terça-feira, 27 de junho de 2017

Vida que segue.


Tudo às claras, exatamente como se nada tivesse acontecido, a vida seguia sua normalidade intolerável e tediosa. Essa é a vida real, o cotidiano que nos devora sonhos e utopias, sem nos dar nada em troca. Talvez a liberdade, depois de muita persistência e luta.
Pelo menos Renata livrara-se daquele relacionamento constrangedor que há anos lhe consumia. Não que Maurício fosse agressivo ou violento, pelo contrário, era um homem pacato demais, lerdo demais, queixoso demais e trabalhador de menos. Estava sempre descontente com tudo: Com o corpo, com os negócios, com os preços do mercado, com os parentes, com a casa velha e claro, sempre queixando-se de tudo na cabeça de Renata. Ela que fingia lhe ouvir enquanto silenciosamente era tele transportada para outros mundos cheios de magia, encantos, romantismo, atitudes e alegrias bem longe dali. Sim, Renata era professora, tinha instrução, gostava de ler livros de diversos assuntos, tinha desejos de viajar e uma sede de cultura invejável, pesquisava sobre diversos países e hábitos de vida, seus principais artistas e políticos, mas não tinha com quem conversar em casa. Maurício não queria nem saber e achava tudo perda de tempo enquanto os filhos estavam sempre ocupados demais com seus videogames e celulares. Maurício e Renata dividiam assuntos triviais do maçante dia dia: "O que você prefere para o jantar?", "Abasteceu o carro?", "Pagou a conta de luz?", "Foi na escola do Pedro Henrique?"... essas coisas.
Mas na hora de dormir Maurício despertava de fato e estava sempre disposto para fazer sexo enquanto Renata não tinha mais interesse algum, ela tinha que fechar os olhos com força e imaginar que estava com o Rodrigo Lombardi, Leonardo DiCaprio, Bono Vox, até com o Paul Stanley ela se imaginou na cama. Apesar de não ter mais nenhuma atração física pelo marido que estava gordo e careca, ela não queria magoá-lo jamais e por isso cedia todas as vezes que ele lhe assediava. Mas uma hora não deu mais para ceder, pois até o cheiro dele começou a incomodar terrivelmente. Não adiantava mudar nem a marca de sabonete, pois quanto mais suava, pior ficava e era um suor azedo que vinha de sua nuca, cabeça e pescoço e exalava enquanto ele a penetrava e dizia obscenidades com a intenção de excitá-la. Um dia ele pediu para ela chupar seu pescoço e aí não teve jeito, foi a gota d'agua. Ela gritou: "Basta! Chega! Nunca mais eu quero trepar com você!". E o pobre sem entender nada lhe perguntou o porquê, então, sem papas na língua, Renata gritou em alto e bom som: "Você fede! Você fede azedo! Pior ainda nos dias de calor, misericórdia homem!".
Um abismo silencioso se fez entre os dois para sempre, exceto no dia da audiência em que Renata e Maurício assinaram o divórcio. Ela estava radiante, dormia bem como nunca em sua cama nova! E ele, visivelmente mais magro, bem vestido e muito cheiroso, cheiro de perfume importado, coisa fina mesmo. Assinaram os papéis, deram-se as mãos e cada um seguiu sua nova vida, cada qual com suas expectativas.
Ele ainda não se conformava como um simples problema de suor podia ter feito ela simplesmente desistir de tudo. Já ela, não sabia porque demorou tanto para dizer a ele que não sentia mais nada e o pouco que sentia, era o enjoo que vinha da sua nunca toda vez que se encostavam.
Vida que segue, amores que vêm, amores que vão.
Tempos líquidos é o que temos para hoje, Tim Tim!
 
(Mariana de Almeida)
 
 

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