segunda-feira, 31 de julho de 2017

Presente.

Há mais passado no presente
Que presente em nós mesmos
Há menos futuro em nosso presente
Que supúnhamos no passado
De um outro tempo presente
O tempo é de desordem
O clima é instável
A natureza está em fase terminal
Brotam-se cancro do que semeamos
Abrem-se feridas de pus e sangue
Ao invés do botão de flor
Éramos ingênuos ou só idiotas?
Éramos sonhadores ou só crianças?

Fomos o que nunca seríamos
Traímos nossos átomos e moléculas
Nos corrompemos envenenando a água
E depois servindo-a em jarras de ouro
A indigestão é ácida...
A sede de tudo não tem cura
A fome de ontem não tem futuro.

(Mariana de Almeida).



Diário.

Nesse diário de memórias
Guardo somente o que importa
Palavras e sentimentos
Todos registros a bordo
Desse navio inconstante
Que assistiu a tantos naufrágios
E tantas despedidas nas embarcações...
Há mais amor nas despedidas que nas chegadas.


(Mariana de Almeida).
 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Não procure por mim.

Não procure por mim
Estarei onde sua imaginação
Não pode alcançar;

Não procure por mim
Estarei sempre longe daqui
E mais perto do céu;


Não procure por mim
Nos grandes eventos, nos saraus
Não vou...

Sou simples, sozinha e inquieta
Me encontre em algum corredor no mercado
Na seção de vinhos ou na tabacaria
Ou ainda na fila do caixa
Aflita...
Sem saber com qual cartão pagarei;

E se estarei viva quando a fatura chegar
Eu deveria saber...
Caso não estiver, poderia levar mais vinhos.
A vida é curta, a noite é longa.

( Mariana de Almeida)
.
 
É sério mesmo tudo isso?
É sério mesmo toda essa pose?
É sério mesmo todo esse status?
É sério mesmo toda essa falsa elegância?
É sério mesmo toda essa lucidez?
E todo esse cálculo inútil?
E toda imaginação jogada fora?
E todas as viagens não idas?
E todas as histórias sem fins?
E todas as contas não pagas?
E todas as bebidas não tragadas?
E todas essas ruas desertas?
E todo o resto, tantas palavras, foram todas ditas?
Ah...bobagens, mentiras à toa, ilusões de quinta
Português escrito errado, rimas engasgadas
Nada tão sério, de fato, risos no ar, lágrimas sob o rayban
Garrafa pela metade, copo cheio e Chico ao fundo
Estrada de novo, o futuro é logo ali.


O avião já decolou
O Futuro foi ontem
Você desocupado e nem viu
O céu tá sobrecarregado
Aeronaves, nuvens e almas
Entram em colisão astral
Estamos todos perdidos
Nessa estranha estação
Não dá mais para voltar
Não dá mais para seguir
Não dá mais para voar
Não dá mais para chegar
O futuro foi ontem
O presente não há
E o passado é hoje!
Nunca mais amanheceremos
Longe daqui, meu bem.

(Mariana de Almeida).
 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Só.

De todas as mentiras
Que não te contei
Você foi se apaixonar
Justo pela minha verdade
Nua, crua e cheia de sangue
Que tanto teimei em negar...
Minha intenção nunca foi te matar
Mas minha verdade é pura navalha
Que corta sem nenhuma contrição
Deixo o amor para quem sabe mentir
Sigo só afiando a lâmina da solidão.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Acabou.

Acabou daquela forma mais blasé
Impessoal, indiferente, insensível
Tanto faz a água da chuva que inunda a casa
Ou a alta do dólar que aumentam os lucros;

Tanto faz se é dia ou noite
Se veste azul ou cinza
Se ouve Mautner ou Tom Zé
Se bebe o tinto ou o branco;

Tanto faz quando se morre!


(Mariana de Almeida)
Foto: Rio de Janeiro, Copacabana, um dia frio.

Tempo da espera.

Quando repiquei os cabelos todos
Em frente ao espelho d'água
E vi meus pedaços caindo na poça
Sabia que não poderia voltar atrás
Era o tempo da espera que começara
Era o tempo das grandes podas
E minha alma passaria por este ciclo
Para seu solo, de novo, poder germinar
Fui menina, fui mulher e fui deusa
Minhas raízes e tubérculos cresceram
Agarram-se à Terra e gerei frutos
Fui mãe, fui rainha e fui mendiga
Dei, para o amor, tudo que não tinha
Agora, da morte, renasço mais jovem
Do tempo da espera, me aguardo ansiosa
A volta é sempre melhor que a ida
A volta nos dá gratidão e sabedoria
Na ida só levamos na mala a vaidade
Em frente ao espelho d'água
Pude me ver, de novo, uma menina.

(Mariana de Almeida).