segunda-feira, 26 de junho de 2017

Frio.

Aquela indiferença voltara, aquele frio gélido das manhãs de inverno em que nada aquece, aquela distância muda, aquela noite escura.... Ela conhecia bem esses dias, a morte é uma dose amarga demais para se tragar e não há quem trague por nós. Não há o que ressuscitar... morreu antes de fincar os pés no chão, morreu antes de enterrar a semente que prometia árvores e frutos, morreu antes da água alimentar, morreu antes da poesia vingar e da morte se fez profundo silêncio. Não alimento o luto, choro a despedida sem adeus apenas.
Nossos relógios correm em sentidos opostos, nossos ponteiros não se cruzam e nossa hora já foi. Somos o passado do que nunca houve. Somos a lembrança da promessa de futuro, somos a saudade de um gozo profundo o qual somente verdadeiros amantes puderam provar.
Somos o que seria se pudéssemos ter sido, mas não pudemos. Somos o que da vida fomos feitos, nem alegres nem tristes, gérmen de trigo e promessa de pão, missionários da poesia na Terra do não.
 
(Mariana de Almeida)
 
Imagem: Ricardo Laf.
 
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário