segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Abusos.

   Quando sofremos um abuso, nunca mais podemos viver como antes desse abuso! Não podemos esquecer nem fingir que não aconteceu, arduamente temos que aprender a sobreviver a ele e conviver com essa dor da forma menos trágica possível.
   Mas como? Eis a questão! Não depende de nós os sintomas que sentimos no corpo, a ansiedade generalizada, o suor gelado nas mãos no meio de uma tarde quente, a desordem mental de alguns segundos que nos deixam tonta, a vontade de sumir da face da Terra. O primeiro pensamento é: "Calma! Respira fundo, conta até dez, conta de novo, respira, segura, toma um copo de água e espera. Chora então, porra! Chora de uma vez, sente o ódio, vomita toda essa lembrança... toma mais água e se acalma". É assim, infelizmente, o caos nos visita sem aviso prévio. Um dia eu estava na fila do cinema e pá! Veio aquele horror! Outra vez, na porta da escola esperando minha filha. Outra enquanto atendia um cliente que era um fofo, um doce de pessoa, mas é involuntário, está tudo aparentemente ótimo quando de repente aquele fantasma filho da puta te ataca do nada. Algo foi tirado de mim sem minha autorização, entende? Meu corpo não consentiu, nem minha alma e nem minha moral. Quero vingança, quero uma recompensa por esse assalto, mas não há recompensa nenhuma, eu perdi! Simples assim.
   Você é criança e roubam sua inocência, sua paz e tranquilidade, roubam sua integridade e ninguém é julgado nem condenado por isso. Você nunca mais confia em ninguém e se confiar, será em alguém tão machucado e roubado quanto você. A única coisa boa é que agora vocês poderão se foder juntos, cada um lambendo a ferida do outro e criando um vínculo não tão simples de se desfazer depois.
   Aí você decide buscar ajuda, já é um adulto e não pode mais continuar sentindo aquela dor. E o que acontece? Você descobre que continua sofrendo outros abusos e que não pode fazer nada! Você sofre abuso machista diariamente, abuso do governo, do sistema bancário, do trabalho, da sociedade em geral e inclusive do terapeuta que cobra uma fortuna por 50 minutos de papo. Então você não pode se dar a esse luxo porque você é um fracassado de merda que não pode pagar meio salário mínimo por 50 minutos dialéticos sobre o que pode significar a vida. Então você simplesmente toma drogas legalizadas para se livrar do mal estar. Antidepressivos de manhã, ansiolíticos para deitar, uma bebida para relaxar e sentir-se uma pessoa descolada e adulta. E aí você entrou naquele espiral de abusos sem fim. Você mesmo se abusa para poder cometer outros abusos, porque de alguma forma agora você tá viciado em sofrer abusos, dói e dá prazer ao mesmo tempo.
   E como sair disso? Como renunciar a todo o sistema que alimenta nossa doença? Como recuperar quem eu fui quando eu era integralmente minha? Quando eu conseguirei me divertir novamente sem isso tudo? Quando quebrarei esse ciclo e serei livre? Como mandarei o sistema, o governo, o dinheiro e o terapeuta para a puta que os pariu? Quando pararei de alimentar meu câncer?
   Eu não sei, vou tentando um atalho aqui, outro lá. Escrever sempre ajuda, impossível conter a poesia, então deixo fluir. Tento ser mais saudável, mesmo se a comida e a água já estão envenenadas, tento simplesmente aceitar o que já foi e escolher melhor o que virá, tento estar próxima à minha classe, aos meus semelhantes e busco a doçura em qualquer lugar. 
   Enquanto houver doçura e ternura, ainda há uma possibilidade de humanidade e de esperança de um mundo melhor.
 
(Mariana de Almeida).
 
 

2 comentários:

  1. Intenso... soco no estômago... escrita impecável, como sempre... fantasmas soltos, como nunca...

    ResponderExcluir
  2. É preciso fazer as pazes com os fantasmas, perdoar.

    ResponderExcluir