quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Brasil.


A vida no Brasil é malabarismo
Eu tento me equilibrar entre tantas cordas
Tropeço entre os dias e noites
Sem dar bandeira, me finjo de sonsa
Pago para ver até quando o circo
Enganará seu povo.
E quando pegar fogo,
Não me chamem de louca
Eu estarei presa entre as cordas
Rindo da chegada hora
Que vai fazer nascer a nova história
A vida no Brasil será outra
O picadeiro será do povo
E o rei deposto estará morto
O circo será de novo só alegria
Na lembrança viva do nosso povo.

(Mariana de Almeida).

domingo, 15 de janeiro de 2017

Lembrança de você.

Putz, Bauman estava coberto de razão
As pessoas se conectam e se desfazem 
Num instante de um clique
Você me arrancou da sua vida
Como um velho papel de pão
Amassou e jogou fora sem remorso
Acreditou em tantas mentiras contadas
Preferiu seu mundo à nova estrada
Não julgo, minhas malas também são pesadas
Nossa, eu te amei tanto
Eu só queria que você soubesse.
Águas passadas, novas enrascadas
A vida não para enquanto bate
Sinto pelas mentiras que se tornaram verdades
Sinto pelo silêncio da nossa sorte
Hoje sei que te amei e isso basta
Louca e apaixonada, fiz tudo errado
Mas agora viramos passado, talvez piada
O futuro continua incerto
Eu nunca sei o que virá de melhor
Sabemos que a cada ano novo
É um ano a menos...
Espero que esteja feliz
E que se lembre de mim
Ao ouvir aquela canção
Que inundava nosso coração.

(Mariana de Almeida).



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amor que mata não é amor!


Me apaixonei por esse homem
Que parecia tão bom e apaixonado
Era muito protetor e sempre me orientava
Como o seguir para não decepcioná-lo;
Um dia ele se abriu e mostrou as garras
Mostrou logo quem mandava no pedaço
Ele detestava minha autonomia e liberdade
Nem entendia meu riso fácil, sem maldade
Tudo para ele não passava de sacanagem;
Minha alma vivia cortada como carne talhada
Sempre se intrometia nas roupas que eu escolhia
Queria saber o que eu lia, o que eu assistia
Por onde eu andava, o que eu tanto pensava
Com quem eu falava e pra quem eu me mostrava;
Um dia jogou fora todas minhas maquiagens
Não restou base, sombra e nem pó
Para disfarçar no meu rosto a sua marca;
Um dia quebrou a casa inteira
Só porque cheguei atrasada
Por culpa do trânsito da cidade;
Quando era dia de eleição então
Era ele quem determinava
Em quem eu deveria votar
Pois sozinha eu jamais poderia pensar;
Mulher não entende de política
Mulher só sabe brincar de casinha
Ele sempre debochava e eu deixava;
Eu amava aquele homem
Que também prometia me amar
Desde que eu não infringisse
Nenhuma lei por ele imposta.


No começo pensei que ele fosse um príncipe
Mas o seu nome verdadeiro era Machismo
E seu sobrenome que eu hesitei em aceitar
Era Feminicidio.


(Mariana de Almeida)





Casos de família.


A Bisa chegou de navio da Itália
Ainda menina veio com a família para o Brasil
Fugindo da guerra e bebendo muito vinho
Porque o leite acabou no meio do trajeto.
Cresceu e mocinha já foi pedida em casamento
Outro italiano mais velho vindo da Sicília lhe escolheu
Antes da bisa decidir, seus pais já tinham consentido a união
A Bisa tinha quase 16 e o italiano garanhão 26
Naquele tempo se casava as filhas cedo assim
Pedofilia era coisa que nunca se ouvira falar
Casar por amor então, conversa de folhetim.
Na hora de casar a Bisa não quis, se desesperou
Olhou com asco para o Siciliano que lhe queria logo na cama
A família a obrigou, entrou chorando na igreja e o padre abençoou
Casamento feito, nunca mais desfeito
Ela contava que na hora da cama era sempre um terror
As vezes ele queria enfiar a língua na boca dela
Ela o empurrava e quase vomitava, contava anos depois
Para nós netas e bisnetas reunidas na sala em volta dela.
Enchia a boca para contar que casou obrigada
Que nunca viveu um grande amor
E que meu bisavô nunca foi como os homens dos romances
Que ela lia compulsivamente para passar o tempo
Como bons italianos, tiveram vida longa
Ele morreu aos 94 anos chamando por ela
Ela tinha 84 anos quando uns dias depois partiu sem dizer nada
Disseram que apesar dos pesares, ela sentiu saudades.


(Mariana de Almeida)


O navio Sicília trouxe milhares de imigrantes italianos para o Brasil, a partir de 1906, quando entrou definitivamente na linha entre Gênova e os portos sul-americanos.



Deixa ir.


Deixa ir
A ilusão que pousou
Mas nunca ficou
Deixa ir
A dor que não venceu
Mas muito ensinou.
Deixa ir
O que se sonhou
Mas não deu flor
No jardim que o fascismo pisou.

(Mariana de Almeida).