terça-feira, 22 de agosto de 2017

Há muito terminei com a mulher que um dia eu fui;
Às vezes, distraidamente, a encontro em um espelho qualquer;
Nos comprimentamos formalmente
Ela segue para o passado
Eu sonho para o futuro.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Abusos.

   Quando sofremos um abuso, nunca mais podemos viver como antes desse abuso! Não podemos esquecer nem fingir que não aconteceu, arduamente temos que aprender a sobreviver a ele e conviver com essa dor da forma menos trágica possível.
   Mas como? Eis a questão! Não depende de nós os sintomas que sentimos no corpo, a ansiedade generalizada, o suor gelado nas mãos no meio de uma tarde quente, a desordem mental de alguns segundos que nos deixam tonta, a vontade de sumir da face da Terra. O primeiro pensamento é: "Calma! Respira fundo, conta até dez, conta de novo, respira, segura, toma um copo de água e espera. Chora então, porra! Chora de uma vez, sente o ódio, vomita toda essa lembrança... toma mais água e se acalma". É assim, infelizmente, o caos nos visita sem aviso prévio. Um dia eu estava na fila do cinema e pá! Veio aquele horror! Outra vez, na porta da escola esperando minha filha. Outra enquanto atendia um cliente que era um fofo, um doce de pessoa, mas é involuntário, está tudo aparentemente ótimo quando de repente aquele fantasma filho da puta te ataca do nada. Algo foi tirado de mim sem minha autorização, entende? Meu corpo não consentiu, nem minha alma e nem minha moral. Quero vingança, quero uma recompensa por esse assalto, mas não há recompensa nenhuma, eu perdi! Simples assim.
   Você é criança e roubam sua inocência, sua paz e tranquilidade, roubam sua integridade e ninguém é julgado nem condenado por isso. Você nunca mais confia em ninguém e se confiar, será em alguém tão machucado e roubado quanto você. A única coisa boa é que agora vocês poderão se foder juntos, cada um lambendo a ferida do outro e criando um vínculo não tão simples de se desfazer depois.
   Aí você decide buscar ajuda, já é um adulto e não pode mais continuar sentindo aquela dor. E o que acontece? Você descobre que continua sofrendo outros abusos e que não pode fazer nada! Você sofre abuso machista diariamente, abuso do governo, do sistema bancário, do trabalho, da sociedade em geral e inclusive do terapeuta que cobra uma fortuna por 50 minutos de papo. Então você não pode se dar a esse luxo porque você é um fracassado de merda que não pode pagar meio salário mínimo por 50 minutos dialéticos sobre o que pode significar a vida. Então você simplesmente toma drogas legalizadas para se livrar do mal estar. Antidepressivos de manhã, ansiolíticos para deitar, uma bebida para relaxar e sentir-se uma pessoa descolada e adulta. E aí você entrou naquele espiral de abusos sem fim. Você mesmo se abusa para poder cometer outros abusos, porque de alguma forma agora você tá viciado em sofrer abusos, dói e dá prazer ao mesmo tempo.
   E como sair disso? Como renunciar a todo o sistema que alimenta nossa doença? Como recuperar quem eu fui quando eu era integralmente minha? Quando eu conseguirei me divertir novamente sem isso tudo? Quando quebrarei esse ciclo e serei livre? Como mandarei o sistema, o governo, o dinheiro e o terapeuta para a puta que os pariu? Quando pararei de alimentar meu câncer?
   Eu não sei, vou tentando um atalho aqui, outro lá. Escrever sempre ajuda, impossível conter a poesia, então deixo fluir. Tento ser mais saudável, mesmo se a comida e a água já estão envenenadas, tento simplesmente aceitar o que já foi e escolher melhor o que virá, tento estar próxima à minha classe, aos meus semelhantes e busco a doçura em qualquer lugar. 
   Enquanto houver doçura e ternura, ainda há uma possibilidade de humanidade e de esperança de um mundo melhor.
 
(Mariana de Almeida).
 
 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Maternidade.

A maternidade entardeceu-me
O verão quente da juventude
Passou...
Chegou o outono
E seu fim de tarde
A barriga cresceu
Tornou lua cheia
Os seios grandes
Bicos abertos
Esguicham leite
O rosto redondo
Os lábios grandes
E a fúria da luta
A cria chegou
Com promessa de futuro
Com fome de presente
Estava tudo pronto
Meu colo e minhas noites
Nossas mãos e nossos olhos
Não havia o que temer
Depois de tudo, juntas
O mundo é pequeno
Imenso é o nosso amor
De carne, alma, e silêncio
Pequena é a vida
Imenso é o tempo
Sem fim.

(Mariana de Almeida).
 
 
 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Do amor.

Do amor
Conheço todas as cores
Ao imaginar um jardim
Onde só colheria flores;

Da dor
Conheços todas à risca
Ao tentar ressuscitar flores
Me feri aos espinhos todos;

Demorei para entender
Que de flores e amores
Só colhem-se as dores
O resto vira poeira ou poesia.

(Mariana de Almeida).


 

A paixão.

A paixão é um tiro certeiro
Dentro da alma da gente
Desespera o homem
Desgoverna a ordem;

Tiro que não mata
O pobre peito humano
Só fere e sangra
De desejos insanos.

A paixão tortura
Sem piedade
A alma e a carne
Do homem que sente.

(Mariana de Almeida).
 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Medida certa.

Tão triste amar e não saber amar
Tão triste amar e perder-se
Tão triste amar e não bastar!
 
Queria tanto ter aprendido, eu queria
Amar me teria sido útil na vida
E até me feito mais feliz
Amei o que não pude
O que não é possível
O que não é de bom tom!
 
Amei de mais e de menos
Mas nunca amei a dose certa
A dose que me teria triunfado
A dose que me teria honrado
Teria eu então vencido na vida!
 
Ninguém poderia ter zombado de mim
E do amor que não tive
Nem do amor que dei em vão
Ou que não pude ter
Por infinitas razões
Nunca soube qual a dose certa
Do que não tem medida!
A dose que me faltou
Me mata de sede até hoje!
 
 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Do amor.

Amor é quimica
Não é poder
Exceto se o espinho
Vingou
O que era promessa de flor;
A flor resiste
Mesmo se regada a sangue
Onde era promessa de água.


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Cinza.


Das cores vivas que inventei
Apagaram!
Das cores vivas que pintei...
Apagaram!
Das cores vivas que vesti
Apagaram!
Das cores vivas que insisti
Apagaram!
Mandaram apagar e calar!

Nova ordem foi dada
Ao novo tempo
Que se impôs sobre a cidade
Cores vivas à la Frida Kalho
As cores do nosso sangue latino
Por tantos séculos castigado
Foram todas assassinadas.

Mancharam de cinza
Para sempre a memória
Dos novos tempos que chegaram
O cinza dos muros é o cinza
Que a gente não queria
O cinza do mau tempo
O cinza da tristeza
Nunca uma cor traduziu tanto
A dor do nosso tempo.

(Mariana de Almeida)

Imagem: Pintora Mexicana Frida Kahlo.




Trama

Todo mundo mente
Todo mundo engana
Na vida e na cama
Ninguém se dá por contente
Se não muda a trama;

Desde os meninos do parque
Até as mocinhas dos lares
Desde o jornal da manhã
Até a novela do jantar
Todo mundo muda a trama;

Todo mundo mente
Todo mundo engana
A Pesce, a Maria e a Leitão
O William, o Silvio e o Faustão
Eu, você e todo mundo então;

De engano em engano
Tecemos a trama
Cada um com sua artimanha
Para enaltecer o enredo
De nosso ledo desfecho.

(Mariana de Almeida).

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A Deusa.

A Deusa que habita minha pele
Que incendeia minha cabeça
Semeia caminhos com palavras...
Ora cheia de rimas, ora cheia de faltas
Que agita meu sono e alucina meus sonhos
Rouba-me dos dias e me afasta da vida
Planta dores na ilusão de colher flores
Acredita por um segundo na Vida
Que seria justa, não fosse os homens
Essa Deusa que teima, insiste e arde
Está fértil e se encontra em pleno cio
Fecunda palavras e pari poesias
Dizem as profecias, quem em breve,
Terá seu nome revelado em algum livro
Salve arte, Salve a poesia
Vencemos a morte pela literatura!


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Amor à primeira vista:

Foi cegueira imediata
Alucinação
Retinas queimadas;

E um mundo para atravessar
Sem cão guia
Sem retorno
E sem perdão;

Labirinto oculto
Essa nossa paixão
Em que o dia é escuridão
E a noite clara visão.

(Mariana de Almeida).

Cabelos.

Depois da tesoura ter feito estragos,
Repicado todos os cabelos
Com a lâmina do desespero
Desejo de morte e renascimento
Eis que ao sobreviverem
Estão, novamente, crescendo.
 
(Mariana de Almeida).
 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Mãe e filha.

- Mãe, onde você está?
- Oi, minha filha. Eu estou indo para casa.
- Mas por que demora tanto?
- Eu estou no trânsito, na rua, nesse mar de gente e carros esperando o semáforo abrir. E provavelmente quando chegar a minha vez, o semáforo ficará vermelho e novamente eu terei de esperar. É contra minha vontade, eu queria chegar logo para te ver e te abraçar, tirar os sapatos, colocar minha roupa mais simples, te olhar e te sorrir.
- Mas mãe, as vezes você chega e nunca sorri. Já entra em casa fazendo mil perguntas , arrumando mil coisas, reclamando e a última coisa que faz é realmente olhar para mim. Aliás, você olha para me chamar a atenção de algo que fiz ou que não fiz. Por isso eu nunca sei o que devo fazer e o que não devo fazer jamais. Eu queria tanto saber, mãe! Mãeeee, vai demorar? Mãe, você ainda está aí?
- Oi, eu estou sim, estou no semáforo! E estou pensando sobre o que me disse agora mesmo, eu não sou sempre assim... É porque tanta coisa já aconteceu no meu dia até esse momento de voltar para casa e pensar que vou descansar, mas que nunca descanso, me entende?
- Então você não descansa porque não quer! Eu descanso quando chego da escola, jogo tudo para o alto, fico descalça, assisto minha série, depois jogo um pouco, assalto da geladeira as coisas que mais gosto e as vezes até durmo a tarde, coisa que nunca fiz antes, nem quando eu era bebê, não é verdade, mãe?
- É verdade, você dormia muito pouco e durante o dia era ligada na tomada, quanta energia! Você não tem um pingo de constrangimento de relatar que não faz nada a tarde? Como é que eu vou descansar desse jeito? Com a casa de pernas para o ar? Quem vai cozinhar, limpar e guardar as coisas?
- Ah mãe, eu guardo minhas coisas sim, mas é na hora que eu posso. E eu faço muitas coisas a tarde sim, só que coisas boas. E você sabe que eu adoro cozinhar e estudar com você, não sabe?
Cozinhar você adora e já tem talento! Mas para lavar a louça, não né? Outra coisa que você tem que fazer é parar com essa mania de me esperar chegar para estudar, você estuda de dia e tira as dúvidas comigo a noite e quando não puder comigo, tira as dúvidas com o google!
- Mas mãe, não é a mesma coisa, eu gosto de estudar com você, juntas e deitadas no sofá, é tão mais gostoso! E com você eu entendo as coisas que aquele professor passa, com ele eu não entendo nada e não é minha culpa! Ninguém da classe gosta dele, parece que ele fala para dentro, credo!
- Você sempre tem uma explicação convincente para tudo, não é espertinha? Na vida você tem que se virar sozinha o máximo que puder, depender dos outros é uma droga, nunca é bom. E eu não vou estar a vida toda ao seu lado, algumas decisões e atitudes são suas, somente suas e acredite, é a melhor coisa da vida. Mesmo se você errar, ninguém vai poder te culpar ou te humilhar por isso.
- Tá bom mãe, tá bom! Mas agora você está chegando?
- Quase! Agora eu peguei a avenida principal. O trânsito está lento, mas está andando. Você já tomou banho? Você trocou a água da cachorra? Deu a ração para ela? Ah e você deu o recado paro perueiro escolar que amanhã eu que irei te levar? Não vai esquecer de fazer jejum depois das 22h porque amanhã tem exame de sangue cedinho, hein?
- Tá vendo? Você nem espera chegar em casa para fazer um monte de pergunta...aff. Que saco ter que fazer exame de novo amanhã! Não aguento mais!
- Só estou perguntando para você não esquecer! Você sabe que um mês sim e um mês não tem que colher exame, fazer o quê?
- Mas mãe, por que só eu tenho essa doença? Eu nunca vi ninguém com a mesma doença! Nem na escola nem na família. Se você e meu pai não tem, por que eu tenho?
- Eu não sei, meu amor! É uma doença autoimune, não sabemos porque você a desenvolveu. Podem ser tantas coisas... até de origem emocional, ou herdada geneticamente de algum antepassado ou porque aconteceu mesmo. Não há como saber meu bem, mas vamos trata-la sempre, fazer todos os exames e quem sabe um dia a ciência encontre a cura. Em Cuba há excelentes médicos que investigam essa doença, acredito que um dia a cura venha de lá, enquanto isso muita paciência. Existe pessoas com muitas outras doenças, você não é a única que sofre, meu amorzinho.
- Mãe, eu não queria ter essa doença. Todos meus amigos perguntam o que são essas manchas. Tenho vontade de xinga-los!
- Eles não perguntam por mal, acredite! É por curiosidade mesmo e eles não imaginam que isso possa te magoar, não tenha raiva. Explique sempre que puder, eles não sabem do que se trata, assim saberão e respeitarão, acredite em mim.
- Mãe, eu queria tanto viajar para longe, só eu e você. Vamos fazer um intercâmbio juntas? Vai ser ótimo para desenferrujar seu inglês e vivermos coisas novas. Canadá deve ser ótimo!
- Sim, Canadá é excelente! Iremos assim que tivermos uma oportunidade! Será maravilhoso e você vai aprender muitas coisas. Se eu não puder ir, você vai! Eu te amo tanto...!
- Eu também te amo, mãe, muito! E estou com fome! Você ainda vai demorar?
- Não, acabei de chegar na garagem. Estou subindo e quero só ver essa bagunça aí! Beijos!
- Ebaaa! Beijo, mãe!
 
 (Mariana de Almeida).
 
 
 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Meu grande amor.

Hoje eu vi o meu grande amor
Aquele grande amor do passado
Que nunca morre dentro de nós
Ele vive de lembranças
Cheiros e saudades
De uma inocência
Que se foi para nunca mais...

Meu grande amor envelheceu
Foi para a Lua, viu as estrelas
Atravessou muitas noites
Mergulhou no mar escuro
Nas profundezas das águas
Meu amor não sabia nadar...

Meu grande amor continua lindo
Mas tão cansado, tão cansado
O mundo o levou a nocaute
Três rounds a zero
O chão agora é seu lugar
Mas mesmo deitado e sujo
Entre carros, motos e aviões
Meu amor continua lindo...

Ele disse que sempre me esperará
Juntos, e longe daqui, iremos voar
Um novo mundo vamos ganhar
Longe da dor e perto da noite
Longe do chão e perto de Deus
Abençoados para sempre então.

(Mariana de Almeida).

Não passarão.

Na manha
Na força
Na marra
Ou na porrada
A vida te joga na estrada;

É matar ou morrer
Cada dia superação
Cada dia ilusão
Cada dia coração;

Eu que tanto apanhei
Aprendi a bater
Aprendi a cortar
Aprendi a fiar
Meus versos como navalha
Na cara dos canalhas;

Sobre mim não passarão
Impunemente
Sem sangrar o coração.

(Mariana de Almeida).