sexta-feira, 30 de junho de 2017

Vem

Vem, vem devagar, como quem chega para ficar
Vem, vem devagar, como chegam os primeiros raios de sol
Devagar e inteiro, que aquece aos poucos e não esfria jamais
Vem, vem como um bom amigo, de peito aberto e olhos de amor
Vem inteiro, vem com o seu melhor, vem só com o seu melhor
Deixa o resto para os dias ruins que insistem lá fora
Vem anoitecer comigo como só os amantes sabem fazer
Deixa a noite levar embora o nosso resto de dor...
Vamos jantar no alto da torre e ver a cidade nua
Vamos brindar e dançar sob a lua os nossos poemas
Venceremos a morte no meio da noite
Sob lençóis de seda azul céu turquesa
Nossa pele, nosso brilho, nossos melhores perfumes
Luxúria às vezes cai bem quando desejamos demais
Nada de menos, só de mais, mais e mais...
Vem, nem tão devagar assim, me amar é urgente!
Esperar é para poucos, não para mim, eu não nego
Esperar é para os fracos que aceitam pouco
Esperar é esfriar a loucura da minha pele.

(Mariana de Almeida)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Top.

   Existe alguns tipos de pessoas totalmente dispensáveis, especialmente aquelas que fazem sempre o mesmo tipo de comentário, seja qual for o assunto. É o tipo "simpático-idiota" que curte todas as fotos e publicações de uma rede social com um único comentário do tipo "Top".
   A pessoa não é dotada de nenhuma profundidade em nenhum assunto ou opinião, além de ser o típico idiota, é quase sempre o perfeito machistinha retardado que curte todas as fotos das amigas e comenta orgulhoso:"Top".
   Lê uma crítica de alguém sobre qualquer assunto e comenta: "Top".
   Vê uma receita de bolo inglês com cobertura de chocolate belga e comenta: "Top".
   Enfim, esse tipo de idiota é o retrato do brasileiro mediano e midiático, o infeliz vai conforme a maré das mídias o guiam, ele ama o artista que vende mais, ele odeia as minorias, ele defende sua própria escravidão, ele se orgulha de conseguir comprar um tênis ou celular de valor superior ao seu próprio salário, ele acredita em propagandas mirabolantes, ele objetifica a mulher e pior, ele se acha  um homem superior aos outros. Ele acha que está por dentro de tudo, conhece todos os suplementos proteicos disponíveis para quem frequenta academia, conhece várias marcas de cervejas, sabe as marca das melhores roupas e perfumes, mas não entende nada de evolucionismo, corpo humano ou liberalismo econômico.
   Ah, ele também acha que é o fodão do sexo, que seu pau é o melhor de todos e que quanto mais ele demorar para gozar,  melhor para a parceira! (risos). É o cidadão todo construído por falsos estereótipos.
   Infelizmente não é só o sexo masculino que pode se gabar dessa realidade, o que têm de mulheres que defendem seus algozes, que concordam com sua castração moral por parte dos seus companheiros, chefes e líderes religiosos, não está escrito nem nos piores gibis.  Tem muita mulher que não imagina o quanto está sendo usada e explorada pela sociedade, pela família, pela igreja e pelos políticos lacaios. Ela não faz ideia de como foi construída e da escravidão que é manter ou tentar atingir esse padrão de subserviência ao sistema castrador que a oprime do direito de questionar para formar suas próprias opiniões e desenvolver suas verdadeiras aptidões.
   Ela também não sabe comentar ou discutir nenhum assunto com profundidade, também gosta das músicas que vendem mais, das novelas que oprimem mais, das roupas que a exploram mais e sim, ela também participa e comenta tudo nas redes sociais com a gíria mais miserável que inventaram até agora, ela também comenta e diz: "Top!"
 
(Mariana de Almeida).
 
 
 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O velho marinheiro.

Era impossível não amar aquele homem, tanta bondade, tanto carinho que exalava de seus olhos, suas mãos tenras, seu colo acolhedor e suas palavras sempre doces de esperança.
Era amor demais para um homem só, um homem castigado pela vida, perdas irreparáveis, separações, rejeições e abusos. Eram tantas faltas e um coração gigante que boiava em seu mar de amor infinito, regido pela Lua que determinava suas marés, ora baixa, ora cheia e ora tempestuosas de anseios inimagináveis.
Ela era suja demais para um coração tão puro, ela fora abduzida pelo sistema o qual repudiava... Desde menina seguia regras impostas para sua sobrevivência, nenhum passo em falso seria perdoável, um deslize e já seria o suficiente para que um Tsunami devastasse sua pequena vida de medo e agonia, as vezes teria sido o melhor mesmo...
Ela foi tocada pelo amor desse velho marinheiro, foi libertada das profundezas do seu mar sujo e cheio de destroços de antigos navios naufragados. Esse homem, esse marinheiro a tocou com o seu doce amor e a libertou para navegar em outros oceanos de águas mais limpas. Sim, ela podia nadar, existia um outro oceano e ela podia se salvar.... Salvar-se da dor de se saber prisioneira, estava liberta para sair dali e navegar em outras águas antes que fosse tarde demais. O lodo de sua prisão nunca sairá completamente dela, haverá resquícios, haverá cortes, haverá gritos, haverá memórias....mas há agora a possibilidade de novos mares e novas ilhas e novas praias e novas areias que antes os pés se recusavam em pisar.
Não há mais medo de quedas, todas já foram testadas e nenhuma definitiva.
O velho marinheiro, Deus do mar, de corpo machucado e coração dantesco a despertou de sua dor e a fez renascer Mulher, Musa e Deusa da vida e das palavras.
O mar nunca mais foi o mesmo.
 
Texto e fotografia: (Mariana de Almeida).
 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Não sou.

Descobri que não sou obrigada a nada,
Não me encaixo em nenhum padrão;
Sou avessa a tudo
Sou o que caminha só em busca de multidão
Sou o que delira de tanta imaginação
Sou o que não cabe
Sou o que explode
E depois nunca se recolhe
Sou o avesso do que há
Sou o medo das coisas
Sou o que não se pode ser
Por isso não sou.


(Mariana de Almeida).

 
Nunca estivemos a sós!
Entre nós, sempre estiveram os outros.
Entre os outros,
Nunca nós estivemos!

Vida que segue.


Tudo às claras, exatamente como se nada tivesse acontecido, a vida seguia sua normalidade intolerável e tediosa. Essa é a vida real, o cotidiano que nos devora sonhos e utopias, sem nos dar nada em troca. Talvez a liberdade, depois de muita persistência e luta.
Pelo menos Renata livrara-se daquele relacionamento constrangedor que há anos lhe consumia. Não que Maurício fosse agressivo ou violento, pelo contrário, era um homem pacato demais, lerdo demais, queixoso demais e trabalhador de menos. Estava sempre descontente com tudo: Com o corpo, com os negócios, com os preços do mercado, com os parentes, com a casa velha e claro, sempre queixando-se de tudo na cabeça de Renata. Ela que fingia lhe ouvir enquanto silenciosamente era tele transportada para outros mundos cheios de magia, encantos, romantismo, atitudes e alegrias bem longe dali. Sim, Renata era professora, tinha instrução, gostava de ler livros de diversos assuntos, tinha desejos de viajar e uma sede de cultura invejável, pesquisava sobre diversos países e hábitos de vida, seus principais artistas e políticos, mas não tinha com quem conversar em casa. Maurício não queria nem saber e achava tudo perda de tempo enquanto os filhos estavam sempre ocupados demais com seus videogames e celulares. Maurício e Renata dividiam assuntos triviais do maçante dia dia: "O que você prefere para o jantar?", "Abasteceu o carro?", "Pagou a conta de luz?", "Foi na escola do Pedro Henrique?"... essas coisas.
Mas na hora de dormir Maurício despertava de fato e estava sempre disposto para fazer sexo enquanto Renata não tinha mais interesse algum, ela tinha que fechar os olhos com força e imaginar que estava com o Rodrigo Lombardi, Leonardo DiCaprio, Bono Vox, até com o Paul Stanley ela se imaginou na cama. Apesar de não ter mais nenhuma atração física pelo marido que estava gordo e careca, ela não queria magoá-lo jamais e por isso cedia todas as vezes que ele lhe assediava. Mas uma hora não deu mais para ceder, pois até o cheiro dele começou a incomodar terrivelmente. Não adiantava mudar nem a marca de sabonete, pois quanto mais suava, pior ficava e era um suor azedo que vinha de sua nuca, cabeça e pescoço e exalava enquanto ele a penetrava e dizia obscenidades com a intenção de excitá-la. Um dia ele pediu para ela chupar seu pescoço e aí não teve jeito, foi a gota d'agua. Ela gritou: "Basta! Chega! Nunca mais eu quero trepar com você!". E o pobre sem entender nada lhe perguntou o porquê, então, sem papas na língua, Renata gritou em alto e bom som: "Você fede! Você fede azedo! Pior ainda nos dias de calor, misericórdia homem!".
Um abismo silencioso se fez entre os dois para sempre, exceto no dia da audiência em que Renata e Maurício assinaram o divórcio. Ela estava radiante, dormia bem como nunca em sua cama nova! E ele, visivelmente mais magro, bem vestido e muito cheiroso, cheiro de perfume importado, coisa fina mesmo. Assinaram os papéis, deram-se as mãos e cada um seguiu sua nova vida, cada qual com suas expectativas.
Ele ainda não se conformava como um simples problema de suor podia ter feito ela simplesmente desistir de tudo. Já ela, não sabia porque demorou tanto para dizer a ele que não sentia mais nada e o pouco que sentia, era o enjoo que vinha da sua nunca toda vez que se encostavam.
Vida que segue, amores que vêm, amores que vão.
Tempos líquidos é o que temos para hoje, Tim Tim!
 
(Mariana de Almeida)
 
 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Frio.

Aquela indiferença voltara, aquele frio gélido das manhãs de inverno em que nada aquece, aquela distância muda, aquela noite escura.... Ela conhecia bem esses dias, a morte é uma dose amarga demais para se tragar e não há quem trague por nós. Não há o que ressuscitar... morreu antes de fincar os pés no chão, morreu antes de enterrar a semente que prometia árvores e frutos, morreu antes da água alimentar, morreu antes da poesia vingar e da morte se fez profundo silêncio. Não alimento o luto, choro a despedida sem adeus apenas.
Nossos relógios correm em sentidos opostos, nossos ponteiros não se cruzam e nossa hora já foi. Somos o passado do que nunca houve. Somos a lembrança da promessa de futuro, somos a saudade de um gozo profundo o qual somente verdadeiros amantes puderam provar.
Somos o que seria se pudéssemos ter sido, mas não pudemos. Somos o que da vida fomos feitos, nem alegres nem tristes, gérmen de trigo e promessa de pão, missionários da poesia na Terra do não.
 
(Mariana de Almeida)
 
Imagem: Ricardo Laf.
 
 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Lirismo do poeta.

Eu errei no passo
Eu errei na linha
Eu errei na rima
Eu errei na medida

Coloquei no pacote o que não mais cabia
Coloquei na receita mais farinha que pedia
Coloquei no destino mais histórias que podia
Coloquei na poesia mais letras que melodia;

Eu errei o cenário
Eu errei o trato
Eu errei o prato
Eu errei o calendário

Coloquei o amor para repousar de dia
Coloquei a dor para irromper de noite
Coloquei o sonho num porta joia de ouro
Coloquei a poesia para, na vida, fazer sentido;

Sonhos, cores
Amores, dores
Sabor, dissabores
Poemas, flores...

Na bagagem do poeta
Cabe mais versos do que ele pode carregar;
Nas rimas do poeta
Cabe mais dor do que ele pode imaginar.

(Mariana de Almeida)


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Eternidade.

A partir de hoje, declaro:

Todos os meus versos de amor

Serão dedicados a ti

Somente a ti, meu adorado amor

 

A partir de hoje, declaro:

Todos nossos poemas serão de verão

O inverno não mais nos atingirá

Pois o nosso sol jamais cessará

 

Antes de ti, meu amor

Os dias eram longos e cheios de metafísica

Depois de ti, meu amor

Os dias são curtos e cheios de incêndios

 

Depois de te encontrar e te amar

Eu fui feliz como jamais antes

Ter você, meu bem, é eternidade

Pois não temo mais a morte!

 
(Mariana de Almeida)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Ciúmes.

Estávamos doentes de amor
Disse então, com olhos sacanas,
Que lhe faria um strip-tease
Ele arregalou os olhos
Não disse nem uma palavra...
Disse que dançaria nua para ele
E que ele somente assistiria
Quieto, sem se mexer...
Então uma lágrima escorreu
Da sua face doce
Perguntei o que foi?
Ele apenas disse que doeu demais
Por um segundo sequer
Me imaginar dançando assim
Em algum dia do passado
Para um outro alguém.

O amor dói.

(Mariana de Almeida).


Sobre o amor.

Não se ama o que não se admira, o que não nos motiva, o que não nos move, o que não nos emociona e nem o que nos paralisa, estagna e enguiça no mesmo lugar.
O amor é poder! Poder de transformar, de melhorar, de encorajar, de lutar, de vencer, de guerrear e de fazer acontecer!
Pedras no caminho? Sim, são muitas! Medos, receios, contratempos, falsos amigos, invejosos, família, política, sistema, grana.... É preciso muita sanidade mental para enfrentar com sabedoria e destreza toda essa correnteza contra nós, é preciso saber nadar contra a maré sem se deixar afogar por ela, é preciso treino, fôlego, pausas, choros, café, solidão e colo.
Cada um de nós traz bagagens pesadas e difíceis demais para carregar e é preciso muita coragem ao abri-las para o outro ver o que há dentro delas. Nem sempre se admira o que carregamos arduamente em nossas bagagens, algumas cheiram mal, outras são carregadas de pedras e outras vazias demais. Mas dividi-las com quem se ama e está disposto a nos ajudar, pode ser, no mínimo, acolhedor e reconfortante.
Amar não é somente sentir febre e paixão pela companhia e pele da outra pessoa, é preciso pisar descalço em seus solos vulneráveis, ser cúmplice para semear possíveis frutos dessa comunhão que só germina com afetos regados a respeito, carinho e pedidos de desculpas, se preciso for.
No amor não há certo e errado, há diálogo e evolução, há respeito e amizade, há desejo e paixão e há silêncio e retidão. Há os dias de sol e os dias nublados, há noites de lua cheia e noites escuras, e ainda há as noites com sol.
O amor é isso tudo, somado a dor, contas a pagar, boletos vencidos, filho doente, cachorro endiabrado, cama boa mas colchão ruim, pizza fria, bolo quente, café quente, chá gelado, chocolate branco e dark num só paladar chamado Vida.

(Mariana de Almeida)

 

Solidão.

Rouba-me tudo
Rouba-me o nada que possuo
Rouba meu pouco juízo
Rouba minha insensatez
Rouba meu desejo de justiça
Rouba meu livro do Neruda
Rouba meu disco favorito
Rouba minha paz;
Só não rouba minha solidão
Minha solidão já tem dono
Por um feitiço do tempo
Ela foi aprisionada em mim
No calabouço onde somente
A dor, minha rainha absoluta
Libertaria minha solidão
Num rompante de compaixão
Que não há nem nunca haverá
Clemencias em vão...
Misericórdia ao coração.

(Mariana de Almeida)




Depois do amor.

Detesto ser invadida
Molestada
Corrompida
Negociada
Avaliada
Comparada
Elogiada demais
Elogiada de menos
Ser confundida
Por um par de coxas
Por uma transa boa
Por palavras à toa...

Cama não é amor
É sedução
É vaidade
É gula
É pecado
São os desejos da carne
Brincando com a alma
Lembrando que depois do amor
Tudo dói para sempre.

(Mariana de Almeida)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Desnecessário.

Desnecessário dizer que a escuridão assusta
Que homem mente
Que homem mata
E que somente o mais fraco paga a pena;

Desnecessário dizer que o céu já é cinza
Que a tarde arde
Que a noite tarda
E que somente alguns ainda teimam e amam;

Desnecessário dizer que nunca te esqueci
Que os dias continuam iguais
Que a vida não vale um jornal
E que sei que algum dia ainda te verei;

Mesmo se ao longe
Você sorrindo, talvez juntos dos seus
Só para me mostrar que tudo valeu
E que nem todas as cores
Se apagam às dores do adeus.

(Mariana de Almeida).

Sobre o amor.

O amor, esse eterno desejo de encontro...
Essa procura desesperada, esse faro faminto que busca o encontro de almas na pele do amor,
Essa bússola infame que indica rotas obscuras, altera caminhos, encontra dor onde prometia-se o amor,
Desgoverna corações e vidas... encontra solidão e prantos ao fim de uma noite perdida...
O sol renasce, iluminando novo dia, aquecendo o solo de devastados corações, alimentando raizes e fazendo brotar enfim a flor.
Um olhar, um sorriso escondido revela-se e o coração debaixo de muralhas de infinitas de pedras, contrai-se e bate mais uma vez prometendo vida onde antes era vastidão espacial, noites sem satélites agora acenderam-se de estrelas para nós.