quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A paixão.

Nada maltrata mais o coração da gente
Que a paixão!
Essa serpente que queima por dentro
Invade o pensamento, alucina
Rumo ao labirinto, a um passo do abismo
Atiça os sabores proibidos, insinua e deseja
Implora e mendiga como cão de rua por comida
Transtorna nossa mente rumo ao paraíso perdido
A paixão!
Rasga a roupa e desobedece aos sentidos
Alucina e agoniza como escravo dessa lascívia
Nada dói mais que o amor a a arte
Submetidos aos desejos da paixão
Essa louca serpente que desgoverna a razão
E altera todo o itinerário do coração.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Natália.


   A história começou exatamente assim: Natália navegava na internet sábado à noite enquanto ouvia Olívia Ong e degustava seu vinho tinto sabático.
As noites de sábado de tempos atrás costumavam ser mais animadas, geralmente fora de casa e rodeada de amigos, mas ultimamente ela sentia-se bem assim, em casa, bebendo, ouvindo música e lendo algum livro, quando vez ou outra se perguntava se algum dia amaria novamente. Não queria se preocupar com isso, afirmava com todas as letras que era possível sim ser feliz sozinha, se aparecesse alguém seria para dividir e somar, jamais para subtrair e muito menos para multiplicar, pois Nati já era mãe e não queria mais contribuir com a dor das futuras gerações. Na verdade, Nati era bem pessimista quanto ao futuro da humanidade, sabia que o ser humano era um animal autodestrutivo, egoísta, perverso, ganancioso e cruel. Suas experiências com o outro resultaram nessas impressões difíceis de serem moldadas, mas por vezes depois de um pouco de vinho e boa música, a ideia de amar novamente rondava sua cabeça. Nati se espreguiçava no sofá, colocava o livro aberto sobre os seios e afundava sua cabeça nas almofadas enquanto flertava com a possibilidade de se apaixonar.
   Sentiu seu celular vibrar, era uma solicitação de amizade: Nathan deseja ser seu amigo: 05 amigos em comum. Nati simplesmente aceitou, um a mais ou um a menos não faria diferença na sua vida social virtual agitadíssima.
   Ele era fotógrafo, aparentava uns 45 anos, cabelos brancos, olhos pretos, um pouco de barba grisalha e dentes irregulares. O conjunto a agradava, aquele rosto exalava alguma paz e harmonia, ficou olhando sua foto por alguns segundos quando veio o primeiro bate papo, ficaram horas conversando, o papo fluiu e a atração idem, acabou a garrafa de vinho, ele fumava um baseado do outro lado da tela, trocaram histórias e músicas, discutiram poesia e fotografia, riram e se despediram com alegria. Pena não morarem na mesma cidade, caso contrário, se encontrariam naquele momento mesmo. Paixão boa é a que a gente faz na hora e não espera a hora certa para fazer. Uma pena, cada um de uma cidade e a vida real para dificultar qualquer contato e brochar tantos sonhos.
   A vida real é esse pacote de frustrações que carregamos, esse monte de boletos vencidos sem previsão para serem pagos, filho doente, cachorro no sofá, carro enguiçado, família, ex-marido, trabalho entre tantas coisas mais.
   Uma sensação angustiante no peito, sabia que devia se dar o direito de simplesmente viver sem a menor obrigação de fazer dar certo ou errado, simplesmente viver cada momento sem tanta culpa.
   Nati foi criada por uma família patriarcal e machista, todos acontecimentos e decisões dependiam do aval crítico e extremamente machista do pai, ele fora castrador a vida toda, exercia sua supremacia contra as mulheres da família que dele dependiam economicamente. Então, muitas vezes era preciso mentir, esconder, ocultar, modificar a realidade para ser aprovada pelo pai, homem que exercia fascínio e asco ao mesmo tempo, eis um dos primeiros problemas de Nati…daí em diante as coisas só pioraram.
   Ironicamente Nati se casou com um homem também machista e sexista que a torturava psicologicamente atraindo-lhe a ideia de suicídio. Mas em tempo, Nati buscou ajuda psiquiátrica e entendeu que não estava louca e sim estava sendo vítima de muitos abusos há muito tempo. Isso mesmo, não era ela a doente que não se encaixava na família nem no casamento, era a sociedade que não a representava, graças a deus! Nati entendeu isso e pediu o divórcio, mesmo sendo alvo de muitas críticas e punições do tipo: “Quem mandou escolher marido errado? ”. As mulheres simplesmente aceitam esse tipo de punição porque ainda estamos na era da Inquisição. A luta feminista está apenas engatinhando, é preciso mais mulheres conscientes e engajadas para conscientizar outras minas, outras manas, outras mulheres e senhoras.
   A libertação da consciência, do livre arbítrio, da livre escolha e do ir e vir se faziam urgentes. Mas e a prisão econômica? Essa era ainda uma barreira difícil de ser derrubada, pois as mulheres trabalham muito, no trabalho e cuidando de sua família, mas continuam ganhando menos que os homens.
   Nati ganhava pouco, mal dava para pagar as contas do apartamento, já tinha aberto mão de carro e gastos supérfluos, o que ela não abria a mão era do apartamento e dos estudos da filha. Infelizmente o ex marido nunca aceitou a separação e como vingança e punição não pagava a pensão alimentícia em dia, não parava em nenhum emprego, não assumia nenhuma responsabilidade e ainda atrapalhava a vida da mãe e filha. Foram muitas idas e vindas aos advogados, sessões com o juiz da vara familiar e civil, muitos acordos não cumpridos, muita dor de cabeça e pouco resultado. Dizem que essa lei funciona no Brasil, mas Nati é a prova viva que não funciona nada! O homem paga a pensão alimentícia ao filho quanto e quando quer, as leis protegem os homens e a mulher que dê o seu jeitinho para não faltar o pão na mesa. Nati recorria aos pais, apesar da humilhação, mas por um filho uma mãe faz o que é preciso, engole muitos sapos, mas nunca os digere, nunca!
   Uma semana depois Nati e Nathan se falavam diariamente pelo celular, falavam sobre amor, sonhos, viagens e desejos. Nati não queria entrar em detalhes sobre sua pobre vida sem emoções. As vezes pensava em bloqueá-lo e esquecer de tudo e seguir com sua rotina de sempre, esperando pelas noites de sábado para se dar um vinho de presente para relaxar enquanto ouve músicas que a fazem sonhar com outra vida.
   Nathan já estava fazendo planos, queria que ela fosse encontra-lo para irem juntos a um show, depois bar e depois passar o final de semana com ele. Domingo a noite ela voltaria para casa.
   Resta saber se Nati vai encarar a aventura amorosa, com quem vai deixar a filha, quem cuidará do cachorro e da casa e sem precisar se justificar ou argumentar com seus pais. Eis o seu grande dilema. Arriscar ou não?
















(Mariana de Almeida).