quinta-feira, 27 de abril de 2017

Aline.

Quem a via desfilando por aí, estereótipo perfeito de menina feliz, bonitinha e arrumadinha como diziam, cabelos e olhos cor de mel e uma íris que irradiava cores e dores sem nomes... Essa gente do mundo que adora perguntas idiotas do tipo: "Mas por que você está triste?" Ou "Por que uma moça tão bonita como você está tão tristinha?". Esse tipo de pergunta que acelera e muito o desejo de morrer definitivamentea, pois, a humanidade é uma filha da puta cínica e canalha e tudo o que se esperar dela resultará em sofrimento. Então... faça você mesmo o seu mundo e suas regras ou morra!
Aline ainda não sabia reagir, a sua educação castradora, religiosa e machista a ensinaram calar diante de todo tipo de sofrimento. Ela era capaz de fazer dietas mirabolantes e ficar dias sem comer, adorava se desafiar perante o espelho e quando comia algo prazeiroso demais corria ao banheiro e metia dois dedos no fundo da garganta e vomitava até sua bílis, o ritual nojento e sofrido lhe dava algum prazer por ter vencido e vencer é bom, vencer uma competição contra si mesmo é orgasmático, é como uma trepada fenomenal, é como uma carreira de coca da boa.
Aline era bulímica, anêmica, depressiva e mais... se auto mutilava! Chegava a criar desenhos na sua pele com os cortes que fazia. Tudo começou quando se cortou com a gilete no banho enquanto depilava sua perna longa e magra, o sangue jorrava pelo piso do box e escorria pelo ralo, foi uma dor agradável para ela e assim começaram os primeiros episódios de cortes. Ela preferia assim, passava horas trancada no banheiro se machucando enquanto as outras garotas da sua idade estavam fazendo compras em shoppings centers, namorando, ouvindo bandas ou fazedo qualquer outra coisa mais interessante. Aline se odiava, se achava burra e esquisita demais para ser uma garota normal e abrir a porta do quarto e da casa para finalmente sair em busca da sua felicidade.
Aline não esquecia o episódio em que foi estuprada pelo primo aos oito anos de idade e mais de uma vez... A família ao descobrir preferiu evitar um escândalo, então mudaram-se de cidade para se afastar do criminoso e fazer com que Aline esquecesse o inesquecível.
Com os anos a família parecia ter apagado da memória o estupro da Aline, mas ela não esqueceu nem um só dia o horror vivido, a lembrança da cara, dos dentes amarelados e dos olhos insanos do primo que a deflorou sem pena... Quanto mais ela chorava, mais ele gostava.
Psicopatas estão aí aos montes, hoje o primo é um advogado formado e bem sucedido. Muito bem vestido, carro importado, bons contatos e muitas mulheres atrás dele, mas o que ninguém sabe é que ele é um pervertido, um pedófilo e um excelente ator perante a sociedade.
Os pais de Aline não sabiam mais o que fazer para ela ter uma vida normal, levaram ao psicólogo milhares de vezes, colocaram para fazer aula de ballet, violão, natação, canto, idiomas e nada, Aline desistia de tudo, odiava a si mesmo e aos demais. Até que um dia brincando de desenhar com os cortes na perna, acabou perfurando uma veia safena e perdeu muito sangue.
Aline foi levada às pressas para o pronto socorro mais próximo e de lá para o hospital psiquiátrico onde vive há mais de um ano e sem nenhuma previsão de alta.
Aline morreu aos oito anos de idade quando foi violentada e ameaçada por alguém da sua própria família, o que sobrou foi um corpo pesado demais para se carregar. Hoje, aos 17 anos o corpo ainda respira, enquanto o primo desfila o homem de bem e de sucesso que se tornou, homem de prestígio em nossa sociedade.


(Mariana de Almeida).


#Estupro No Brasil acontece um estupro a casa onze minutos!!!! (Fonte: Carta Capital).

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