todo mundo engana
Na vida e na cama
Ninguém se dá por contente
Se não muda a trama;

Desde os meninos do parque
Até as mocinhas dos lares
Desde o jornal da manhã
Até a novela do jantar
Todo mundo muda a trama;

Todo mundo mente
Todo mundo engana
A Pesce, a Maria e a Leitão
O William, o Silvio e o Faustão
Eu, você e todo mundo então;

De engano em engano
Tecemos a trama
Cada um com sua artimanha
Para enaltecer o enredo
De nosso ledo desfecho.

(Mariana de Almeida).

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A Deusa.

A Deusa que habita minha pele
Que incendeia minha cabeça
Semeia caminhos com palavras...
Ora cheia de rimas, ora cheia de faltas
Que agita meu sono e alucina meus sonhos
Rouba-me dos dias e me afasta da vida
Planta dores na ilusão de colher flores
Acredita por um segundo na Vida
Que seria justa, não fosse os homens
Essa Deusa que teima, insiste e arde
Está fértil e se encontra em pleno cio
Fecunda palavras e pari poesias
Dizem as profecias, quem em breve,
Terá seu nome revelado em algum livro
Salve arte, Salve a poesia
Vencemos a morte pela literatura!


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Amor à primeira vista:

Foi cegueira imediata
Alucinação
Retinas queimadas;

E um mundo para atravessar
Sem cão guia
Sem retorno
E sem perdão;

Labirinto oculto
Essa nossa paixão
Em que o dia é escuridão
E a noite clara visão.

(Mariana de Almeida).

Cabelos.

Depois da tesoura ter feito estragos,
Repicado todos os cabelos
Com a lâmina do desespero
Desejo de morte e renascimento
Eis que ao sobreviverem
Estão, novamente, crescendo.
 
(Mariana de Almeida).
 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Mãe e filha.

- Mãe, onde você está?
- Oi, minha filha. Eu estou indo para casa.
- Mas por que demora tanto?
- Eu estou no trânsito, na rua, nesse mar de gente e carros esperando o semáforo abrir. E provavelmente quando chegar a minha vez, o semáforo ficará vermelho e novamente eu terei de esperar. É contra minha vontade, eu queria chegar logo para te ver e te abraçar, tirar os sapatos, colocar minha roupa mais simples, te olhar e te sorrir.
- Mas mãe, as vezes você chega e nunca sorri. Já entra em casa fazendo mil perguntas , arrumando mil coisas, reclamando e a última coisa que faz é realmente olhar para mim. Aliás, você olha para me chamar a atenção de algo que fiz ou que não fiz. Por isso eu nunca sei o que devo fazer e o que não devo fazer jamais. Eu queria tanto saber, mãe! Mãeeee, vai demorar? Mãe, você ainda está aí?
- Oi, eu estou sim, estou no semáforo! E estou pensando sobre o que me disse agora mesmo, eu não sou sempre assim... É porque tanta coisa já aconteceu no meu dia até esse momento de voltar para casa e pensar que vou descansar, mas que nunca descanso, me entende?
- Então você não descansa porque não quer! Eu descanso quando chego da escola, jogo tudo para o alto, fico descalça, assisto minha série, depois jogo um pouco, assalto da geladeira as coisas que mais gosto e as vezes até durmo a tarde, coisa que nunca fiz antes, nem quando eu era bebê, não é verdade, mãe?
- É verdade, você dormia muito pouco e durante o dia era ligada na tomada, quanta energia! Você não tem um pingo de constrangimento de relatar que não faz nada a tarde? Como é que eu vou descansar desse jeito? Com a casa de pernas para o ar? Quem vai cozinhar, limpar e guardar as coisas?
- Ah mãe, eu guardo minhas coisas sim, mas é na hora que eu posso. E eu faço muitas coisas a tarde sim, só que coisas boas. E você sabe que eu adoro cozinhar e estudar com você, não sabe?
Cozinhar você adora e já tem talento! Mas para lavar a louça, não né? Outra coisa que você tem que fazer é parar com essa mania de me esperar chegar para estudar, você estuda de dia e tira as dúvidas comigo a noite e quando não puder comigo, tira as dúvidas com o google!
- Mas mãe, não é a mesma coisa, eu gosto de estudar com você, juntas e deitadas no sofá, é tão mais gostoso! E com você eu entendo as coisas que aquele professor passa, com ele eu não entendo nada e não é minha culpa! Ninguém da classe gosta dele, parece que ele fala para dentro, credo!
- Você sempre tem uma explicação convincente para tudo, não é espertinha? Na vida você tem que se virar sozinha o máximo que puder, depender dos outros é uma droga, nunca é bom. E eu não vou estar a vida toda ao seu lado, algumas decisões e atitudes são suas, somente suas e acredite, é a melhor coisa da vida. Mesmo se você errar, ninguém vai poder te culpar ou te humilhar por isso.
- Tá bom mãe, tá bom! Mas agora você está chegando?
- Quase! Agora eu peguei a avenida principal. O trânsito está lento, mas está andando. Você já tomou banho? Você trocou a água da cachorra? Deu a ração para ela? Ah e você deu o recado paro perueiro escolar que amanhã eu que irei te levar? Não vai esquecer de fazer jejum depois das 22h porque amanhã tem exame de sangue cedinho, hein?
- Tá vendo? Você nem espera chegar em casa para fazer um monte de pergunta...aff. Que saco ter que fazer exame de novo amanhã! Não aguento mais!
- Só estou perguntando para você não esquecer! Você sabe que um mês sim e um mês não tem que colher exame, fazer o quê?
- Mas mãe, por que só eu tenho essa doença? Eu nunca vi ninguém com a mesma doença! Nem na escola nem na família. Se você e meu pai não tem, por que eu tenho?
- Eu não sei, meu amor! É uma doença autoimune, não sabemos porque você a desenvolveu. Podem ser tantas coisas... até de origem emocional, ou herdada geneticamente de algum antepassado ou porque aconteceu mesmo. Não há como saber meu bem, mas vamos trata-la sempre, fazer todos os exames e quem sabe um dia a ciência encontre a cura. Em Cuba há excelentes médicos que investigam essa doença, acredito que um dia a cura venha de lá, enquanto isso muita paciência. Existe pessoas com muitas outras doenças, você não é a única que sofre, meu amorzinho.
- Mãe, eu não queria ter essa doença. Todos meus amigos perguntam o que são essas manchas. Tenho vontade de xinga-los!
- Eles não perguntam por mal, acredite! É por curiosidade mesmo e eles não imaginam que isso possa te magoar, não tenha raiva. Explique sempre que puder, eles não sabem do que se trata, assim saberão e respeitarão, acredite em mim.
- Mãe, eu queria tanto viajar para longe, só eu e você. Vamos fazer um intercâmbio juntas? Vai ser ótimo para desenferrujar seu inglês e vivermos coisas novas. Canadá deve ser ótimo!
- Sim, Canadá é excelente! Iremos assim que tivermos uma oportunidade! Será maravilhoso e você vai aprender muitas coisas. Se eu não puder ir, você vai! Eu te amo tanto...!
- Eu também te amo, mãe, muito! E estou com fome! Você ainda vai demorar?
- Não, acabei de chegar na garagem. Estou subindo e quero só ver essa bagunça aí! Beijos!
- Ebaaa! Beijo, mãe!
 
 (Mariana de Almeida).
 
 
 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Meu grande amor.

Hoje eu vi o meu grande amor
Aquele grande amor do passado
Que nunca morre dentro de nós
Ele vive de lembranças
Cheiros e saudades
De uma inocência
Que se foi para nunca mais...

Meu grande amor envelheceu
Foi para a Lua, viu as estrelas
Atravessou muitas noites
Mergulhou no mar escuro
Nas profundezas das águas
Meu amor não sabia nadar...

Meu grande amor continua lindo
Mas tão cansado, tão cansado
O mundo o levou a nocaute
Três rounds a zero
O chão agora é seu lugar
Mas mesmo deitado e sujo
Entre carros, motos e aviões
Meu amor continua lindo...

Ele disse que sempre me esperará
Juntos, e longe daqui, iremos voar
Um novo mundo vamos ganhar
Longe da dor e perto da noite
Longe do chão e perto de Deus
Abençoados para sempre então.

(Mariana de Almeida).

Não passarão.

Na manha
Na força
Na marra
Ou na porrada
A vida te joga na estrada;

É matar ou morrer
Cada dia superação
Cada dia ilusão
Cada dia coração;

Eu que tanto apanhei
Aprendi a bater
Aprendi a cortar
Aprendi a fiar
Meus versos como navalha
Na cara dos canalhas;

Sobre mim não passarão
Impunemente
Sem sangrar o coração.

(Mariana de Almeida).


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Presente.

Há mais passado no presente
Que presente em nós mesmos
Há menos futuro em nosso presente
Que supúnhamos no passado
De um outro tempo presente
O tempo é de desordem
O clima é instável
A natureza está em fase terminal
Brotam-se cancro do que semeamos
Abrem-se feridas de pus e sangue
Ao invés do botão de flor
Éramos ingênuos ou só idiotas?
Éramos sonhadores ou só crianças?

Fomos o que nunca seríamos
Traímos nossos átomos e moléculas
Nos corrompemos envenenando a água
E depois servindo-a em jarras de ouro
A indigestão é ácida...
A sede de tudo não tem cura
A fome de ontem não tem futuro.

(Mariana de Almeida).



Diário.

Nesse diário de memórias
Guardo somente o que importa
Palavras e sentimentos
Todos registros a bordo
Desse navio inconstante
Que assistiu a tantos naufrágios
E tantas despedidas nas embarcações...
Há mais amor nas despedidas que nas chegadas.


(Mariana de Almeida).
 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Não procure por mim.

Não procure por mim
Estarei onde sua imaginação
Não pode alcançar;

Não procure por mim
Estarei sempre longe daqui
E mais perto do céu;


Não procure por mim
Nos grandes eventos, nos saraus
Não vou...

Sou simples, sozinha e inquieta
Me encontre em algum corredor no mercado
Na seção de vinhos ou na tabacaria
Ou ainda na fila do caixa
Aflita...
Sem saber com qual cartão pagarei;

E se estarei viva quando a fatura chegar
Eu deveria saber...
Caso não estiver, poderia levar mais vinhos.
A vida é curta, a noite é longa.

( Mariana de Almeida)
.
 
É sério mesmo tudo isso?
É sério mesmo toda essa pose?
É sério mesmo todo esse status?
É sério mesmo toda essa falsa elegância?
É sério mesmo toda essa lucidez?
E todo esse cálculo inútil?
E toda imaginação jogada fora?
E todas as viagens não idas?
E todas as histórias sem fins?
E todas as contas não pagas?
E todas as bebidas não tragadas?
E todas essas ruas desertas?
E todo o resto, tantas palavras, foram todas ditas?
Ah...bobagens, mentiras à toa, ilusões de quinta
Português escrito errado, rimas engasgadas
Nada tão sério, de fato, risos no ar, lágrimas sob o rayban
Garrafa pela metade, copo cheio e Chico ao fundo
Estrada de novo, o futuro é logo ali.


O avião já decolou
O Futuro foi ontem
Você desocupado e nem viu
O céu tá sobrecarregado
Aeronaves, nuvens e almas
Entram em colisão astral
Estamos todos perdidos
Nessa estranha estação
Não dá mais para voltar
Não dá mais para seguir
Não dá mais para voar
Não dá mais para chegar
O futuro foi ontem
O presente não há
E o passado é hoje!
Nunca mais amanheceremos
Longe daqui, meu bem.

(Mariana de Almeida).
 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Só.

De todas as mentiras
Que não te contei
Você foi se apaixonar
Justo pela minha verdade
Nua, crua e cheia de sangue
Que tanto teimei em negar...
Minha intenção nunca foi te matar
Mas minha verdade é pura navalha
Que corta sem nenhuma contrição
Deixo o amor para quem sabe mentir
Sigo só afiando a lâmina da solidão.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Acabou.

Acabou daquela forma mais blasé
Impessoal, indiferente, insensível
Tanto faz a água da chuva que inunda a casa
Ou a alta do dólar que aumentam os lucros;

Tanto faz se é dia ou noite
Se veste azul ou cinza
Se ouve Mautner ou Tom Zé
Se bebe o tinto ou o branco;

Tanto faz quando se morre!


(Mariana de Almeida)
Foto: Rio de Janeiro, Copacabana, um dia frio.

Tempo da espera.

Quando repiquei os cabelos todos
Em frente ao espelho d'água
E vi meus pedaços caindo na poça
Sabia que não poderia voltar atrás
Era o tempo da espera que começara
Era o tempo das grandes podas
E minha alma passaria por este ciclo
Para seu solo, de novo, poder germinar
Fui menina, fui mulher e fui deusa
Minhas raízes e tubérculos cresceram
Agarram-se à Terra e gerei frutos
Fui mãe, fui rainha e fui mendiga
Dei, para o amor, tudo que não tinha
Agora, da morte, renasço mais jovem
Do tempo da espera, me aguardo ansiosa
A volta é sempre melhor que a ida
A volta nos dá gratidão e sabedoria
Na ida só levamos na mala a vaidade
Em frente ao espelho d'água
Pude me ver, de novo, uma menina.

(Mariana de Almeida).

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Vem

Vem, vem devagar, como quem chega para ficar
Vem, vem devagar, como chegam os primeiros raios de sol
Devagar e inteiro, que aquece aos poucos e não esfria jamais
Vem, vem como um bom amigo, de peito aberto e olhos de amor
Vem inteiro, vem com o seu melhor, vem só com o seu melhor
Deixa o resto para os dias ruins que insistem lá fora
Vem anoitecer comigo como só os amantes sabem fazer
Deixa a noite levar embora o nosso resto de dor...
Vamos jantar no alto da torre e ver a cidade nua
Vamos brindar e dançar sob a lua os nossos poemas
Venceremos a morte no meio da noite
Sob lençóis de seda azul céu turquesa
Nossa pele, nosso brilho, nossos melhores perfumes
Luxúria às vezes cai bem quando desejamos demais
Nada de menos, só de mais, mais e mais...
Vem, nem tão devagar assim, me amar é urgente!
Esperar é para poucos, não para mim, eu não nego
Esperar é para os fracos que aceitam pouco
Esperar é esfriar a loucura da minha pele.

(Mariana de Almeida)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Top.

   Existe alguns tipos de pessoas totalmente dispensáveis, especialmente aquelas que fazem sempre o mesmo tipo de comentário, seja qual for o assunto. É o tipo "simpático-idiota" que curte todas as fotos e publicações de uma rede social com um único comentário do tipo "Top".
   A pessoa não é dotada de nenhuma profundidade em nenhum assunto ou opinião, além de ser o típico idiota, é quase sempre o perfeito machistinha retardado que curte todas as fotos das amigas e comenta orgulhoso:"Top".
   Lê uma crítica de alguém sobre qualquer assunto e comenta: "Top".
   Vê uma receita de bolo inglês com cobertura de chocolate belga e comenta: "Top".
   Enfim, esse tipo de idiota é o retrato do brasileiro mediano e midiático, o infeliz vai conforme a maré das mídias o guiam, ele ama o artista que vende mais, ele odeia as minorias, ele defende sua própria escravidão, ele se orgulha de conseguir comprar um tênis ou celular de valor superior ao seu próprio salário, ele acredita em propagandas mirabolantes, ele objetifica a mulher e pior, ele se acha  um homem superior aos outros. Ele acha que está por dentro de tudo, conhece todos os suplementos proteicos disponíveis para quem frequenta academia, conhece várias marcas de cervejas, sabe as marca das melhores roupas e perfumes, mas não entende nada de evolucionismo, corpo humano ou liberalismo econômico.
   Ah, ele também acha que é o fodão do sexo, que seu pau é o melhor de todos e que quanto mais ele demorar para gozar,  melhor para a parceira! (risos). É o cidadão todo construído por falsos estereótipos.
   Infelizmente não é só o sexo masculino que pode se gabar dessa realidade, o que têm de mulheres que defendem seus algozes, que concordam com sua castração moral por parte dos seus companheiros, chefes e líderes religiosos, não está escrito nem nos piores gibis.  Tem muita mulher que não imagina o quanto está sendo usada e explorada pela sociedade, pela família, pela igreja e pelos políticos lacaios. Ela não faz ideia de como foi construída e da escravidão que é manter ou tentar atingir esse padrão de subserviência ao sistema castrador que a oprime do direito de questionar para formar suas próprias opiniões e desenvolver suas verdadeiras aptidões.
   Ela também não sabe comentar ou discutir nenhum assunto com profundidade, também gosta das músicas que vendem mais, das novelas que oprimem mais, das roupas que a exploram mais e sim, ela também participa e comenta tudo nas redes sociais com a gíria mais miserável que inventaram até agora, ela também comenta e diz: "Top!"
 
(Mariana de Almeida).
 
 
 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O velho marinheiro.

Era impossível não amar aquele homem, tanta bondade, tanto carinho que exalava de seus olhos, suas mãos tenras, seu colo acolhedor e suas palavras sempre doces de esperança.
Era amor demais para um homem só, um homem castigado pela vida, perdas irreparáveis, separações, rejeições e abusos. Eram tantas faltas e um coração gigante que boiava em seu mar de amor infinito, regido pela Lua que determinava suas marés, ora baixa, ora cheia e ora tempestuosas de anseios inimagináveis.
Ela era suja demais para um coração tão puro, ela fora abduzida pelo sistema o qual repudiava... Desde menina seguia regras impostas para sua sobrevivência, nenhum passo em falso seria perdoável, um deslize e já seria o suficiente para que um Tsunami devastasse sua pequena vida de medo e agonia, as vezes teria sido o melhor mesmo...
Ela foi tocada pelo amor desse velho marinheiro, foi libertada das profundezas do seu mar sujo e cheio de destroços de antigos navios naufragados. Esse homem, esse marinheiro a tocou com o seu doce amor e a libertou para navegar em outros oceanos de águas mais limpas. Sim, ela podia nadar, existia um outro oceano e ela podia se salvar.... Salvar-se da dor de se saber prisioneira, estava liberta para sair dali e navegar em outras águas antes que fosse tarde demais. O lodo de sua prisão nunca sairá completamente dela, haverá resquícios, haverá cortes, haverá gritos, haverá memórias....mas há agora a possibilidade de novos mares e novas ilhas e novas praias e novas areias que antes os pés se recusavam em pisar.
Não há mais medo de quedas, todas já foram testadas e nenhuma definitiva.
O velho marinheiro, Deus do mar, de corpo machucado e coração dantesco a despertou de sua dor e a fez renascer Mulher, Musa e Deusa da vida e das palavras.
O mar nunca mais foi o mesmo.
 
Texto e fotografia: (Mariana de Almeida).
 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Não sou.

Descobri que não sou obrigada a nada,
Não me encaixo em nenhum padrão;
Sou avessa a tudo
Sou o que caminha só em busca de multidão
Sou o que delira de tanta imaginação
Sou o que não cabe
Sou o que explode
E depois nunca se recolhe
Sou o avesso do que há
Sou o medo das coisas
Sou o que não se pode ser
Por isso não sou.


(Mariana de Almeida).

 
Nunca estivemos a sós!
Entre nós, sempre estiveram os outros.
Entre os outros,
Nunca nós estivemos!

Vida que segue.


Tudo às claras, exatamente como se nada tivesse acontecido, a vida seguia sua normalidade intolerável e tediosa. Essa é a vida real, o cotidiano que nos devora sonhos e utopias, sem nos dar nada em troca. Talvez a liberdade, depois de muita persistência e luta.
Pelo menos Renata livrara-se daquele relacionamento constrangedor que há anos lhe consumia. Não que Maurício fosse agressivo ou violento, pelo contrário, era um homem pacato demais, lerdo demais, queixoso demais e trabalhador de menos. Estava sempre descontente com tudo: Com o corpo, com os negócios, com os preços do mercado, com os parentes, com a casa velha e claro, sempre queixando-se de tudo na cabeça de Renata. Ela que fingia lhe ouvir enquanto silenciosamente era tele transportada para outros mundos cheios de magia, encantos, romantismo, atitudes e alegrias bem longe dali. Sim, Renata era professora, tinha instrução, gostava de ler livros de diversos assuntos, tinha desejos de viajar e uma sede de cultura invejável, pesquisava sobre diversos países e hábitos de vida, seus principais artistas e políticos, mas não tinha com quem conversar em casa. Maurício não queria nem saber e achava tudo perda de tempo enquanto os filhos estavam sempre ocupados demais com seus videogames e celulares. Maurício e Renata dividiam assuntos triviais do maçante dia dia: "O que você prefere para o jantar?", "Abasteceu o carro?", "Pagou a conta de luz?", "Foi na escola do Pedro Henrique?"... essas coisas.
Mas na hora de dormir Maurício despertava de fato e estava sempre disposto para fazer sexo enquanto Renata não tinha mais interesse algum, ela tinha que fechar os olhos com força e imaginar que estava com o Rodrigo Lombardi, Leonardo DiCaprio, Bono Vox, até com o Paul Stanley ela se imaginou na cama. Apesar de não ter mais nenhuma atração física pelo marido que estava gordo e careca, ela não queria magoá-lo jamais e por isso cedia todas as vezes que ele lhe assediava. Mas uma hora não deu mais para ceder, pois até o cheiro dele começou a incomodar terrivelmente. Não adiantava mudar nem a marca de sabonete, pois quanto mais suava, pior ficava e era um suor azedo que vinha de sua nuca, cabeça e pescoço e exalava enquanto ele a penetrava e dizia obscenidades com a intenção de excitá-la. Um dia ele pediu para ela chupar seu pescoço e aí não teve jeito, foi a gota d'agua. Ela gritou: "Basta! Chega! Nunca mais eu quero trepar com você!". E o pobre sem entender nada lhe perguntou o porquê, então, sem papas na língua, Renata gritou em alto e bom som: "Você fede! Você fede azedo! Pior ainda nos dias de calor, misericórdia homem!".
Um abismo silencioso se fez entre os dois para sempre, exceto no dia da audiência em que Renata e Maurício assinaram o divórcio. Ela estava radiante, dormia bem como nunca em sua cama nova! E ele, visivelmente mais magro, bem vestido e muito cheiroso, cheiro de perfume importado, coisa fina mesmo. Assinaram os papéis, deram-se as mãos e cada um seguiu sua nova vida, cada qual com suas expectativas.
Ele ainda não se conformava como um simples problema de suor podia ter feito ela simplesmente desistir de tudo. Já ela, não sabia porque demorou tanto para dizer a ele que não sentia mais nada e o pouco que sentia, era o enjoo que vinha da sua nunca toda vez que se encostavam.
Vida que segue, amores que vêm, amores que vão.
Tempos líquidos é o que temos para hoje, Tim Tim!
 
(Mariana de Almeida)
 
 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Frio.

Aquela indiferença voltara, aquele frio gélido das manhãs de inverno em que nada aquece, aquela distância muda, aquela noite escura.... Ela conhecia bem esses dias, a morte é uma dose amarga demais para se tragar e não há quem trague por nós. Não há o que ressuscitar... morreu antes de fincar os pés no chão, morreu antes de enterrar a semente que prometia árvores e frutos, morreu antes da água alimentar, morreu antes da poesia vingar e da morte se fez profundo silêncio. Não alimento o luto, choro a despedida sem adeus apenas.
Nossos relógios correm em sentidos opostos, nossos ponteiros não se cruzam e nossa hora já foi. Somos o passado do que nunca houve. Somos a lembrança da promessa de futuro, somos a saudade de um gozo profundo o qual somente verdadeiros amantes puderam provar.
Somos o que seria se pudéssemos ter sido, mas não pudemos. Somos o que da vida fomos feitos, nem alegres nem tristes, gérmen de trigo e promessa de pão, missionários da poesia na Terra do não.
 
(Mariana de Almeida)
 
Imagem: Ricardo Laf.
 
 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Lirismo do poeta.

Eu errei no passo
Eu errei na linha
Eu errei na rima
Eu errei na medida

Coloquei no pacote o que não mais cabia
Coloquei na receita mais farinha que pedia
Coloquei no destino mais histórias que podia
Coloquei na poesia mais letras que melodia;

Eu errei o cenário
Eu errei o trato
Eu errei o prato
Eu errei o calendário

Coloquei o amor para repousar de dia
Coloquei a dor para irromper de noite
Coloquei o sonho num porta joia de ouro
Coloquei a poesia para, na vida, fazer sentido;

Sonhos, cores
Amores, dores
Sabor, dissabores
Poemas, flores...

Na bagagem do poeta
Cabe mais versos do que ele pode carregar;
Nas rimas do poeta
Cabe mais dor do que ele pode imaginar.

(Mariana de Almeida)


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Eternidade.

A partir de hoje, declaro:

Todos os meus versos de amor

Serão dedicados a ti

Somente a ti, meu adorado amor

 

A partir de hoje, declaro:

Todos nossos poemas serão de verão

O inverno não mais nos atingirá

Pois o nosso sol jamais cessará

 

Antes de ti, meu amor

Os dias eram longos e cheios de metafísica

Depois de ti, meu amor

Os dias são curtos e cheios de incêndios

 

Depois de te encontrar e te amar

Eu fui feliz como jamais antes

Ter você, meu bem, é eternidade

Pois não temo mais a morte!

 
(Mariana de Almeida)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Ciúmes.

Estávamos doentes de amor
Disse então, com olhos sacanas,
Que lhe faria um strip-tease
Ele arregalou os olhos
Não disse nem uma palavra...
Disse que dançaria nua para ele
E que ele somente assistiria
Quieto, sem se mexer...
Então uma lágrima escorreu
Da sua face doce
Perguntei o que foi?
Ele apenas disse que doeu demais
Por um segundo sequer
Me imaginar dançando assim
Em algum dia do passado
Para um outro alguém.

O amor dói.

(Mariana de Almeida).


Sobre o amor.

Não se ama o que não se admira, o que não nos motiva, o que não nos move, o que não nos emociona e nem o que nos paralisa, estagna e enguiça no mesmo lugar.
O amor é poder! Poder de transformar, de melhorar, de encorajar, de lutar, de vencer, de guerrear e de fazer acontecer!
Pedras no caminho? Sim, são muitas! Medos, receios, contratempos, falsos amigos, invejosos, família, política, sistema, grana.... É preciso muita sanidade mental para enfrentar com sabedoria e destreza toda essa correnteza contra nós, é preciso saber nadar contra a maré sem se deixar afogar por ela, é preciso treino, fôlego, pausas, choros, café, solidão e colo.
Cada um de nós traz bagagens pesadas e difíceis demais para carregar e é preciso muita coragem ao abri-las para o outro ver o que há dentro delas. Nem sempre se admira o que carregamos arduamente em nossas bagagens, algumas cheiram mal, outras são carregadas de pedras e outras vazias demais. Mas dividi-las com quem se ama e está disposto a nos ajudar, pode ser, no mínimo, acolhedor e reconfortante.
Amar não é somente sentir febre e paixão pela companhia e pele da outra pessoa, é preciso pisar descalço em seus solos vulneráveis, ser cúmplice para semear possíveis frutos dessa comunhão que só germina com afetos regados a respeito, carinho e pedidos de desculpas, se preciso for.
No amor não há certo e errado, há diálogo e evolução, há respeito e amizade, há desejo e paixão e há silêncio e retidão. Há os dias de sol e os dias nublados, há noites de lua cheia e noites escuras, e ainda há as noites com sol.
O amor é isso tudo, somado a dor, contas a pagar, boletos vencidos, filho doente, cachorro endiabrado, cama boa mas colchão ruim, pizza fria, bolo quente, café quente, chá gelado, chocolate branco e dark num só paladar chamado Vida.

(Mariana de Almeida)

 

Solidão.

Rouba-me tudo
Rouba-me o nada que possuo
Rouba meu pouco juízo
Rouba minha insensatez
Rouba meu desejo de justiça
Rouba meu livro do Neruda
Rouba meu disco favorito
Rouba minha paz;
Só não rouba minha solidão
Minha solidão já tem dono
Por um feitiço do tempo
Ela foi aprisionada em mim
No calabouço onde somente
A dor, minha rainha absoluta
Libertaria minha solidão
Num rompante de compaixão
Que não há nem nunca haverá
Clemencias em vão...
Misericórdia ao coração.

(Mariana de Almeida)




Depois do amor.

Detesto ser invadida
Molestada
Corrompida
Negociada
Avaliada
Comparada
Elogiada demais
Elogiada de menos
Ser confundida
Por um par de coxas
Por uma transa boa
Por palavras à toa...

Cama não é amor
É sedução
É vaidade
É gula
É pecado
São os desejos da carne
Brincando com a alma
Lembrando que depois do amor
Tudo dói para sempre.

(Mariana de Almeida)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Desnecessário.

Desnecessário dizer que a escuridão assusta
Que homem mente
Que homem mata
E que somente o mais fraco paga a pena;

Desnecessário dizer que o céu já é cinza
Que a tarde arde
Que a noite tarda
E que somente alguns ainda teimam e amam;

Desnecessário dizer que nunca te esqueci
Que os dias continuam iguais
Que a vida não vale um jornal
E que sei que algum dia ainda te verei;

Mesmo se ao longe
Você sorrindo, talvez juntos dos seus
Só para me mostrar que tudo valeu
E que nem todas as cores
Se apagam às dores do adeus.

(Mariana de Almeida).

Sobre o amor.

O amor, esse eterno desejo de encontro...
Essa procura desesperada, esse faro faminto que busca o encontro de almas na pele do amor,
Essa bússola infame que indica rotas obscuras, altera caminhos, encontra dor onde prometia-se o amor,
Desgoverna corações e vidas... encontra solidão e prantos ao fim de uma noite perdida...
O sol renasce, iluminando novo dia, aquecendo o solo de devastados corações, alimentando raizes e fazendo brotar enfim a flor.
Um olhar, um sorriso escondido revela-se e o coração debaixo de muralhas de infinitas de pedras, contrai-se e bate mais uma vez prometendo vida onde antes era vastidão espacial, noites sem satélites agora acenderam-se de estrelas para nós.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

A tua espera.

A tua espera me é sempre aflitante;
É sempre como se fosse a primeira vez
É sempre como aquela primeira viagem
É sempre como tocar os pés de manhã
É sempre como me sinto ao rever o mar...
E tocar suas águas, que embora agitadas,
Sempre me trazem paz.


terça-feira, 23 de maio de 2017

Encontro poético:

Músicas, livros e vinhos
Partidos, ídolos e socialismo
Cama, corpos e delícias
Bocas, palavras e sentidos
Palavras escritas com a língua
Na pele que grita poesia!



quarta-feira, 17 de maio de 2017

Gosto.

Eu gosto do perigo, eu me arrisco

Um palpite, um poema ou uma taça de vinho

Que pode ser a minha fortuna

Ou a minha ruína;

Ah, eu invisto mesmo para perder

O que se guarda se morre sem nascer

Eu aposto sob a luz da lua

E faço vingar sob a pele

O único sentido dessa vida.


(Mariana de Almeida).




Dos homens:


De menina que fui
Um dia acreditei nos homens;
De moça que fui
Um dia desconfiei dos homens;
De mulher que fui
Um dia odiei os homens;
De senhora que fui
Um dia perdoei os homens;
De idosa que fui
Um dia desisti dos homens...
Sua humanidade é perversa
Os homens acumulam coisas
E desprezam pessoas;
Os homens vendem suas mentiras
A preço de sangue, suor e dor
Para outros homens comprarem
A preço de barganha;
Um dia desisti dos homens
Quando vi a criança suja no asfalto
Quando vi a mulher no semáforo descalça
Quando vi o jovem fumando pedras em lata
Quando vi o homem mirando o fuzil
Quando vi o homem matar outro homem
Quando morreu em frente ao hipermercado central, um homem, de fome.

(Mariana de Almeida)



terça-feira, 9 de maio de 2017

Belchior.

Deitada só na cama
Fones de ouvido e Belchior
Pensando na vida
E na falta de sentido dela.


Saber ser grão de areia
Nesse deserto de mundo
Desejo urgente de ser feliz
Antes do fim.


Alucinação que bate na gente
Quando ouvimos o coração.


(Mariana de Almeida).



Nós.

Retalhos de jornais
Mesmo se juntados
Não saberiam de nós
Atravessamos estradas,
Mares e montanhas
Enganamos a polícia
Civil, militar e federal
Ultrapassamos velocidades
Derrubamos placas
Não ouvimos conselhos
Não olhamos para trás
Futuro nos fisgou
Atropelando o presente
E enterrando passados.
(Mariana de Almeida).