sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Mãe e filha.

- Mãe, onde você está?
- Oi, minha filha. Eu estou indo para casa.
- Mas por que demora tanto?
- Eu estou no trânsito, na rua, nesse mar de gente e carros esperando o semáforo abrir. E provavelmente quando chegar a minha vez, o semáforo ficará vermelho e novamente eu terei de esperar. É contra minha vontade, eu queria chegar logo para te ver e te abraçar, tirar os sapatos, colocar minha roupa mais simples, te olhar e te sorrir.
- Mas mãe, as vezes você chega e nunca sorri. Já entra em casa fazendo mil perguntas , arrumando mil coisas, reclamando e a última coisa que faz é realmente olhar para mim. Aliás, você olha para me chamar a atenção de algo que fiz ou que não fiz. Por isso eu nunca sei o que devo fazer e o que não devo fazer jamais. Eu queria tanto saber, mãe! Mãeeee, vai demorar? Mãe, você ainda está aí?
- Oi, eu estou sim, estou no semáforo! E estou pensando sobre o que me disse agora mesmo, eu não sou sempre assim... É porque tanta coisa já aconteceu no meu dia até esse momento de voltar para casa e pensar que vou descansar, mas que nunca descanso, me entende?
- Então você não descansa porque não quer! Eu descanso quando chego da escola, jogo tudo para o alto, fico descalça, assisto minha série, depois jogo um pouco, assalto da geladeira as coisas que mais gosto e as vezes até durmo a tarde, coisa que nunca fiz antes, nem quando eu era bebê, não é verdade, mãe?
- É verdade, você dormia muito pouco e durante o dia era ligada na tomada, quanta energia! Você não tem um pingo de constrangimento de relatar que não faz nada a tarde? Como é que eu vou descansar desse jeito? Com a casa de pernas para o ar? Quem vai cozinhar, limpar e guardar as coisas?
- Ah mãe, eu guardo minhas coisas sim, mas é na hora que eu posso. E eu faço muitas coisas a tarde sim, só que coisas boas. E você sabe que eu adoro cozinhar e estudar com você, não sabe?
Cozinhar você adora e já tem talento! Mas para lavar a louça, não né? Outra coisa que você tem que fazer é parar com essa mania de me esperar chegar para estudar, você estuda de dia e tira as dúvidas comigo a noite e quando não puder comigo, tira as dúvidas com o google!
- Mas mãe, não é a mesma coisa, eu gosto de estudar com você, juntas e deitadas no sofá, é tão mais gostoso! E com você eu entendo as coisas que aquele professor passa, com ele eu não entendo nada e não é minha culpa! Ninguém da classe gosta dele, parece que ele fala para dentro, credo!
- Você sempre tem uma explicação convincente para tudo, não é espertinha? Na vida você tem que se virar sozinha o máximo que puder, depender dos outros é uma droga, nunca é bom. E eu não vou estar a vida toda ao seu lado, algumas decisões e atitudes são suas, somente suas e acredite, é a melhor coisa da vida. Mesmo se você errar, ninguém vai poder te culpar ou te humilhar por isso.
- Tá bom mãe, tá bom! Mas agora você está chegando?
- Quase! Agora eu peguei a avenida principal. O trânsito está lento, mas está andando. Você já tomou banho? Você trocou a água da cachorra? Deu a ração para ela? Ah e você deu o recado paro perueiro escolar que amanhã eu que irei te levar? Não vai esquecer de fazer jejum depois das 22h porque amanhã tem exame de sangue cedinho, hein?
- Tá vendo? Você nem espera chegar em casa para fazer um monte de pergunta...aff. Que saco ter que fazer exame de novo amanhã! Não aguento mais!
- Só estou perguntando para você não esquecer! Você sabe que um mês sim e um mês não tem que colher exame, fazer o quê?
- Mas mãe, por que só eu tenho essa doença? Eu nunca vi ninguém com a mesma doença! Nem na escola nem na família. Se você e meu pai não tem, por que eu tenho?
- Eu não sei, meu amor! É uma doença autoimune, não sabemos porque você a desenvolveu. Podem ser tantas coisas... até de origem emocional, ou herdada geneticamente de algum antepassado ou porque aconteceu mesmo. Não há como saber meu bem, mas vamos trata-la sempre, fazer todos os exames e quem sabe um dia a ciência encontre a cura. Em Cuba há excelentes médicos que investigam essa doença, acredito que um dia a cura venha de lá, enquanto isso muita paciência. Existe pessoas com muitas outras doenças, você não é a única que sofre, meu amorzinho.
- Mãe, eu não queria ter essa doença. Todos meus amigos perguntam o que são essas manchas. Tenho vontade de xinga-los!
- Eles não perguntam por mal, acredite! É por curiosidade mesmo e eles não imaginam que isso possa te magoar, não tenha raiva. Explique sempre que puder, eles não sabem do que se trata, assim saberão e respeitarão, acredite em mim.
- Mãe, eu queria tanto viajar para longe, só eu e você. Vamos fazer um intercâmbio juntas? Vai ser ótimo para desenferrujar seu inglês e vivermos coisas novas. Canadá deve ser ótimo!
- Sim, Canadá é excelente! Iremos assim que tivermos uma oportunidade! Será maravilhoso e você vai aprender muitas coisas. Se eu não puder ir, você vai! Eu te amo tanto...!
- Eu também te amo, mãe, muito! E estou com fome! Você ainda vai demorar?
- Não, acabei de chegar na garagem. Estou subindo e quero só ver essa bagunça aí! Beijos!
- Ebaaa! Beijo, mãe!
 
 (Mariana de Almeida).
 
 
 

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